Hipocrisia na Casa Branca

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Enviado por Ghuyer em qua, 01/07/2009 - 00:00

Este é um assunto que eu talvez demorasse um pouco mais em outra ocasião.

Nada a ver com a presidência dos Estados Unidos (só um pouquinho, no final). Quero falar sobre o filme Transformers: A Vingança dos Derrotados (Transformers: Revenge Of The Fallen, EUA, 2009). Já assistiram? Eu já. E sim, por mais absurdo que possa parecer considerando as inúmeras críticas negativas, eu gostei. Você acha que pode viver com isso? Sim, eu gostei de Transformers 2 (sinceridade em primeiro lugar, oras). Reconheço suas inúmeras falhas, só que me diverti o suficiente para poder dizer que gostei do que assisti. Todavia, agora, eu ter gostado ou não do filme não vem ao caso. Não desejo fazer uma ‘crítica’ do filme, analisando a qualidade do mesmo. O que pretendo é me concentrar em um ponto específico do longa: os dois personagens que foram muito criticados, acusados de serem usados com fins racistas.

É o que alegam os principais acusadores, aliás, ‘as’ acusadoras Tasha Robinson e Alysson Nadia Field, respectivamente a editora do jornal The Onion a professora de cinema da Universidade da Califórnia. De acordo com a segunda, “há uma persistente desumanização de afro-americanos por Hollywood”. Não posso dizer que isso é uma mentira. De fato, há uma tendência em Hollywood em, eu não diria desumanizar, mas difamar a população negra. No entanto, isso não ocorre em Transformers 2.
. Voltemos aos personagens criticados. Quem não viu o filme, não faz idéia, agora quem viu, saberia dizer quais são? Bom, são dois Autobots, dois sempre brigando: os ‘gêmeos’ Skids e Muldflapp. Dois personagens criados exclusivamente para fins cômicos. Pelas palavras do diretor do filme, Michael Bay: "Foram feitos para serem divertidos.". Devo dizer que eu ri. Não tenho vergonha em dizer que achei os personagens engraçados.

Há mais um fator nesse assunto. A razão pela qual os personagens são criticados como racistas é por serem retratados utilizando gírias e manejos particulares inspirados na cultura rap. Atenção nesse ponto. Quem está sendo racista? Os ‘réus’, os realizadores do filme, ao criarem os personagens robóticos fãs de rap, ou as acusadoras, ao simplesmente deduzirem que os personagens robóticos fãs de rap são versões robóticas de negros fãs de rap? Por acaso só existem rappers e apreciadores desse gênero musical que sejam negros? Eu acho que não. Aliás, tenho certeza. Particularmente, eu detesto rap, e não entendo como podem gostar de algo assim, mas sei que essas pessoas, negras ou não, existem, e me conformo com esse fato. Por que então os personagens Skids e Muldflapp seriam estereótipos de negros rappers e não brancos rappers? (eu tinha escrito uma frase perigosa demais aqui, mas decidi excluí-la). Não seria mais racismo por parte de Tasha Robinson e Alysson Field considerarem Skids e Muldflapp como sendo estereótipos de negros, do que dos realizadores do filme por tê-los criado? Pensem comigo, se os ‘gêmeos’ fossem versões cômicas de pessoas que gostam de Heavy Metal, alguém faria alguma objeção? Não. Por quê? ‘Ninguém se incomodaria, pois poucas pessoas gostam de Heavy Metal’, poderiam dizer isso; mas, embora parcialmente verdadeira, tal afirmação não trás o principal motivo. ‘Poucas pessoas negras gostam de Heavy Metal?’. Bingo! Está aí o motivo. Queiram ou não, sendo isso bom ou ruim (e é ruim), o que vem acontecendo e muito em Hollywood (não só lá), é o fato (agora serei polêmico) dos brancos tentarem se redimir em relação aos negros em função do todo passado de escravidão negra no mundo ocidental. Reformularei a frase: ‘o fato dos brancos fazerem de tudo para parecerem condescendentes e, assim, tentarem se redimir em relação aos negros em função do passado negro que o ocidente vivenciou por tantos séculos na questão da escravidão. (Percebam como a própria ortografia designa a palavra ‘negro’ como algo que pode ser muito ruim). Mantendo o foco, a população branca em geral tenta esquecer o racismo. ‘Não somos racistas!’, afirmamos com orgulho ao sermos questionados. O que muitos não notam, não querem notar ou disfarçam na maior cara-de-pau é que presumir que qualquer coisa relacionada com a comunidade negra pode ser vista como racismo já é uma baita manifestação racista.

Pois bem, o que acontece nesse episódio envolvendo o filme Transformers 2 é exatamente isso. O simples fato de os personagens criticados pertencerem a uma cultura predominantemente negra é o que ocasionou as argumentações (falhas). ‘Vejam como estão sendo racistas! Tratam rappers como idiotas!’, vale dizer que tal afirmação é racista em si, como comentei antes. A chance de falar mal de alguém alegando que ela está sendo racista já é usual. Nesse caso específico de Transformers 2, o que eu acredito que esteja realmente acontecendo é que as pessoas que estão reclamando, uma vez que não são negras (eu não soube de nenhuma queixa vindo dos negros), estão fazendo uso dos personagens supostamente racistas para elas próprias serem racistas disfarçadamente, escondendo-se atrás de um véu de ética. Simples, o raciocínio tomado por elas é o seguinte: aparecendo a chance de haver a mínima possibilidade de alguma caracterização ser de fato racista, essas pessoas já partem para cima acusando-a de racista. Pois, deste modo, a mídia dará atenção ao caso ‘Oh! Estão sendo racistas!’, o público ficará a par de tais acusações e então acontecem duas coisas 1) alguém é taxado de racista (no caso, os realizadores de Transformers 2), e 2) é espalhada notícia de que alguém está sendo racista, no sentido de 'alguém está fazendo isso por mim'. Isso entra na cabeça de todo mundo (branco) e ocorrem (consciente ou inconscientemente) duas reações simultâneas, paradoxais e perigosamente satisfatórias em alguns casos: 1) alguém continua racista, os negros ainda não conquistaram a simpatia dos brancos; 2) os negros estão sendo defendidos, sua imagem está sendo defendida. ‘O que esse cara quer dizer com isso?!’. É o seguinte, a comunidade branca se esconde embaixo de uma túnica de ‘politicamente correto’ ao mesmo tempo em que continua a denegrir a imagem do negro (“denegrir”, hmm). Como já falei, isso pode ser um efeito inconsciente ou uma atitude disfarçada, mas o fato é que acontece.

Para acabar de vez com essa linha de pensamento hipócrita há, novamente, duas opções: 1) as cotas para negros nas universidades federais do Brasil. Antes eu não via o porquê, mas o Brasil precisa sim de cotas para pessoas de baixa renda. Agora isso não é necessário para pessoas de alta taxa de melanina no sangue. O argumento é que existem tantos negros pobres, que a minoria presente nas classes média e alta não representaria tanta divergência em ocupar as vagas nos vestibulares que de outra forma iriam para estudantes de igual renda, porém de maior capacidade intelectual. Esse pensamento não se diferencia tanto daquele tomado na década de 70 por políticos americanos que, em função de sua homofobia, quiseram proibir os professores gays de darem aulas, alegando que dentre os professores pedófilos há uma (duvidosa) alta taxa gays, e então, para diminuir o problema, eles afastariam os gays das salas de aula. Pois com as cotas é quase a mesma coisa; não é tão absurdo, mas a intenção é fundamentada em considerações de mesmo naipe. ‘Tem mais negros pobres que brancos pobres, então faremos uma cota para negros, desta forma acabamos com o problema’, no fundo não é isso que nos é apresentado como solução? e 2) a própria Tasha Robinson nos fornece um forte contra-argumento, baseado em sua supostamente irônica afirmação: “Se esses personagens não fossem animados e fossem interpretados por atores negros você tem que admitir que é racista. Mas coloque na figura de um robô, então, por ser só um robô, não tem mais problema”. Diga-me, um ator negro aceitaria trabalhar em um filme no qual sua imagem seria usada para ‘desumanizar’ os negros? Hum... Não, certamente que não. Para ser justo, reconheço que talvez aí esteja a tal ponta de ‘ironia’ a princípio presente na frase, todavia não me pareceu engraçado; aliás, nem um pouco se comparado a quem ela refere sua crítica: Skids e Muldflapp, que, sim, são uma boa fonte de humor.

Ah! Já ia me esquecer. Antes que me rotulem de um invariável defensor de Michael Bay, devo dizer que não sou apreciador do seu trabalho no geral. Detesto sua insanidade para com as cenas de ação, fazendo cortes bruscos e desnecessários absolutamente todo o tempo. Sua incompetência com a seriedade da produção também é marcante. Podem se acalmar. Eu sei que Bay é um diretor medíocre, ok? Só que na minha opinião ele está longe de ser o lixo que tantos o rotulam. Acho-o pior como eleitor do que como cineasta.

Detalhe importante para essa constatação, que vai contra a pessoa civil Michael Bay, é a caracterização que este faz do presidente Barack Obama em Transformers 2, com a qual não consigo aceitar. Ele trata Obama como um covarde. Mas o que esperar de um diretor descaradamente republicano? (e aqui devo deixar claro que Obama é mal retratado por ser um democrata e não pela cor de sua pele).

E outro problema pessoal de Bay reside em seu egocentrismo. Se no primeiro Transformers um garoto grita ‘Isso é muito melhor que Armageddon!’ (filme que ele dirigiu), aqui somos testemunhas da presença de um enorme cartaz de Bad Boys 2 (também dele) durante um considerável tempo em cena. Não que isso implique em problemas e seja facilmente perceptível, quero dizer, perceptível é, mas eu só notei a referência porque sou cinéfilo chato, mas se estas auto-referências continuarem, não se sabe o que pode vir a acontecer (uma cena inteira de outro filme seu?).

Concluindo, independentemente da qualidade artística do filme Transformers: A Vingança dos Derrotados, as acusações de racismo para cima do mesmo são tão substanciais quanto a complexidade dos personagens presentes no longa. (texto escrito em 1 de julho de 2009; revisto em 20 de janeiro de 2011).

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