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Viagem 2: A Ilha Misteriosa

Enviado por Ghuyer em sab, 02/04/2012 - 10:26

Desde que Avatar revolucionou o 3D no cinema em 2009, o formato vem sendo cada vez mais utilizado pelos estúdios com o único propósito de ver a bilheteria de seus blockbusters engordar com o alto preço do ingresso. Assim, entrou a moda da conversão. O filme é feito à moda antiga, e convertido para 3D na sala de edição. É mais barato fazer assim, mas o resultado é muitas vezes tenebroso (vide Fúria de Titãs). Pouquíssimos filmes são de fato filmados com câmeras 3D. Portanto, é mais do que decepcionante que um desses raros exemplaresViagem 2: A Ilha Misteriosa seja tão ruim.

Escrito pelos irmãos Brian e Mark Gunn a partir de um argumento concebido pelos dois ao lado de Richard Outten, o roteiro de Viagem 2 já começa forçando a barra ao apresentar o protagonista Sean Anderson (Josh Hutcherson) fugindo da polícia apenas para ser capturado e liberado logo em seguida, como se invadir uma base militar fosse um delito leve. Servindo como ótima síntese do que o filme tem a oferecer pela frente, esses primeiros minutos também acabam escancarando o amadorismo do diretor Brad Peyton com a filmagem em 3D, principal chamativo do lançamento.

Não que o 3D do filme seja ruim. Não é. Pelo contrário, é um dos melhores entre os mais recentes. Há mais profundidade aqui do que em qualquer 3D que eu tenha visto no cinema no ano passado. No entanto, se no geral a queixa massiva contra lançamentos em 3D se resume na escassez de elementos saltando da tela em três dimensões nessas produções – problema que compreende a totalidade das conversões para o formato –, o que atrapalha em Viagem 2 é justamente o exagero e a forma atrapalhada com que a técnica é utilizada. Desde o “O” do título do filme até o plano sequência final, há diversos objetos que são lançados em direção à câmera (e ao olhar do espectador) de forma abrupta, apenas para causar aquela sensação tridimensional. E se na medida certa esse recurso pode ser divertido, quando utilizado à exaustão ele simplesmente perde a força, tornando-se cansativo e marcando a falta de criatividade dos realizadores.

Ainda assim, é somente em função 3D, aliado aos impressionantes efeitos visuais, que Viagem 2 (quase) se salva da catástrofe total.

Tendo a pretensão de ser uma livre adaptação do livro A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne, bem nos moldes do que o primeiro filme da torcemos-para-que-não-vire-uma franquia fez com Viagem ao Centro da Terra, a história de Viagem 2 é um amontoado de situações isoladas que se ligam umas às outras de forma atrapalhada e sem uma unidade narrativa. Aqui, Sean recebe uma mensagem cifrada de seu avô desaparecido e, supondo que esse esteja na tal ilha misteriosa, decifra o texto com a ajuda de seu padrasto Hank (The Rock), para então seguir viagem ao lado deste até lá, onde a aventura prometida finalmente começará. Infelizmente, não só o mistério sobre a localização da ilha é resolvido de forma rápida demais, como o próprio enigma que conta com a localização da mesma se mostra absolutamente tolo (aí devo dizer que achei a essência da ideia bem interessante, ainda que absurda, e creio que se fosse desenvolvida com mais cuidado, daria uma ótima premissa para outro filme*). Além disso, a mediocridade do roteiro fica latente quando, após um primeiro momento empolgante em que Sean e Hank desvendam a localização da ilha misteriosa, o garoto já começa a fazer as malas apenas para ser repreendido por Hank, que o lembra da escola e de que não deve perder as aulas. Ou seja, cria-se um conflito ridículo e forçado somente para haver uma dramaticidade artificial que é logo deixada de lado na cena seguinte. Situações como essa estão espalhadas pelo filme todo.

Por isso, talvez pensando que o filme ficaria sério demais com esses péssimos momentos dramáticos sem uma contraparte cômica, os roteiristas decidiram espalhar dezenas de piadinhas absolutamente sem graça pela narrativa, com a cena de The Rock mexendo o peitoral se afirmando desde já com um dos momentos mais vergonhosos do cinema em 2012. E mesmo eu sendo um dos poucos que não detestam The Rock (vulgo Dwayne Johnson) como ator, compreendendo que ele é bem limitado no geral, mas eficiente em certos papeis, preciso concordar que aqui não é um desses casos específicos. Como o ex-militar Hank, ele consegue apresentar sua pior performance até hoje. Se no todo do filme ele já se mostra incapaz de tornar o personagem qualquer coisa além de um estereótipo patético, sua inexperiência e sua incerteza ficam ainda mais óbvias sempre que se encontra contracenando com Michael Caine – e pelos céus, o que Caine está fazendo aqui?! Mas, no final, a verdade é que ninguém pode reclamar muito de The Rock quando nem mesmo o próprio Caine consegue sobreviver nesse filme.

Como se não bastasse, o diretor Brad Peyton (responsável por Cães e Gatos 2) se mostra incompetente em basicamente todos os aspectos de sua função. Desde enquadramentos sem a menor elegância, tanto em planos fechados quanto abertos, Peyton declara sua imaturidade como cineasta logo naquela que era para ser uma das mais marcantes do longa, quando, ao mostrar os personagens percebendo a vista paradisíaca da ilha, leva a câmera do centro para a direita e então para esquerda de modo incrivelmente amador. Para completar, a direção de arte de Bill Boes também não ajuda na concepção do terreno, criando uma paisagem genérica e excessivamente computadorizada. Além do mais, a geografia do lugar é de um caos completo – e se esse detalhe poderia enriquecer a produção nas mãos de um diretor inteligente, infelizmente não é o que acontece, como Peyton faz questão de deixar claro, confundindo completamente o espectador na mesma cena citada anteriormente (algo na linha do que Marcus Nispel fez em certo momento do remake de Conan).

Aliás, são várias as cenas de múltipla incompetência por parte do diretor (e do roteiro). Por exemplo, se uma reviravolta súbita e tola obriga os personagens a correrem conta tempo para salvarem suas vidas, com o consentimento de todos sobre a urgência da situação, é ridículo que no meio do caminho Sean fique emburrado por Hank não concordar em ir até o vulcão para dar uma olha na lava de ouro, já que isso o tiraria do rumo por dias. E seguindo a linha de raciocínio dos irmãos Gunn, é simplesmente inaceitável que algumas cenas depois determinado personagem de fato até o vulcão e volte de lá em poucos minutos, em um momento do filme que é outra desculpa furada dos roteirista para criar mais um péssimo e dispensável arco dramático.

Contando ainda com um protagonista sem o menor traço de personalidade, Viagem 2 não é nada além da pequena e desinteressante aventura de um grupo de pessoas pelas quais não sentimos a menor empatia. São pouquíssimos os momentos realmente divertidos (a sequência das abelhas é um desses), mas todos acabam sendo diluídos pela total falta de criatividade e de bom senso do projeto. O 3D encanta pontualmente, é verdade, mas esse efeito sozinho não é o suficiente para salvar o filme. Resta admitir que não há sentido em se ter a melhor tecnologia quando não se sabe utilizá-la.

Poltronas 

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