CUIDADO: FALSO CRISTAL - uma reflexão sobre a preservação simbólica dos contos de fada nas tendências do cinema contemporâneo

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Enviado por Giordano em ter, 05/31/2011 - 03:00

 

de VIVIANE DEXHEIMER GIL, Escritora & Doutora em Teoria da Literatura

Diga o primeiro conto de fadas que lhe vêm à cabeça. Dependendo da geração e do lugar, as pessoas responderão de inúmeras maneiras. Se esse questionamento fosse realizado nos últimos meses, um expressivo número de adolescentes responderia “Chapeuzinho Vermelho”. E há a probabilidade de que elas jamais tenham experimentado a rara oportunidade de escutar essa história oralmente, contada numa noite fria, aconchegados em cobertores... “A garota da capa vermelha”, filme que estreou recentemente, baseado no conto tradicional, influencia as recentes reflexões sobre contos de fadas, talvez levando um público a que se direciona a tomar contato com uma abordagem completamente diferente do conto original.

Se a pergunta em questão for realizada até meados  do século XX , é provável que os jovens citariam algum conto tradicional, lido ou contado oralmente por um familiar. O final do século XX e início do XXI foi marcado por uma adesão cada vez maior aos meios eletrônicos, aliado a uma mudança dos hábitos familiares, ou seja tanto o pai quanto a mãe atuando no mercado de trabalho, filhos com um tempo cada vez menor de convivência no lar, sendo que os familiares começam a  dividir seu tempo com professores de múltiplas atividades. Escrever, portanto, uma história de leitura das crianças dessa primeira década do século XXI, seria descrever uma narrativa repleta de constantes atualizações de arquétipos.

Os contos de fadas possibilitam à criança a realização de sua travessia nas diversas etapas de amadurecimento. Através da fantasia e do mágico, a criança atinge territórios onde ela se sente capaz de concretizar seus desejos, estruturando sua personalidade e obtendo condições necessárias ao seu desenvolvimento. Nessas histórias, os arquétipos de transcendência estão sempre presentes, pois eles revelam o momento em que o herói alcança o sucesso. Definidos por Carl Jung como imagens primordiais ligadas ao patrimônio cultural da humanidade, os arquétipos são encontrados em sonhos coletivos, mitos, narrativas e contos de fadas. Segundo ele, a função transcendente é atribuída àqueles arquétipos cujo objetivo é expressar superação, ultrapassagem e nos contos de fadas, estão presentes simbolizando a conquista da libertação do herói.

Em 2007, como foco de minha Tese de Doutorado, realizei uma pesquisa sobre o modo como se apresentava o arquétipo de transcendência em narrativas infantis realizadas por crianças de 9 a 11 anos.  As crianças respondiam à seguinte pergunta: "Qual o conto de fadas de que mais gosta?".  Depois, eram convidadas a contar a história selecionada escrevendo. A pesquisa contou com um total de 106 histórias, sendo que somente 70 foram baseadas em contos tradicionais de fadas. Devido a grande quantidade de relatos, foram selecionadas 4 histórias vencedoras na opinião dessas crianças: Os três porquinhos, Cinderella, Pinóquio e Chapeuzinho Vermelho. Destas histórias, foram eleitos, depois de uma criteriosa análise dos símbolos, Os três porquinhos e Chapeuzinho Vermelho como as histórias que mais conservaram o arquétipo de transcendência na sua forma original.

Ao narrar um conto de fadas, a criança , além de reorganizar suas ideias de forma lógica, traduz as imagens arquetípicas através de símbolos atuais. Os três porquinhos e Chapeuzinho Vermelho não tiveram, ao longo dos anos, tanto sucesso em adaptações audiovisuais, como Cinderella e Pinóquio, que foram adaptadas para o cinema pela Disney. Por serem mais conhecidas através da tradição oral ou por meio da leitura de um livro, têm a vantagem de ampliar o imaginário infantil, pois é a própria criança quem imprime forma, cor e voz às personagens. Tal procedimento fica limitado quando a criança assiste a uma história pela primeira vez num meio eletrônico, pois o conteúdo já está previamente selecionado pelo roteiro.

Constata-se, através deste estudo, o quanto é importante o arquétipo de transcendência, que assume a função de um termômetro capaz de medir o quanto a literatura abastece o imaginário infantil, fornecendo dados que nos fazem refletir sobre o fato de que um conto de fadas difundido oralmente na primeira infância, ou mesmo através de um livro, contém uma fórmula encantada que o faz ser a melhor escolha para ativar a fantasia das crianças, incentivando-as na descoberta e na superação das etapas de seu processo de desenvolvimento.

Os meios eletrônicos, o cinema e a televisão, como primeira ou única forma de introdução dessas histórias na infância, constantemente diminuem as possibilidades de armazenamento pelo imaginário infantil, já que os roteiros sintetizam e modificam os enredos originais. Não há dúvida de que todas as produções cinematográficas são fundamentais na ampla divulgação e preservação dos contos de fadas tradicionais, no entanto, o primeiro contato da criança com esses contos  se mostra mais rico quando é preservada sua configuração primordial, através da prática milenar de contar histórias - a oralidade -  ou da leitura de um livro.

Não quero, no entanto, dizer com isso que os símbolos arquetípicos são de propriedade exclusiva da literatura, de forma alguma. O cinema mostra constantemente a sua capacidade simbólica de perpetuar esses arquétipos através de imagens que remetem ao sublime, desde o vôo das bicicletas encantadas pelo E.T de Steven Spielberg, ao primeiro vôo de vassoura no treino de Quadribol do jovem Harry Potter, na adaptação de Chris Columbus do primeiro livro da série de J. K. Rowling. Este último exemplo citado, por sinal, demonstra a capacidade infinita do cinema de preservar a magia dos símbolos, desde o afastamento dos pais, que permite a individuação do protagonista, passando pelo armário sob a escada, que inverte o simbolismo do próprio objeto como ferramenta de ascensão, até à Plataforma 9 ¾, já que poder atravessá-la diferencia elegantemente Harry do mundo dos “trouxas”.

Se filmes como “ET”, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, entre outros, são exemplos riquíssimos da capacidade simbólica do cinema, é preciso lembrar que o contrário infelizmente pode ser produzido. Isso acontece com a destruição completa de uma história e da interpretação pronta e hermeticamente fechada de um conto, uma espécie de prisão, construída por mãos inábeis de roteiristas, diretores e produtores cujo interesse não está na preservação simbólica, mas somente no lucro.

O que nos traz à não-sobrevivência dessa essência nessa leva de filmes que essa nova década vem trazendo. “A Garota da Capa Vermelha” (Red Riding Hood, Catherine Hardwicke, 2011) evidentemente não é um filme infantil. A obra vem na crista de uma onda cultural alavancada pelo sucesso da série Crepúsculo, criada por Stephanie Meyer, em que a proibição de um romance, e a sublimação sexual, é mais idealizada do que a sua realização em si.

Além dessa, há também a nova adaptação do conto A Bela e a Fera, que ganha o título de Beastly (Daniel Barnz, 2011) e já estão engatilhadas em Hollywood as produções de A Branca de Neve e o Caçador (que já demonstra sua visão deturpada do conto no título), A Sereiazinha (que pretende ser ainda mais pesado que o conto infantil de Hans Christian Andersen) e A Bela Adormecida (drama erótico que não é exatamente uma adaptação, mas livremente inspirado no conto dos Grimm).  

O problema principal de adaptações como essas, sem entrar em méritos de má condução da produção, é a insistência em explicitar um simbolismo, seja esse sexual ou não, de forma tão pobre, o que faz com que seu efeito “mágico” primordial do arquétipo seja inibido. Para matar símbolos e metáforas, basta explicá-los, desnudá-os, forçá-los a uma forma comum, preenchê-los com cores frágeis, sem luz própria.

Felizmente, essa leva de adaptações dificilmente terão uma repercussão significativa na história da sétima arte. E espera-se que os impactos dessas produções não mexam de maneira expressiva na trajetória cultural dos contos de fada, assim como para a cultura milenar dos vampiros, no caso da já citada “saga” Crepúsculo. O tempo talvez nos mostre que essas tendências são menos fenômenos culturais de larga escala e mais modas passageiras.

Marie Louis Von Franz, discípula francesa do teórico Carl Jung, compara os contos de fada a um cristal que pode ser iluminado de vários lados, mostrando ao mesmo tempo uma face obscura e outra mais clara, ressaltando arquétipos de diferentes formas, mas conservando uma essência.

Podemos visualizar, em todas as adaptações realizadas no último século e no novo, alguns pedaços do antigo cristal, cacos de tamanhos e formas diferentes, resultando numa diversidade enorme de símbolos. No entanto, é preciso ter cuidado com o forte incentivo de produções destinadas ao consumo comercial imediato, para que este não torne os contos de fada contemporâneos uma pseudo arte, um lobo em pele de cordeiro, um falso cristal revestido com um brilho artificial, tendo como troféu o fato de se apresentarem como releituras dos contos de fadas tradicionais, porém, camuflados, com o objetivo claro de confundir um público que, talvez, ainda não conheça uma destas histórias na sua essência mais pura.

 A conseqüência será a diminuição da compreensão do conflito verdadeiro, um processo de solução deturpado, sem os elementos mágicos e arquétipos, tornando opaco aquele cristal primordial, que somente irá recuperar seu brilho, quando novamente iluminado pelos olhos de uma criança que escuta encantada um belo conto de fadas, contado na sua essência, com toda a magia que merece.

 

Comentários

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Enviado por Ghuyer em ter, 05/31/2011 - 14:35

Texto muito bem estruturado e escrito, consegue expor suas ideias de forma clara e interessante. Fiquei muito curioso em ler o resultado final da Tese que gerou esse pequeno artigo. Não concordo com tudo, mas no quadro geral penso a mesma coisa. Só acho que a recente animação Enrolados merecia alguma menção, considerando a natureza do filme. E não creio ser justo já catalogar como falhas todas as próximas adaptações de contos de fadas que estão por vir, como as citadas novas versões de A Bela Adormecida, A Bela e a Fera (cujo título brasileiro do filme é "A Fera", simplesmente), A Branca de Neve, e A Pequena Sereia (esta última eu nem sabia que estava sendo produzida). A Garota da Capa Vermelha foi a primeira da leva e com certeza passou uma impressão ruim do que virá depois, mas acredito que sempre há chances de uma boa surpresa aparecer.

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