Dia 7 e 8 - Quinta e Sexta-Feira - 11 e 12.08

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Enviado por Giordano em qua, 08/31/2011 - 01:47

Quinta Feira

Mostra Gaúcha

Na quinta-feira de manhã, faltei ao debate dos filmes da noite anterior para prestigiar o cinema rio-grandense na Mostra Gaúcha, que exibiu 20 curtas. Não tive o prazer de assistir a todos, mas entre os que assisti, consigo detectar alguns padrões que já vem aparecendo no cinema universitário aqui: a quantidade absurda de três elementos - cigarros, luminárias e despertadores - e a tendência ao cinema menos narrativo e mais contemplativo. Entre os destaques, as animações "Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo" e "Especulativo Móvel", dos meus professores Rodrigo John e James Zortea. Assisti apenas ao primeiro, que é realmente sensacional (falarei mais quando falar da mostra competitiva de curtas). Entre outros que envolvem o CRAV (Curso de Realização Audiovisual da UNISINOS, do qual eu venho) são "Eu to Cansado", do aluno Henrique Lahude, "Madre Sal", da ex-aluna Maria Elisa Dantas, "Telefone de Gelo", com montagem do professor Milton do Prado e "Melhor que Aqui", com fotografia do professor Bruno Polidoro e o polemizado "Corneteiro não se Mata", que tem o som do professor André Sittoni. 

Para falar a verdade, num geral, dos curtas que assisti, o único que eu realmente gostei foi "Céu, Inferno", mas é bacana ver a versatilidade de produções gaúchas, só penso que alguns deveriam ter ambições narrativas maiores do que o simples vazio dos personagens, outros deveriam contentar-se em ser um curta e não tentar ser um "mini-longa". Enfim, geralmente eles tem ou um ou outro problema: ambição demais ou ambição de menos. 

"Garcia", de Jose Luiz Rugeles - Mostra Competitiva Estrangeira

A presença de "Garcia" aqui no Festival de Gramado me é um pouco estranha. Não, o filme não é ruim, mas me é estranha pois trata-se do único filme realmente de gênero que assisti até aqui, já que a tentativa de Paulo Caldas de mergulhar no melodrama foi bastante ineficaz. Na verdade, essa quinta-feira a noite foi, para mim, um alívio. Após uma semana de filmes mais densos, abstratos e sem grandes amarras narrativas ou estéticas, este e "O Carteiro" destacam-se por estarem mais presos ao cânone clássico dos gêneros que seguem. 

Sinopse oficial:

Aos 58 anos, Garcia, vigilante de uma fábrica em Bogotá, está prestes a cumprir a 
promessa feita a sua mulher Amália: dar-lhe uma casa. Contudo, trata-se de uma casa 
antiga distante do centro da cidade que necessita de inúmeras reformas, uma casa 
completamente oposta da “casa dos sonhos” de Amália. Garcia acredita que ?nalmente 
colherá os frutos de tantos anos de trabalho e mesquinharia. Entretanto, sua vida toma 
um rumo inesperado quando ele chega em casa do trabalho e não acha Amália em lugar 
algum, ele não sabe aonde mais procurá-la. Garcia, inicia portanto uma busca 
descomedida por Amália. Ele conta apenas com a ajuda do segurança da fábrica que 
trabalha, Gómez, um ex-policial jubilado. Os dois se envolvem numa verdadeira aventura 
que os levará de fato a descobrir o que aconteceu.

"Garcia" é um bom representante do cinema polícial, em especial dos filmes de dupla. Bebe muito da fonte dos Irmãos Coen: consigo ver claramente John Turturro e John Goodman no lugar dos atores Damian Alcaza e Fabio Ivo Restrepo, e Frances McDormand no lugar de Margarida Rosa de Francisco. Há evidentes comparações lógicas com "Fargo", na ligação do relacionamento do casal com o crime, mas com uma certa inversão de valores. Enfim, é um filme comum, divertido, com um bom timing e bons personagens. Corretíssimo, nada de novo, mas é um bom entretenimento. O filme é uma co-produção (assunto em voga no cinema latino-americano atualmente) Brasil-Colômbia. O filme ainda aborda a temática das drogas, da violência e do tráfico de drogas, tão pertinentes aos seus países de origem.

AVALIAÇÃO FILA K - 3 Poltronas

O Carteiro, de Reginaldo Faria - Mostra Competitiva Nacional

Não me batam, detratores do filme, mas eu adorei "O Carteiro", de Reginaldo Faria. Reconheço todas as suas falhas, e consigo conviver com elas para me divertir com a vibe que o filme proporciona. Não, não estou sendo contido só por se tratar de um filme da tão adulada Família Faria. Não, pelo contrário, achei a postura de Reginaldo durante o Festival bastante recriminável e antipática. Ao apresentar o filme, Reginaldo já demonstrou certo rancor com o cinema nacional, no qual volta a exercer a função de diretor após algumas décadas. No debate, o diretor/ator encarnou uma arrogância felliniana que me fez pensar estar participando de uma coletiva de imprensa imaginária com Guido Contini, com seus óculos escuros e respostas monossilábicas, irônicas e narcisistas como "Você acha realmente que eu não estava charmoso no palco?", quando Reginaldo foi criticado eufemisticamente por Maria do Rosario Caetano, que o considera, mesmo com 74 anos, "um dos homens mais bonitos do Brasil", mas que perde todo o seu charme ao proferir as palavras com tamanha desempolgação. No debate, mesmo os críticos mais intensos pareciam contidos, embora fosse clara a rejeição ao filme. No palco do Festival, antes da exibição do filme, a gigantesca equipe de O Carteiro subiu ao palco em uma agressiva massa rio-grandense, o que foi muito bacana de ver, mas por outro lado, reprime críticas negativas. Paulo Casanova, da Guaíba, criticou o tom exagerado do filme, mas foi um dos únicos que criticou diretamente, e Sr. Faria não recebeu tão bem as críticas. 

Bom, apesar de todo esse entorno fílmico que o Festival proporciona, consigo separar as coisas, e adorar o abobado filme "O Carteiro". A história que é contada, digna da melhor das novelas das 6, traz a história de Victor (Candé Faria), um carteiro que tem o costume de violar correspondências de uma pequena cidade gaúcha, a fim de se divertir às custas dos habitantes da cidade, e ocasionalmente, resolver os problemas amorosos ao maior estilo Gato de Botas, até que cai em suas próprias armadilhas amorosas ao se apaixonar por uma garota nova da cidade. Eu não sei se eu me identifiquei demais com o romantismo abobado e a ironia pueril do protagonista, ou se o filme de fato tem um carisma tão grande em sua dupla principal - Candé Faria, o mais novo da Família Faria, e Felipe de Paula.

Sobre o tom exagerado, com certeza, frequentemente pesava a mão. O roteiro é amarradinho, mas através de situações óbvias até os ossos, e aposta ainda em um intertexto sem muito sentido com Machado de Assis, que apesar de suas citações caberem ali, o filme segue uma linha muito mais romântica do que o realismo ao qual o maior dos nossos escritores é associado. Os diálogos eram todos bastante artificiais, assim como as atuações da maioria dos coadjuvantes. O filme tem um problema sério de direção de arte, pois a perfeição e o bom estado de todos os cenários deixava tudo com o ar televisivo da estética das já citadas novelas das 6. Se a cidade que vemos no filme era a visão idílica e romanceada pelo olhar do protagonista, como cheguei a pensar (o que seria um adorável conceito), isso deveria estar mais explicitado na tela. A fotografia e a trilha, no entanto, são excelentes. Muitos criticaram a fotografia  de Roberto Henkin por ser correta e clássica demais, mas qualquer outro caminho destoaria da estética do filme, e o resultado foi lindíssimo, talvez por eu ser um pouco entusiasta do clássico. E a trilha de Ricardo Leão tem um clima lúdico e pueril que o filme pede. Cativante. Mas ninguém que eu conheço parece ter embarcado no filme como eu, a ponto de esquecer dos defeitos momentaneamente enquanto assiste ao filme. É problemático? Muito. Mas muito simpático o filme.

AVALIAÇÃO FILA K - 3 poltronas. (deveria ser 2, mas eu sou irracional e parcial aos filmes que me tocam) 

Sexta Feira

À tarde, assisti ao documentário Mundialito, na Mostra Panorâmica, que é interessante, ao conectar o futebol à Ditadura Militar, mas é aquela história, são documentários, reportagens, sobre as quais infelizmente não tenho muito o que comentar além de "Interessante". 

Jean Gentil, de Israel Cárdenas - Mostra Competitiva Estrangeira

"Jean Gentil" foi um filme que me surpreendeu muito ao longo da sessão. Achei o primeiro ato realmente, com o perdão da palavra, um saco. Acompanhamos o personagem haitiano Jean Genty sendo demitido do seu cargo de professor de francês, inglês e creole, procurando um novo emprego, em tempos mortos intermináveis que não provocavam nada além de tédio. No entanto, o personagem decide afastar-se da vida urbana e perder-se em meio à Natureza, com a sua visão cristã e seu questionamento sobre sua própria existência. Percebi que o filme nos levava a sentir o tédio que Genty sentia, e que quando ele procura uma ligação mais forte com a essência natural do nosso planeta, nós também buscamos isso, e tornamos aquela natureza sagrada. A partir daí o filme mostra o contato direto do personagem com o natural, uma primitivização que o faz atingir respostas. O diretor conduz tudo com uma fotografia lindíssima de luz natural e enquadramentos abertos que fazem com que percamos a informação humana em meio à natureza. Uma mistura de "Na Natureza Selvagem" com "Árvore da Vida" ? Talvez. Mas enfim, as surpresas não se restringiram à sessão. Após esta, conheci o simpaticíssimo ator que interpreta Jean Gentil. Falamos em inglês, ele estava ávido por saber "where is the party tonight?!?" e me entregou seu cartão, no qual descobri que se chama Jean Genty, e que não se trata de um ator, mas de um professor de francês, inglês e creole. Percebi então que a fronteira entre realidade e ficção, no filme, é praticamente inexistente, e que a dramatização é apenas um meio de expor ao mundo a busca por respostas dos realizadores do filme. Louvável. Parafraseando o próprio Genty, que emocionou a platéia no palco do festival de gramado, "Se Deus é o Grande Arquiteto do Universo, ele deve estar orgulhoso". 

AVALIAÇÃO FILA K - 4 poltronas

Sudoeste, de Eduardo Nunes - Filme de Encerramento

Chega ao final a Mostra Competitiva, e também o Festival de Cinema de Gramado com a exibição de "Sudoeste", filme de Eduardo Nunes com Simone Spoladore. Infelizmente, não assisti ao filme por cansaço e esgotamento, e confesso que me arrependi depois devido à grande quantidade de comentários positivos a respeito do filme. Estou curioso para assistí-lo quando tiver a oportunidade.

Sinopse oficial:

Numa vila isolada do litoral brasileiro onde tudo parece imóvel, Clarice percebe a sua vida 
durante um único dia, em descompasso com as pessoas que ela encontra e que apenas vivem 
aquele dia como outro qualquer. Ela tenta entender a sua obscura realidade e o destino das
 pessoas a sua volta num tempo circular que assombra e desorienta.

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