Dia 5 - Terça-Feira - 09.08

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Enviado por Giordano em qua, 08/24/2011 - 02:49

Mãe e Filha, de Petrus Carriry - Mostra Panorâmica

O filme de hoje foi Mãe e Filha, de Petrus Carriry, trata-se de um filme com uma extremamente evidente influência de Tarkovsky. O fato dessa influência tornar-se tão evidente acaba por ameaçar que, sob um olhar desencantado, o filme possa ser visto como um pastiche da obra do diretor, já que toda a sua gramática está lá - rachaduras, cenários idílicos, alegorias, personagens opressores, ruínas, silêncios, aparente falta de enredo, e a maneira concreta de usar símbolos. No entanto, sob um outro olhar mais encantado, Carriry utiliza essa gramática para compor uma obra sua e faz uma alegoria forte, sombria e agressiva sobre a relação de mãe e filha, como o título já entrega. Momentos opressores como o momento em que certa personagem diz "SIRVA O VINHO." ficam na memória.

Houve uma certa discussão ideológica (que felizmente, não permitimos ir muito longe pois não chegaria a lugar algum) entre nós do Júri Estudantil sobre a cena na qual a Mãe assassina lentamente uma galinha com uma faca pessimamente afiada, cena para a qual evidentemente não foi utilizado boneco ou trucagem alguma. Pelo uso do verbo "assassinar", já é perceptível minha posição contrária. Sim, considero um crime, tal qual considero a tortura à tartaruga de Canibal Holocausto, a mutilação do boi de Apocalypse Now ou a prática de qualquer snuff movie (mito contemporâneo do filme de ficção de assassinato, cujos assassinatos são praticados em frente à camera). Independente de galinhas serem a origem do pastel de frango que eu comi antes de assistir ao filme (como foi utilizado como argumento com quem estava discutindo), o ato em questão não tem como fim alimentação, mas a fruição artística, que considero inválida a partir do momento que um ser morre em frente à câmera para gerar tal efeito.

AVALIAÇÃO FILA K - 3 Poltronas (com ressalvas pela questão ideológica)

  La Lección de Pintura, de Pablo Perelman - Mostra Competitiva Estrangeira

O filme chileno "La Lección de Pintura", de Pablo Perelman, é um belíssimo filme que faz apenas eu continuar a concordar que a Mostra Estrangeira vem superando em muito a Mostra Brasileira da curadoria desse festival. A riqueza desse filme é pelo fato de uma história pequena e pessoal tangenciar a história política do país. A história é a do professor de pintura profundamente acadêmico que alimenta um "complexo de Salieri" (o rival de Mozart em "Amadeus"), um misto de admiração e inveja, do talento inegável de seu aluno-prodígio, um pequeno garoto. Essa história atemporal é emoldurada pelo cenário do 11 de Setembro de 1973, o golpe militar em Allende, no Chile. A visão infantil do comunismo, da religião e da política (presente no peruano Las Malas Intenciones) volta a aparecer aqui. O roteiro acontece em três níveis - a política, a arte e as relações humanas - tendo como elo a criança. A criança discute o valor da pintura acadêmica da nobreza sobre o neoclassicismo (tão reverenciado por seu professor, de orientações políticas). O filme se presta também a discutir a posição da mãe solteira na época. Baseado em um conto, a história tem caráter alegórico evidente, o que explica seu poderoso e súbito final. Como bem disse Daniel Feix, "uma das unanimidades em gramado". 

AVALIAÇÃO FILA K - 4 Poltronas

As Hiper-Mulheres, de Leonardo Sette (cineasta), Carlos Fausto (antropólogo) e Takumã Kuikuro (membro da tribo indígena)

Essas informações entre parênteses depois dos nomes dos diretores não estão ali com função taxativa, mas sim para mostrar a origem das três visões, que somadas, geraram o valor de "As Hiper-Mulheres": o valor estético, o distanciamento de observação e a proximidade familiar. O filme segue uma tradição de Gramado com filmes de temática indígena, como Serras da Desordem e Corumbiara. A ligação entre este e o filme chileno exibido antes, que Avellar e Sanz tenta gerar aqui é de transmissão de conhecimento. Aqui, uma velha índia doente preocupa-se com a compreensão da técnica e valor do canto e do ritual Jamurikumalu por parte das novas gerações. No entanto, o que permanece na memória de grande parte dos espectadores não é o valor desse ritual, pois o documentário não procura nos explicar nada, procura espreitar-se e envolver-se no cotidiano do índio, e os momentos mais marcantes são, realmente, aqueles que arrancaram gargalhadas das plateias: o despojamento e diversão com o qual as índías atacam e intimidam os homens. As legendas informais para o dialeto da tribo do Alto Xingu funcionam como faca de dois gumes: criam uma falta de compromisso e um relaxamento necessário para não distanciar o público, mas também artificializa ao usar gírias urbanas. Mas com uma bela fotografia, momentos impactantes emocionalmente (como o banho e a prática do ritual em si), o filme parece um convite para que vejamos com um olhar aparantemente próximo (de um membro da tribo), mas essencialmente distante (de um antropólogo). Não, não nos é permitido pelo documentário compreender a tribo, apenas conhecê-la.  Mas ainda assim, é fascinante. 

AVALIAÇÃO FILA K - 4 Poltronas

 

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