“Você era o escolhido”: destino e livre-arbítrio em "A Vingança dos Sith".

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Enviado por Zeh em ter, 04/05/2011 - 09:48

 

Esse artigo - vamos chamá-lo assim - foi escrito como trabalho final de uma disciplina da Filosofia/UFRGS que cursei no semestre 2010/2. Nela, a turma analisou passagens do livro O Cinema Pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes, do professor Julio Cabrera, da Universidade de Brasília. Um breve resumo do conteúdo teórico compõe a primeira parte do texto (lá embaixo, ponto I).
 
Pretendia-se, no curso, abordar o cinema filosoficamente (como é óbvio), mas a partir de um outro ponto de vista (o que não é assim tão claro): via de regra, considerado pela filosofia, o cinema é utilizado somente (ênfase no 'somente') para ilustração de grandes problemas da disciplina. Nosso objetivo era inverter um pouco esta ordem: a partir de algum filme, constatar qual questão (ou que conceito) filosófica ele propõe, para então buscar guarida nos grandes autores da filosofia. Aparentemente, ainda que o autor do filme (seja ele quem for) não o realize com "intenção filosófica", não conte sua história com a finalidade última de "esclarecer conceitos", parece óbvio que a necessidade do viés filosófico está sempre presente no próprio movimento do conflito dramático, na engrenagem que move qualquer narrativa (a motivação dos personagens, os dilemas dos heróis, etc). Ao invés de apresentar a filosofia e então ilustrá-la com filmes, pretendíamos apresentá-los primeiro e, através deles, introduzir a temática filosófica (daí justifica-se o próprio título do livro, ainda que, nas discussões em sala de aula, tenhamos concluído que o professor Cabrera talvez não tenha sido muito claro na sua abordagem). 
 
Finalmente, ao texto: é uma abordagem introdutória sobre a questão do destino e do livre-arbítrio relativos a Anakin Skywalker, especialmente focados nas suas escolhas em A Vingança dos Sith (todos conhecem a história completa, suponho). 
 
 
“Você era o escolhido”: uma introdução ao tema do destino e do livre-arbítrio em STAR WARS – Episódio III: A Vingança dos Sith.
 
I – Julio Cabrera e os conceitos-imagem
 
O principal ponto da “capacidade filosófica do cinema”, se é possível nominar dessa forma a argumentação de Julio Cabrera em O Cinema Pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes (Rocco, 2006), consiste em apresentar ao espectador aquilo que o autor chama de conceito-imagem. Para Cabrera, os filmes, vistos filosoficamente, são capazes de transmitir conceitos a respeito da realidade das coisas, do mundo real, tal qual (do seu ponto de vista, com mais ‘exatidão’) o que acontece com a filosofia dita “tradicional” (na filosofia escrita, os conceitos são denominados, por ele, conceitos-ideia). Os conceitos-imagem são “um tipo de ‘conceito visual’ estruturalmente diferente dos conceitos tradicionais utilizados pela filosofia escrita” (p. 20), e essa estrutura diferenciada repousa, grosso modo, na perspectiva de que “certas dimensões fundamentais da realidade não podem simplesmente ser ditas e articuladas logicamente para que sejam plenamente entendidas” (p.20). O ponto dessa estrutura, então, é sustentar que essas esferas do real devem ser apresentadas também sensivelmente. Em outras palavras, não basta saber sobre um filme, é necessário “senti-lo”, porque “o que se acrescenta (...) no momento de ver o filme e de ter a experiência que o filme propõe (...) não é apenas lazer (...), mas uma dimensão compreensiva do mundo” (p.21).
 
Esta é, basicamente, a noção do que Cabrera chama de logopatia, e ela é a base da definição do conceito-imagem. No entanto, além da apreensão racional-sensível das esferas do real, o autor inclui ainda, para o “funcionamento” do conceito-imagem, mais duas características: o impacto emocional que deve ser causado pelo filme, isto é, algo que seja dito e que possua certo tipo de apelo de valor “cognitivo, persuasivo e argumentativo através de seu componente emocional” (p.22); e a afirmação dos aspectos do mundo, por parte dos conceitos-imagem, com pretensões de verdade e universalidade. Nesse ponto, porém, Cabrera afirma que essa pretensão é de ordem diferente daquela dos conceitos-ideia: enquanto a última refere-se à necessidade, a primeira pertence à ordem da possibilidade. Ou seja, não é algo que aconteça necessariamente com todos, mas que pode acontecer com qualquer um.
 
A “combinação” desses elementos, portanto, sustenta a abordagem do conceito-imagem: para ser possível, ele deve ser logopaticamente apreendido, deve impactar o espectador e deve apresentar pretensão de verdade e universalidade possível. E, segundo Cabrera, esse modo de apresentação de conceitos é mais “completo” que os meros conceitos-ideia.
 
 
II – A questão do destino
 
A discussão relacionada ao destino desdobra-se, basicamente, em reflexões acerca da liberdade (livre-arbítrio) e da responsabilidade humanas. Neste trabalho, as principais referências em relação ao destino e ao livre-arbítrio, e às respectivas conseqüências, são Sobre o Destino (De Fato), de Cícero (Nova Alexandria, 1993), e Uma Breve Introdução à Filosofia, de Thomas Nagel (Martins Fontes, 2007). 
 
Na primeira obra, Cícero aborda a questão como uma disputa, em que apresenta vários pontos de vista, várias argumentações concernentes à noção de destino e suas implicações. Por exemplo, no começo do tratado, Cícero fala de predições e adivinhações, ou como sendo questões de acaso ou de certo exagero (como no caso da predição em que o oráculo prevê que Dáfitas morreria ao cair do cavalo, e o sofista morre ao cair de um rochedo denominado “Cavalo” - De Fato, p.11), ou como, no caso das adivinhações dos astrólogos, implicando situações impossíveis (“se alguém (...) nasceu ao elevar-se da Canícula, esse não morrerá no mar”, p.14-15). A argumentação geral do tratado, no entanto, parece, ao final, querer justificar que a designação de “destino” não é necessária. No entanto, isso não exclui o fato de que, para Cícero, há uma determinação na vida humana. Por sua vez, isso também não exclui a possibilidade da responsabilidade, porque os fatos são causados, em última análise, por causas que, de certa forma, dependem do agente. O “destino”, aparentemente, é o “não poder fazer de outra maneira” aquilo que se faz exatamente porque há uma série de fatos (uma rede de fatos, complexa, e não uma série linear) que causam tal ação. 
 
Thomas Nagel, de certa forma como Cícero, também desenvolve a questão do livre-arbítrio e suas implicações. No entanto, ele parece dar mais destaque aos particulares da ação moral, ao momento exato da escolha, do agir, do fazer ou não fazer. Para ilustrar, em certo momento, a existência do livre-arbítrio, ele assinala que “até o momento da escolha, não há nada que determine irrevogavelmente qual será a sua escolha” (2007, p. 51). Mais a seguir, explica que, de fato, certos eventos são determinados (basicamente, eventos naturais), e discute a implicação, na responsabilidade moral, da predeterminação de todos os fatos.  Porém, esse desenvolvimento é exatamente a proposta do item III.
 
 
III – Anakin Skywalker e o desequilíbrio da Força no Episódio III
 
A bem da verdade, o arco dramático completo de STAR WARS só é completamente perceptível analisando-se os seis filmes da saga, as “duas trilogias”. Isso porque há duas interpretações diferentes sobre o verdadeiro protagonista da série, devido ao lapso de tempo entre a realização dos filmes: a “primeira” trilogia foi produzida a partir de 1977, e começa pelo quarto episódio da série (no “meio” da história), e é focada em um personagem (Luke Skywalker); a “segunda”, por sua vez, é como um “prólogo”, e conta a história de Anakin Skywalker. Este se torna, ao final do Episódio III, o vilão Darth Vader, antagonista de Luke na trilogia “original”. No entanto, o ponto deste trabalho é focar as atitudes de Anakin no terceiro episódio, momento de culminância de uma trajetória de escolhas baseadas em um suposto “destino”. 
 
Os filmes da série Star Wars são filmes de fantasia, com uma temática um tanto simplista (a luta do bem contra o mal) e recheada das mais diversas simbologias (a “jornada do herói” é a principal). Porém, como aponta Cabrera, é possível perceber um conceito-imagem “mesmo quando se trata de um filme absolutamente fantástico ou irreal” (2006, p. 26). Dessa forma, considerando as condições de identificação dos conceitos-imagens expostas por Julio Cabrera, pretende-se mostrar que, ainda que não seja dominante no filme (é uma história que precisa conectar vários elementos da série toda), é possível identificar um conceito-imagem relativo ao destino, a saber, algo como “o destino é causado pela escolha”, semelhante ao que, aparentemente, Cícero (e, posteriormente, os chamados “compatibilistas”) defende.
 
Na história, Anakin está às voltas com duas “predições”: uma advinda da sua relação com os Jedi (grosso modo, guerreiros que são representação do “bem”, ordem da qual ele faz parte), em que ele seria o “cumpridor” de uma antiga profecia – “aquele que trará equilíbrio à Força”; outra, um sonho do próprio Anakin, em que seu interesse amoroso morre, evento ao qual ele dirige suas ações na pretensão de evitá-lo. 
 
Não há, no filme, nada que justifique ambas as predições, o que seria motivo suficiente para, por exemplo, Cícero aconselhar Anakin a desconsiderá-las. No entanto, como está inserido em uma Ordem que segue a determinados ensinamentos, Anakin crê firmemente que seu sonho tornar-se-á realidade caso não faça nada para evitá-lo. De um lado, porém, estão os Jedi, na figura de Obi-Wan Kenobi, aconselhando-o a não agir de forma diferente ao ensinado pelo treinamento, e seguir na “batalha contra o mal” que está em andamento. De outro, há Palpatine, chanceler da República, que inicialmente se apresenta como um “protetor” para Anakin, mas revela-se, ao final do filme, a representação pura do mal a ser combatido. Ele oferece a Anakin, através do lado negro da Força, o poder para salvar sua amada. Por diversas circunstâncias do personagem em relação aos Jedi, Anakin aceita, junta-se a Palpatine e destrói a Ordem da qual fazia parte. Em um decisivo momento do filme, Obi-Wan refere-se a ele: “Você era o Escolhido, Anakin! Deveria destruir os Sith, e não se juntar a eles! Trazer o equilíbrio à Força, e não jogá-la nas trevas!" Definitivamente, Anakin “desequilibra” a Força, descumpre a primeira profecia. A questão principal, no entanto, diz respeito à segunda predição. Anakin, antes do referido diálogo com Obi-Wan, acaba por provocar o incidente que resulta na morte de seu interesse amoroso. Eis o problema: ele próprio torna-se a causa da morte que deveria evitar.
 
A questão é, aparentemente, óbvia: se não houvesse passado para o lado negro da Força, Anakin evitaria a morte da personagem? Ou, ao contrário, a morte da personagem estava determinada anteriormente, e não haveria nada que ele pudesse fazer?
 
Sendo ou não verdadeiras as “profecias”, as causas que levariam Anakin ao lado negro pareciam estar, por assim dizer, alinhadas, determinando certo caminho que resultaria nos atos de fato realizados. Na visão de Cícero, ao se referir ao destino como uma rede de causas, as ações acontecem quando uma determinada conjunção de causas acontece. No caso de Anakin, havia outras causas atuando do mesmo lado (no caso, “motivos para ceder ao lado negro”, ou “motivos para odiar os Jedi”), talvez não de mesmo peso, mas, na união, como suficientes para desencadear suas ações. Por outro lado, os motivos que o levariam a permanecer na Ordem Jedi pareciam não ser suficientes, ou, ao menos, apareciam a ele como afetando-o “positivamente” pouco. Não “valeria a pena” trazer o equilíbrio à Força frente a perder uma pessoa queria. Ele, portanto, pesou seus motivos. Ele escolheu.
 
Por sua vez, esses motivos não eram todos originários dele próprio (Anakin). Alguns, talvez a maioria, eram sugestões de Palpatine, como parte do plano de trazer Anakin para o lado negro. Ele fora manipulado, fora, de certa forma, determinado a acreditar em certos princípios que, ao final, mostraram-se errados. Como responsabilizar o jovem, portanto, se os motivos eram externos a ele?
 
No argumento de Nagel, em que ele apresenta justificativa tanto para o determinismo quanto para a liberdade, Anakin deveria, sim, ser responsabilizado. Ele aponta que, “o fato de alguém estar predeterminado a agir mal não significa que ele não agiu mal” (2007, p. 56). E, aparentemente, este é o ponto. Nem tanto a favor de um determinismo (como se disséssemos “Anakin só poderia agir assim”), nem tanto a favor de um “libertarianismo”, uma ausência total de causas (“ele poderia ter agido de qualquer maneira”). Aparentemente, são duas instâncias: uma externa, natural, e outra, por assim dizer, “interna”. A morte da personagem aconteceria de qualquer modo, porque isso é da natureza. No entanto, por suas escolhas (seguir seus sonhos, não seguir os ensinamentos da Ordem), Anakin “adiantou” o momento da morte que tanto ele fez para evitar. No caso dele, faltou um pouco de sabedoria Jedi (ou seria estóica?) para escolher as maneiras corretas de fazer e, como Cícero, evitar apegar-se a “predições”. Em última análise, a questão do destino/ liberdade parece ser um embate sobre a importância do “o que acontece” em relação ao “como acontece”. A título de curiosidade, cabe esclarecer que é o “retorno do jedi” Anakin Skywalker, destruindo Palpatine, que cumpre a primeira profecia e traz o “equilíbrio à Força”.
 
 
 
REFERÊNCIAS:
 
CABRERA, Julio. O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
CÍCERO, Marco Túlio. Sobre o Destino. Tradução e notas de José Rodrigues Seabra Filho; posfácio de Zélia de Almeida Cardoso. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.
NAGEL, Thomas. Uma breve introdução à filosofia.  Tradução de Silvana Vieira. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
 

 

Comentários

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Enviado por Ghuyer em seg, 04/11/2011 - 00:56

Já leu, conhece, ouviu falar de um teórico alemão chamado Vilém Flusser? Tive que ler 'O Mundo Codificado' dele para Teorias da Comunicação (além de apresentar seminário sobre o mesmo). Ali ele falava que linguagem humana se dividia em duas representações: linhas e superfícies - com linhas se referindo a textos escritos, e superfícies a imagens. O cinema cabe dentro das superfícies. Não pude deixar de notar a semelhança dessa abordagem com os conceitos-ideia e os conceitos-imagem - os primeiros remetendo às linhas e os últimos às superfícies.

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