A Invenção de Hugo Cabret, Magia e Nostalgia

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Enviado por Giordano em seg, 02/13/2012 - 05:26

A Invenção de Hugo Cabret é basicamente a razão pela qual eu sou apaixonado por cinema. 

E não, não é exagero.
 
Muitos me chamam por conservador dentro de várias questões debatidas no meio do cinema, por razões diferentes. Ou pela minha resistência a certos avanços tecnológicos ou pela minha ligação fortíssima com a narrativa e com a estética clássica, aquela que se usava na Era de Ouro do cinema americano e continua sendo o alicerce para a indústria cinematográfica Hollywoodiana. Acho que minha conexão inseparável com o cinema clássico deve-se ao fato de eu enxergar o cinema, no fim das contas, como mágica. E dentro do complexo e gigantesco grimório de feitiços que o cinema escreveu, a mais poderosa de todas as magias é a linguagem clássica. É a ilusão perfeita. E é por isso que me fascina tanto.
 
Essa ligação do cinema com a mágica não é privilégio da sétima arte, e encontra suas origens na raiz da História da Arte. As pinturas rupestres, segundo as interpretações mais prováveis, simula uma prática simbólica, com intenções mais próximas da mágica do que do mero registro. No entanto, ao longo da história, muitas camadas se sobrepuseram entre a mágica e o que se entende por arte. Veio então a busca pela perfeição, a validação do mercado, novas tecnologias, a imposição das academias, o sistema de salões e museus, chegando à crítica de arte e pior, aos posers. São camadas demais. Mas mesmo dúzias e dúzias de colchões não conseguem impedir o verdadeiro espectador de sentir uma mágica dor nas costas causada por uma ervilha.   
 
 
O cinema é, originalmente, nada mais do que tecnologia. O cinematógrafo era aquele aparelho desenvolvido pelos icônicos irmãos Lumiere que encantou seus primeiros espectadores ao colocar uma série de fotografias sobrepostas em alta velocidade para gerar a impressão de movimento de um trem em direção à platéia. E assim, num discreto abracadabra, é feita a primeira mágica. No entanto, para grande parte da sociedade, cinema era uma novidade tecnológica e como várias das que surgiam nas tradicionais feiras, era potencialmente efêmera. E talvez por ter sido deixado de lado pelos tecnocratas, que o cinema se tornou aquilo que ele nasceu para ser: mágica. Literalmente. Tornou-se uma atração de parques de diversão e shows de mágicas de artistas de palco, pura ilusão. E da ilusão, nasceu a ficção. 
 
A partir daí, é de senso comum o rumo que a coisa tomou. A estética e a linguagem se desenvolveram, juntamente ao mercado econômico. A mágica do cinema foi utilizada para fins políticos por figuras como Hitler e Lênin. O cinema provou-se capaz de conjurar o mais próximo de uma mitologia que tivemos no século XX, construindo um novo imaginário popular, povoado por ícones como Chaplin, Marilyn, entre outras figuras que se multiplicam até hoje. Veio o som, e então vieram as cores: a mágica se torna cada vez mais complexa. A Nouvelle Vague e o cinema moderno provaram que quebrar o feitiço e entregar os truques talvez seja uma outra forma de magia. Spielberg e George Lucas provaram que os feitiços funcionavam numa escala ainda maior do que se acreditava. Veio o vídeo e depois o DVD, e então o blu-ray e a internet. O cinema continua misturando fórmulas e palavras mágicas para conceber novos resultados. Mas tudo isso que eu falei foram camadas. Muitas camadas.
 
Quando eu era criança, acredito que ouvia muito mais a palavra “magia” associada ao cinema. Desde programas do Discovery Kids, passando pelos trailers da Disney, até a maneira como os filmes eram apresentados pelo narrador da Tela Quente. Sei que não faz tanto tempo assim da minha infância, mas dos anos 90 pra cá, já vejo muita diferença. Hoje, percebo as pessoas voltando a associar cinema mais com tecnologia (CGI, Motion Capture, o novo 3D) do que com magia, e nunca associam esses dois termos, embora a rima entre eles seja perfeita, e não só foneticamente. A tecnocracia parece mais forte do que nunca. Mas não acho que a tecnologia dissociada da magia tenha valor na arte. E é aí que entra Hugo Cabret. 
 
Em 2011, vimos no cinema o cúmulo do avanço tecnológico no cinema com o exemplo (quase) perfeito do Caesar de Planeta dos Macacos: A Origem, concebido por computação gráfica e motion capture. No entanto, em contrapartida, tivemos uma quantidade massiva de filmes celebrando a nostalgia de outros tempos do cinema. A começar por Woody Allen que desenvolveu em Meia Noite em Paris o estudo perfeito da nostalgia ao brincar com aquela velha sensação de que pertencemos a um tempo que não o nosso, talvez um tempo em que nem sequer vivemos. Eu, por exemplo, sonho que um Ford del Rey conversível (ou um DeLorean) venha me buscar e me levar para os anos 80, sendo que eu nasci em 92. Nostalgia é um sentimento melancólico, ainda que confortável. É simular um feito inalcançável: viajar no tempo. 
 
 
A nostalgia tomou conta dos blockbusters. Se tivemos exemplos da ação descerebrada dos anos 2000 (Transformers 3, Velozes e Furiosos 5), tivemos honestas tentativas nostálgicas de recuperar valores perdidos no cinema de massa. Vários deles com o pedigree de terem sido produzidos ou dirigidos pelo mitológico Steven Spielberg, inegavelmente um dos mais cinéfilos dos cineastas e um sujeito genuinamente preocupado com o conceito do cinema como “magia”. Cowboys e Aliens une dois gêneros distantes com humor e respeitando as regras de ambos os gêneros. Gigantes de Aço tinha um pré-requisito nostálgico para ser realizado: deveriam ser criados robôs operáveis fisicamente, e não deixar tudo a cargo do CGI. As Aventuras de Tintim, apesar do aspecto tecnológico do motion capture e do 3D, evoca as matinês dos anos 40, assim como o saudosista Capitão América. Em seu Cavalo de Guerra, Spielberg invoca os poderes dos grandes melodramas de Douglas Sirk e filmes como ...E o Vento Levou para contar a sua história. Em Super 8, Spielberg e J. J. Abrams propõe uma volta no tempo aos filmes infanto-juvenis dos anos 80, nos quais o produtor era mestre. A animação Rango brinca com regras do faroeste spaghetti e em meio a uma onda gigantesca de bichinhos digitais, os fantoches dos Muppets acabaram dominando bilheterias. Nostalgia.
 
 
E essa nostalgia chegou ao máximo na celebração do cinema mudo O Artista, do francês Michel Hazanavicius. Quase uma brincadeira da parte de Hazanavicius e seu ator, o comediante Jean Dujardin. Filme mudo, preto e branco, rodado na antiga janela 1:37:1 (o popular “quadrado”). A história não poderia ser mais simples, e exatamente por isso, não poderia ser mais envolvente. Um célebre ator de filmes mudos (ao estilo de Douglas Fairbanks ou Rodolfo Valentino) perde espaço quando o som começa a dominar, e vê uma fã sua erguer-se como estrela da era do cinema falado. O filme é contado como um filme dos anos 20, embora beba da fonte de filmes posteriores como Cantando na Chuva, Crepúsculo dos Deuses e Nasce uma Estrela. A direção de arte, a fotografia, as gags visuais, a atuação over, os tipos de filmes que eram feitos, tudo. Se há um mérito inegável em O Artista é a capacidade de provar para o público de hoje que um filme com todas essas características “velhas” pode não ser chato. O que faz com que nós, espectadores do século XXI tenhamos saudade dos tempos “silenciosos”, mesmo que não tenhamos chegado nem perto de vivê-los. 
 
No entanto, A Invenção de Hugo Cabret não trabalha com a nostalgia. A primeira vista, pode parecer que sim. Mas o que Scorsese atinge aqui é muito mais profundo. 
 
Sabe, eu acredito em magia. Digo isso sem medo. Poderia continuar falando em coisas nas quais eu acredito, por que se há algo que eu não sou é cético. Então, sim. Eu acredito em magia. Um dos problemas do mundo talvez seja pensar que a magia é oposta à ciência ou oposta à tecnologia. Eu discordo. Penso que o mais eficiente meio de conjurar magias é, sem dúvida, através da tecnologia. E nem por isso, deixam de ser mágica. E é isso que Scorsese prova aqui.
 
A Invenção de Hugo Cabret foi filmado com as câmeras Cameron-pace (desenvolvidas por você-sabe-qual-cameron), tecnologia de ponta direto do planeta Pandora, e atinge um resultado em 3D que nenhum outro filme chegou perto de atingir. Diferente da maioria, Scorsese faz da terceira dimensão uma ferramenta narrativa intrínseca ao feitiço que o filme pretende proporcionar, algo inimaginável para a época em que o filme se passa – a alvorada do cinema em suas primeiras décadas. 
 
O filme é baseado em um livro infantil de Brian Selznick, parente de David O. Selznick, um dos maiores produtores da história do cinema, responsável por ...E o Vento Levou. No livro, um garoto órfão que vive em uma estação de trem se enreda numa trama que envolve também o ex-mágico George Meliés, responsável pelo desenvolvimento de mais de 500 filmes de ficção e por um dos filmes mais celebrados dos primeiros anos da sétima arte – Viagem à Lua.
 
Martin Scorsese é outro cineasta mitológico e cinéfilo, um dos maiores nomes vivos do cinema mundial, e tem se envolvido nos últimos anos em uma empreitada de restauração de grandes filmes, com a intenção de manter viva e atual a mágica que os antigos filmes proporcionavam.
 
Era natural que os caminhos do livro e de Scorsese se cruzassem e gerassem essa obra prima. É preciso que alguém mostre que cinema ainda é magia, e consciente disso. A mágica de palco saiu de moda, é verdade. Hoje, é relegada a apresentações bregas (e charmosas justamente pela breguice) em cidades pequenas com divertidos charlatões fingindo serem russos. E o cinema como truque, aparentemente, não engana mais ninguém. Mas o cinema não é a mágica em si e sim o meio pelo qual a mágica acontece.
 
Apesar de A Invenção de Hugo Cabret ter como temática o cinema em si, não deixa de ser interessante a figura do incrível Christopher Lee como um livreiro, claramente encantado pelo poder de seus livros e disposto a espalhar a magia que eles lhe proporcionam para novas gerações. O que espero que Scorsese esteja fazendo com o cinema. E comigo, devo dizer que a mágica funcionou perfeitamente. A cada filme que aparecia nas telas da memória e do imaginário dos personagens de Hugo Cabret, mais encantado eu me percebia. Filmes que estamos acostumados a ver lendo livros de história, assistindo documentários ou no auge da curiosidade, fazendo buscas caóticas no youtube. Não há como descrever a sensação de assistir, com Hugo Cabret, o primeiro filme da história do cinema em 3D, o que já brinca com a primeira exibição em que, segundo a lenda, espectadores assustaram-se pensando que um trem que se aproximava da câmera sairia da tela e os atropelaria. Bom, aquele trem mágico de fato saiu da tela e levou aqueles espectadores desavisados junto. 
 
Em Hugo Cabret, Scorsese não só nos lembra que ainda estamos embarcados no trem dos Irmãos Lumiere como também nos lembra que esse trem ainda é mágico.  
 
E é por isso que A Invenção de Hugo Cabret, com sua câmera 3D, com a fotografia estourada nos momentos certos, a montagem com jumps e fusões, os travellings, as gruas, a direção de arte impecável, a bem aplicada computação gráfica, os maravilhosos figurinos, os animais bem treinados, atuações caricatas na medida certa, a linda fotografia, a trilha, a edição de som, a mixagem de som e todas as outras engrenagens que fazem a mágica do cinema acontecer, explica, basicamente, o por quê de alguém ser apaixonado por cinema. 
 
 

Comentários

imagem de Aline Dexheimer

Enviado por Aline Dexheimer (não verificado) em dom, 02/19/2012 - 17:37

Muito bom teu texto! Fiquei até nostálgica e louca para ver o filme! Tá na nossa lista!

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