Dia 1 - Sexta Feira - 05.08

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Enviado por Giordano em dom, 08/07/2011 - 04:32

Olá, sou Giordano Gio, colunista do FILA K, estudante de cinema da UNISINOS e é com mutia honra que digo que essa semana fui convidado para ser parte do Juri do tradicional Festival de Cinema de Gramado. Primeiramente, peço desculpas pelo atraso, o tempo está curto aqui, pois sou obrigado a ver uma quantidade absurda de filmes (o que, para um cinéfilo, não é nada ofensivo... a não ser em alguns casos). Estou fazendo o possível para participar também dos debates e das coletivas de imprensa, debates (e das festas, pois jurados também merecem se divertir) e pretendo compartilhar com vocês minhas experiências aqui.

Duas considerações rápidas. Os filmes da mostra competitiva acontecem todos os dias do festival a noite, e pela manhã, as coletivas de imprensa e debates. Portanto, embora eu chame o artigo de Dia 1, por exemplo, haverão comentários sobre o dia seguinte, para não dissociar filme e debate. A segunda é que postarei aqui no site algumas fotos que tirei aqui, mas não estão em qualidade muito boa, pois fiz uma decisão errada na hora de escolher qual câmera trazer.

Enfim, vamos lá.

Homenagem a Selton Mello

O festival, nessa última noite não tão fria de Gramado, deu início às suas atividades com a entrega de um Kikito especial pela carreira do ator mais popular e carismático do cinema brasileiro, Selton Mello. Os apresentadores do Festival, os elegantes Leonardo Machado (conhecido pelo seu papel em Em teu Nome) e Renata Boldrini (antiga apresentadora do Cineview) mal puderam dizer suas palavras ensaiadas sobre Selton, uma vez que este justificou toda a sua popularidade e carisma ao interrompê-los, dizendo "Se aqueles lugares lugares vagos não forem ocupados, vou mandar o pessoal lá de fora entrar!", mostrando, com humor, por que tem esse apelo popular tão forte no nosso cinema. Agora, infelizmente não tenho tempo de relembrar os grandes momentos desse nosso grande ator, mas cabe a nós, colunistas do Fila K, realizar um artigo apenas sobre essa nossa grande e simpaticíssima personalidade (uma boa oportunidade é o lançamento comercial de "O Palhaço", em Outubro). Por enquanto, digo apenas que mesmo tão jovem, Selton Mello merece o Kikito recebido das mãos de seu mestre e colega de elenco, Paulo José.

"O Palhaço", de Selton Mello  - Exibição Hors Concours

As citações e paráfrases utilizadas são de entrevistas cedidas na Coletiva de Imprensa do filme, da qual tive a honra de participar.

Em seu segundo longa, Selton Mello deixa de lado o ambiente urbano do triste "Feliz Natal", mas não abandona a melancolia e o tema da busca da identidade, mas transporta essas reflexões para um outro ambiente - o lúdico ambiente do circo. E de fato, o filme nada mais é que o tratamento lúdico e determinista de uma crise de identidade. O circo brasileiro aqui retratado não é o circo glamouroso de um Água Para Elefantes, mas um elogio do circo mambembe, o circo tradicional que nós não mais temos, um encantamento (palavra que o ator Jackson Antunes usou várias vezes para se referir ao filme), através do qual conhecemos esse mundo, esse cotidiano. Mas Selton Mello não parece desejar fazer um filme cujo tema central é o circo em si, mas sim, um de seus integrantes , o jovem palhaço Benjamim (o próprio ator Selton Mello), que aos poucos começa a crer que perdeu a graça.

Do roteiro

Os desejos de Benjamim, a princípio, são simples. Ele pensa que talvez goste de um emprego comum, um endereço fixo e da possibilidade de comprar um ventilador em várias parcelas. Mas não pode fazê-lo sem carteira de Identidade, CPF e comprovante de residência. No entanto, ele deve lutar contra algo maior, o determinismo do meio (conceito positivista de Taine, livre relação que faço). O personagem de Jackson Antunes condena "as pessoas devem fazer o que sabem fazer, o rato come queijo, o gato bebe leite". O personagem do veterano Paulo José conclui logo em seguida, "Eu sou palhaço...". E quanto a Benjamim? Estaria ele condenado a ser palhaço, uma vez que tem esse inegável talento de entreter o público? A resposta talvez esteja no tão ambicionado ventilador, que garante alguns dos momentos mais líricos do filme. Selton Mello, ao ser questionado sobre o significado desse elemento, responde com humor "Deus me livre de explicar o ventilador!", uma vez que permite várias leituras. Mas uma leitura, uma das mais óbvias, o que talvez seja o motivo pelo qual se aproximaria da verdade num filme como esse, é a questão daquilo que é cíclico. O círculo, o giro, é a forma que melhor representa um retorno constante. O ventilador, um dos símbolos do cinema Noir, representa constantemente esse eterno retorno. O filme, tanto em tema quanto em estrutura, me lembra bastante o recente Amor sem Escalas, mas com abordagens bastante diferentes.

Falei, no parágrafo anterior, sobre obviedade. Uma crítica constante que ouvi de algumas pessoas do meio aqui em relação a esse filme é sobre esse esquematismo do roteiro. É esquemático? É. Previsível, talvez? Sim. Mas a verdade é que não é nada disso que interessa. Ao assistir um espetáculo circense, o espectador sabe que os motoqueiros do Globo da Morte não vão se ferir, ou que os trapezistas não vão cair, e assim por diante (ou assim se espera). E Cinema, como Paulo José afirma, "parece circo". O veterano ator estava se referindo aos aspectos de produção do filme, mas também podemos transferir isso para a posição de espectador. O que surpreende é a maneira como acontece dentro desse esquema. Selton, em auto-elogio ao roteiro, que escrveu junto com Marcelo Vindicatto, diz "o roteiro é simples, mas é refinado". Paulo José defende o roteiro afirmando "Não é explicativo. É sutil. Mostra as consequencias sem necessariamente explicitar as causas. Não subestima a inteligência do espectador".

Das atuações

É claro que a equipe e produção do filme defenderam, com orgulho e belas palavras, o filho que acabaram de largar ao mundo. Mas diferente dos médicos que dizem para todas as mães que seu recém nascido é lindo sem ao menos olhar bem para a criança, consigo perceber todos os auto-elogios da equipe dentro do filme, e percebe-se, tanto assistindo ao filme quanto durante o festival, a coesão dessa equipe. Selton Mello afirma mais de uma vez "Eu amo meus atores!", e essas atuações talvez, são tão marcantes no filme, por terem sidas dirigidas por um ator, que compreende o ofício, e que agora experimenta o outro lado. Paulo José é o palhaço-pai, e dono do circo, a austeridade de seu personagem é equilibrada por alguns pontos pontuais de ternura, com seu filho Benjamim, e o roteiro (juntamente com as atuações de Paulo e Selton) constrói uma relação pai-e-filho absolutamente crível, e sensitiva, ainda que não tenhamos conhecimento do passado desses personagens. O resto da trupe tem seus personagens tipificados, mas sem cair no estereótipo bobo, temos o desajeitado magrelo que identifica-se com a pintura de uma cabra, temos a senhora na busca por um sutiã que contemple o tamanho de seus seios, entre outras figuras caricatas e fascinantes em suas pequenas subtramas. O destaque, no entanto, é a menina Guilhermina, que como Benjamin, está lá desde seu nascimento e ainda não conhece outro universo, e ela (e a câmera de Selton) os responsáveis por um dos momentos mais tocantes, em um lindíssimo plano-sequencia. A garota é interpretada pela pequena Larissa Manoela, que tem carreira na televisão e estréia agora no musical "As Bruxas de Eastwick", e que soltou a voz na coletiva de imprensa, mostrando o começo de um de seus vários solos na peça.

Outro ponto interessante é a quantidade de participações especiais que o filme traz, mas em sua maioria, não são apenas participações de luxo, mas personagens de significância narrativa para a história. É o caso do já citado Jackson Antunes, que em um papel pequeno, traz uma significância para o diálogo-chave da história. Jackson, ele mesmo oriundo do circo mineiro, refletiu na coletiva de imprensa sobre essa volta da simplicidade que Selton propõe no filme. Essa volta da simplicidade é evidenciada por outra participação especial, a do palhaço Ferrugem, que surge em uma hilária e curta participação. Ferrugem, na coletiva, esbanja simpatia (ainda que sem revelar sua idade) ao comentar sua sensação no filme ""O cinema sempre foi um flerte. E trazer isso tudo junto com o circo e misturar com a minha carreira e Gramado, que sempre foi muito especial para mim por que eu fui garoto-propaganda da Ortopé". Selton, ainda dentro do assunto da participação de Ferrugem diz "O Brasil é muito cruel, cria rótulos, e eu gosto de acabar com esses rótulos. São atores lindos, que não recebem o valor devido". Ele resgata ainda os humoristas Fabiana Karla (Zorra Total), Moacyr Franco (A Praça é Nossa) e Tonico Pereira (A Grande Família), em papéis que fogem ao estereótipo que construíram, a exceção, talvez de Tonico, que surge em um papel semelhante ao que está acostumado a mostrar na televisão, ainda que com ainda mais carisma.

Selton como Diretor

Dividi os parágrafos assim, entre roteiro e atuações apenas por uma questão de auto-organização, mas na verdade, a maior qualidade do filme (e de Selton como diretor) é a unificação desses aspectos, criando uma interação forte entre roteiro, atores e construção imagética. O humor do filme, por exemplo, não está em apenas um desses aspectos, mas na soma dos três, principalmente nos planos frontais que Selton Mello utiliza, e que trazem as risadas mesmo sem uma única palavra ter sido proferida. A cenografia é construída de tal maneira que é impossível imaginar aqueles personagens em qualquer outro ambiente, que não o seu acampamento. Tanto é que quando os personagens visitam um outro ambiente, causa uma estranheza e uma desfamiliaridade ímpar no filme, pois a maior parte de ação ocorre ao redor do circo, seja na estrada ou no acampamento. O mistério e o lirismo causado no plano de abertura do filme, ou no plano que precede a participação de Jackson Antunes, com os carros do circo se aproximando são, novamente parafraseando Jackson, como um encantamento por aquele mundo. E também a capacidade do filme de ir do coletivo, do grupo, que sempre"enterra o morto" junto (entenderão quando assistirem ao filme, ou caso trabalhem com circo, o que não é meu caso), para o indivíduo, Benjamin, de maneira orgânica. Enfim, por mais antiquado e impreciso que seja o termo, "O Palhaço" é um filme autoral sim, mas também altamente acessível, entretenimento refinado e surpreendentemente simples. E pelos depoimentos da equipe, não há como negar que Selton agiu como o maestro de uma orquestra, ainda que fosse, ao mesmo tempo, o solista, e desempenhando ambas as funções com a mesma paixão, e com o mesmo talento.

AVALIAÇÃO FILA K - 5 poltronas

(fonte Folha.com)

"Riscado", de Gustavo Pizzi - Mostra Competitiva

É curioso (e provavelmente proposital) que "O Palhaço" e "Riscado" sejam exibidos no mesmo dia, uma vez que os dois tratam do mesmo tema. Não, não do circo, mas ambos tratam-se de relatos deterministas de indíviduos que buscam escapar do meio ao qual estão predestinados. Enquanto Benjamin pensa em escapar da vida circense, a personagem aqui, Bianca, não quer largar sua profissão de atriz, mas sim crescer dentro dela, pois seu talento é cerceado pelo pequeno grupo independente do qual participa, pela empresa de panfletos para a trabalha e pelos serviços de festas, em quse fantasia de Carmem Miranda, Betty Page e Marylin Monroe para animar as festas. A sorte pode mudar pois um diretor de cinema se encanta pela sua atuação e pela sua história, e pretende incluí-la em seu filme. No entanto, embora o Ventilador de Selton Mello não dê as caras fisicamente por aqui, ele continua a girar eternamente.

Mas se no filme de Selton Mello temos a unidade como grande trunfo, aqui a falta dela talvez seja o que me incomoda. Digo isso pois o roteiro do filme é de uma sutileza impressionante, de uma amargura cujos momentos ternos amargam ainda mais o todo, o que é muito interessante e valioso para o filme. Alguns detalhes na construção da personagem, como o momento em que um outro pergunta se o sobrenome da moça, Ventura, é com dois T, ela responde que não. São pequenos detalhes que fazem a diferença, e que surgem de maneira assustadoramente natural, reforçada pelas atuações que parecem até mesmo improvisadas, em especial um diálogo que há sobre pó de café. E ainda que pareçam improvisadas e tão naturais, elas são valiosas para a construção da narrativa. Outro aspecto incômodo, mas absolutamente proposital (e que esquentou o debate sobre a obra) é a quantidade de subtramas soltas, que para gerar uma impressão de realismo ainda mais forte, não são plenamente resolvidas, como por exemplo no filme de Selton Mello. Não, aqui as situações ficam pendentes,  "como na vida", defende Pizzi no debate. É uma decisão altamente arriscada, e que é extremamente perspicaz na teoria, mas que na prática, para mim como espectador, fica a dever.

A pedra preciosa de "Riscado" é sua protagonista, Karine Teles, esposa do diretor Gustavo Pizzi e co-roteirista do filme. A força, a presença  e apartente entrega da atriz é tanta que ela se permite apagar ou constragner nos momentos que assim devem ser. Ela vai do mais absoluto realismo documental (como a já citada cena do pó de café) para o melodrama dos momentos que a personagem está no palco, e em seguida, o abismo para o constrangimento total da versão quinta categoria do "Happy Birthday, Mr. President" de Marylin Monroe.

No entanto, como já evidenciei nos parágrafos anteriores, essa falta de unidade reflete-se principalmente na estética. Juntamente com a decisão sobre as tramas soltas, é a decisão sobre formatos de tela e fotografia. Há uma variação imensa de tamanho de razão de proporção de tela, e que ainda que afirme a equipe que é completamente justificado, não ficam claras os motivos tampouco ficam orgânicas essas mudanças frequentes, a não ser talvez as mudanças para os vídeos da câmera digital da personagem, e alguns destes talvez sejam dispensáveis. Também me incomoda o exagero do branco estourado, do foco-desfoque, e do uso de lente angular ("olho de peixe", que deforma as extremidades do quadro), que talvez seja parte da minha implicância com experimentações estéticas, mas que a meu ver, polui a imagem e distancia o espectador das interessanets situações em que a fascinante protagonista se insere.

E digo fascinante e não é gratuito, o personagem de fato o é, assim como a atuação de Karine Teles e o amargo arco da personagem, que me lembrou em alguns instantes o clássico da nossa literatura A Hora da Estrela. Esse naturalismo encontrado em vários momentos garante o saldo positivo da obra, mas que infelizmente, acaba arriscando e para mim, fragilizando o filme nesses sentidos que apontei.

AVALIAÇÃO FILA K - 3 Poltronas

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