Dia 3 - Domingo - 07.08

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Enviado por Giordano em sab, 08/13/2011 - 16:36

Domingo amanheceu com os debates de Medianeras e Ponto Final, resultando num saldo positivo para o primeiro e em um saldo negativo para o segundo filme, o que deixou o diretor Marcelo Taranto na defensiva enquanto Merten, Maria do Rosario Caetano, Paulo Casanova, entre outros, "atacam" o filme com as críticas negativas.

Além da Mostra Competitiva, Gramado também oferece a Mostra Panorâmica, às tardes no Palácio dos Festivais, com filmes variados sobre temas aleatórios, e que geram certo estranhamento quando colocados um ao lado do outro. Sobre sábado, falei de "Origens" e "Senhor do Labirinto", hoje, o filme da mostra panorâmica é o documentário Carne, Osso.

Carne, Osso, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros - Mostra Panorâmica

Carne, Osso é um documentário de tom acusativo sobre as atrocidades pelas quais passam os trabalhadores de frigoríficos brasileiros, tais como mutilação de membros e atrofiamento de nervos. O longa se baseia em depoimentos emocionados destes trabalhadores, alguns comentários que a câmera faz com seus movimentos, e também em montagens ritmadas do trabalho nas fábricas. A verdade é que não consigo ter muita opinião sobre esse filme, pois não gera nada de tão relevante cinematograficamente, em minha opinião. Deve, no entanto, ter uma distribuição por diferentes veículos, pois é preciso mesmo alertar sobre o que acontece de desumano nesses lugares. Como o filme acusativo que pretende ser, acerta no tom sem pender para o lado cômico e dinâmico de um Michael Moore. Como cinema, não é nada de mais.

AVALIAÇÃO FILA K - 2 poltronas

Se no primeiro dia, os dois filmes exibidos falavam de insatisfação profissional e artística, o segundo dia falava de solidão, este terceiro dia, a curadoria de Sanz e Avellar selecionou filmes cuja temática assemelha-se no ponto em que ambos abordam viagens.

A Tiro de Piedra, de Sebastião Hiriati - Mostra Competitiva Estrangeira

"A Tiro de Piedra", que dividiu algumas opiniões aqui em Gramado, mas sem grande entusiasmo, conta a história de Jacinto Medina, um solitário pastor de uma fazenda mexicana, na busca por um sentido na vida, encontra um chaveiro, e deposita nele a sua fé. O chaveiro tem o desenho de um lugar que ele descobre tratar-se de um ambiente americano, e decide viajar em busca de algo que não faz ideia do que seja. O filme tem um ritmo lentíssimo, que só se acerta ao chegar nos EUA, mais próximo do clímax (que por sinal, me decepciona). No morno debate, foi apontado que os mexicanos que Jacinto encontra no caminho se recusam a ajudá-lo, enquanto os americanos, em sua maioria, são mais gentis. Sebastian Hiriart, um sujeito simpático que defende seu primeiro filme, disse que não é nenhuma mensagem politico-social, mas que sim, tentou romper com o estereótipo de mexicano sofrido e americanos maus que os filmes com essa temática geralmente cai.

Mais comentado que o filme em si foi a exibição deste. O filme foi penalizado pois a distribuidora não enviou o rolo em 35mm no prazo dado, e acabou sendo exibido em DVD com baixa qualidade e incômodas marcas d'agua do Instituto de Cinema Mexicano.

AVALIAÇÃO FILA K - 2 Poltronas

Uma Longa Viagem, de Lucia Murat - Mostra Competitiva Brasileira

Quando falei sobre "Ponto Final", afirmei ser constrangedor a recepção muito fria de algum filme num festival como esse. O contrário, no entanto, é recompensador. "Uma Longa Viagem" não foi aplaudido de pé como foi "O Palhaço" (que estava munido da homenagem ao Selton) nem foi aplaudido mais de uma vez como "Medianeras" (que contou com um epílogo engraçadinho com um vídeo de youtube do casal cantando Ain't no Mountain High Enough, o que estimulou a platéia). No entanto, o filme de Lucia Murat, ao encerrar-se, recebeu palmas imediatas e de longa duração, com gritos e uivos. E estar presente nesses momentos é muito bacana. Ainda mais com um filme tão maravilhooso quanto este.

Se houve um filme que valeu toda essa incrível experiência em Gramado, foi "Uma Longa Viagem". Trata-se de uma mistura de documentário e poesia sobre Lúcia e seus dois irmãos, concentrando-se na história do irmão caçula, Heitor. Lúcia, presa política na década de 70, organizou o filme a partir das cartas de Heitor, que viajou pelo mundo durante nove anos. Lúcia Murat narra em off os acontecimentos contextuais não descritos na carta. Os engraçadíssimos e emocionaods depoimentos de Heitor sobre as viagens dialogam diretamente com o grande trunfo do filme, os oníricos segmentos em que Caio Blat interpreta as tais cartas do irmão em um ambiente construído por belos e simples cenários, ilustrados por projeções das mais variadas fontes.

"Uma Longa Viagem" é uma ilustração da memória. Nos parece um convite de Lucia Murat para visitar o seu sótão, onde encontram-se seus alfarrábios, suas velhas fotos, todas essas cartas, seus LPs de Janis Joplin e Velvet Underground, e os vários resquícios dessa longa viagem. Afinal, o título se refere a que? Não apenas à Viagem de Heitor, é claro. Mas a viagem do espectador a esse mundo de lembranças setentistas de Lucia, Heitor e do recém falecido Miguel, que impulsionou a realização desse filme.

Eu disse, no empolgante debate do filme, que o grande diferencial do filme é o mesmo de "Não Estou Lá", de Bob Dylan. As grandes cinebiografias de Holywood tem um sério problema - vêem os mitos e vidas sobre os quais tratam como uma pessoa só. Assim como Todd Haynes articula seus sete Bob Dylans no filme, Lucia Murat joga com seus três Heitores: O Heitor das fotos, um velho registro de um tempo que não volta mais. O real e atual Heitor, que depõe com bom humor, mesmo carregando consigo as intermitências de anos de tratamento da esquizofrenia. E o Heitor de Caio Blat, uma lírica ambiência, uma entidade que representa a memória vívida e lírica das cartas, o nosso anfitrião e guia turístico pelos meandros dessas memórias. E Lúcia joga tudo com emoção e estilo nesse mosaico que cria. O ápice do filme é o momento em que o atual e real Heitor divide a tela com o Heitor de Caio Blat, e os dois são conectados pelo mesmo movimento braçal ao descrever uma situação dessa viagem. É um encontro de tempos. Mas não de presente e passado. Mas o encontro de uma realidade atual com a idéia idílica de um passado.

O debate foi quase só elogios, mas como toda unanimidade é burra, temos uma voz dissonante, do grande crítico Luiz Carlos Merten. Mas por mais que eu tenha prestado atenção, eu não compreendi muito bem por que Merten não partilhou da empolgação geral pelo filme.

AVALIAÇÃO FILA K - 5 Poltronas

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