Dia 2 - Sábado - 06.08

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Enviado por Giordano em seg, 08/08/2011 - 17:05

A partir de hoje, uma vez que agora tenho noção do tempo disponível que terei para escrever, meus textos serão um pouco mais sintéticos do que o anterior. Me estendi bastante, ainda mais sobre "O Palhaço", mas para poder contemplar todos os dias e todos os filmes a que assistirei, serei mais sintético. Então sem maiores introduções, vou aos filmes exibidos nesse segundo dia:

Ah sim, além dos filmes, nesse segundo dia, houve um interessantíssimo debate sobre a suspensão da classificação do filme "A Serbian Film", uma discussão que levou o polêmico nome de "A censura voltou?", e que contou com a participação de João Pedro Fleck, que exibiu o filme no FANTASPOA, Frederico Machado, que exibiu o filme no Mato Grosso, o crítico Zanin, e finalmente, mas não menos importante, Davi Pires, do Ministério da Justiça. Retomarei essa discussão em outro momento, mas só para deixar claro, Davi Pires discorda da atitude do Ministério da Justiça (que já foi reparada, uma vez que o filme recebeu classificação indicativa para menores de 18, mas que acredita que o DEM e o Ministério Público de Minas Gerais (que fizeram o pedido de suspensão do filme) não cessará sua manifestação contra a obra. 

"Origens", de Rene Goya Filho - Mostra Panorâmica

 

O filme "Origens", de Rene Goya Filho, acompanha a busca do músico Ernesto Fagundes pelas origens do bombo languero, instrumento tradicional da música gaudéria. Fagundes vai à Argentina, nos povoados indígenas, para criar um panorama do significado do tambor de som grave, que cruza-se com a história da própria família dos Fagundes. Trata-se de um documentário interessante, de fato com cara de reportagem de Jornal Hoje, mas uma excelente reportagem, que intercala com elegância a história dos Fagundes, com a pesquisa pelo tambor, com os momentos musicais de Ernesto e o pai. O filme ainda acabou por suscitar, entre os jurados, uma discussão sobre o bairrismo gaúcho e pela forte ligação rio-grandense (digo isso generalizando) com suas tradições, uma vez que o filme se encerra, como não poderia deixar de ser, com uma apresentação do Canto Alegretense, feita por Ernesto Fagundes com seu fiel bombo languero, agora carregado de informação e significado construído pelo estudo historico-cultural em cima do objeto.

AVALIAÇÃO FILA K - 3 Poltronas

"O Senhor do Labirinto", de Geraldo Motta - Mostra Panorâmica

 

Arthur Bispo do Rosário trata-se de uma figura ímpar na nossa história da arte contemporânea, que vem gerando, há décadas, uma absurda quantidade de discussões teóricas em cima da figura. Trata-se de um sujeito sergipano, vítima da esquizofrenia, que realizou um gigantesco acervo de esculturas, bordados, estandartes e "representações", como ele chama. O filme de Geraldo Motta tenta contemplar a vida do "artista" desde os primeiros surtos até à sua morte, resumindo em uma hora e meia o riquíssimo tema que carrega. Isso causa os problemas do filme, que são relativos ao roteiro e à montagem. Rende-se, no princípio do filme, a uma incômoda e informativa narração em off, assim como ao final, entrega o destino do personagem como mito em textos escritos. O filme se garante como uma abordagem racional, o que não permite uma experimentação estética e narrativa que uma história como essa talvez pedisse. E principalmente, o desenvolvimento dos personagens. Mesmo de Arthur Bispo do Rosário, sobre o qual não ficamos sabendo muito sobre quem realmente era, o que seria um efeito interessante caso estivéssemos observando o filme sob a óptica de um outro personagem, como os de Irandhir Santos ou Maria Flor, mas não. Acompanhamos a história através da evolução psíquica do Bispo. Essa falta de foco narrativo (e estético) acaba compromentendo o filme, o que é uma pena, pois traz um tema fascinante, uma bem cuidada direção de arte, e ótimos atores, como os já citados Irandhir e Maria Flor, e é claro, Flavio Bauraqui, que vem se construindo fortemente no cinema brasileiro aqui, e oferece ao filme uma complexidade ao personagem que o roteiro não parece oferecer.

AVALIAÇÃO FILA K - 2 Poltronas

"Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual", de Gustavo Taretto - Mostra Competitiva Internacional

"Medianeras" conta a história de dois personagens separados por um outro. Mariana e Martin são separados pelo cotidiano de Buenos Aires, o que parece um grande problema. É o mesmo problema que impede Mariana de encontrar Wally em uma das páginas de seu volume de "Onde está Wally". O fato de não prestarem atenção o suficiente em alguns pontos óbvios. O filme abre com belíssimos planos aéreos da cidade que evocam diretamente Manhattan, de Woody Allen (que mais tarde é explicitada como a maior influência do filme) e uma amarga narração em voice over do personagem de Martin, refletindo sobre os inúmeros problemas da cidade. O filme traz a batida ideia de casal separado pelo acaso, e joga com a linguagem pop das comédias românticas atuais, como (500) Dias com Ela, Juno e Apenas o Fim, e cria assim uma simples, porém muito singela história de amor.  

AVALIAÇÃO FILA K - 4 Poltronas.

"Ponto Final", de Marcelo Taranto - Mostra Competitiva Brasileira

A grande diferença de assistir a um filme em um Festival para assistir individualmente em sessões comerciais é a recepção da plateia dialogando diretamente com os realizadores. É belíssimo ver um filme ser ovacionado e é constrangedor ver um filme recebendo uma fria recepção, e é o caso de "Ponto Final". A grande maioria dos espectadores com que conversei acharam o filme uma dolorosa experiência, no mau sentido. Luiz Carlos Mertem chamou a experiência de ver o filme de "um tormento" no debate sobre a produção, e Maria do Rosário, da Revista de Cinema, foi mais elegante (e menos incisiva) ao dizer que o filme é massante por ser "parnasiano demais". Devo concordar com ambos. De fato, não é das experiências mais agradáveis. O filme de Marcelo Taranto traz Roberto Bontempo na pele de Davi, um pai que perdeu a filha de uma bala perdida, e se passa, em sua grande maioria, em ambiente onírico do insconsciente do personagem, transitando entre a calçada em que a garota morreu, o apartamento de Davi e o ônibus que Davi tomara para ir e voltar do local da morte. Esse ônibus é a óbvia metáfora do trajeto da vida em direção ao "ponto final", que evidentemente é a morte.

A pobreza da metáfora do título não é ajudada pelo artificial recurso de "quebra da quarta parede", em que os personagens falam diretamente com a câmera. Davi encontra em suas passagens uma desconfortável Hermila Guedes como uma prostituta infeliz, cujas razões para infelicidade não são claras, e que utiliza do ônibus como válvula de escape, e nele, sente-se em casa (garantindo um belo, porém mal aproveitado trabalho de direção de arte ao construir o ônibus como uma sala da garota.Othon Bastos é o Motorista e Silvio Guindane, o Trocador. Othon Bastos aparece como um sábio e otimista ancião, que condena e aconselha Davi, e Silvio Guindane (o melhor do filme, o único que consegue dizer os fracos diálogos naturalmente) um sujeito cujas reflexões são puramente sobre a sociedade e não sobre a situação que envolve Davi. O problema é que essas reflexões são óbvias, como um livro de auto-ajuda do Augusto Cury, só que ao contrário, pessimista. As reflexões poderiam partir do espectador ao perceber a história, mas são explicitadas pelos personagens, como no constrangedor momento em que Othon Bastos nos afirma o que já poderia ser óbvio ao mostrar uma calçada vazia, sem Davi sentado nela. A cenografia e a direção de foto tem uma ou outra ideias interessantes, todas subaproveitadas em questão das direções que o roteiro toma. 

O diretor, Marcelo Taranto, tenta defender-se ao afirmar que sua influência maior é o Teatro do Absurdo, e não deixa dúvidas de que as reflexões e críticas sociais saídas das vozes dos personagens são suas posições frente à vida. Mas me parece que uma das coisas que esqueceu ao conceber o filme é de que os personagens devem ser mais que múltiplas vozes do autor. O resultado pode ser um "tormento"... Ou "parnasiano demais", dependendo do caminho que prefiram seguir. 

AVALIAÇÃO FILA K - 1 Poltrona

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