O Ano do Flare parte I - "Eu sou o Número Quatro", "Transformers 3" e "Cowboys e Aliens"

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em qui, 12/29/2011 - 09:22

Antes, alguns aspectos técnicos. Aos profissionais da área, perdoem-me as imprecisões. Não sou da área da fotografia. Mas vamos lá.

FLARE (ou Lens Flare) - Termo utilizado em fotografia e em cinema para definir um reflexo de luz que "vaza" na lente, podendo se manifestar através de uma espécie de névoa na imagem ou através de fontes de luz visíveis, seja natural seja artificial. O Flare é geralmente indesejado por fotógrafos e diretores de fotografia em geral, pois é uma espécie de "sujeira" para a imagem. Os flares mais comuns são os feixes de luz e reflexos circulares ou hexagonais produzidos geralmente pelo sol. Na panavision ou em outras câmeras geralmente utilizadas para o cinema hollywoodiano que trabalham com lentes anamórficas, o flare produzido por fontes de luz diegéticas (presentes na narrativa) pode se manifestar como linhas horizontais. 

Steven Spielberg, um jovem Deus do panteão politeísta do cinema, transformou o flare em marca pessoal ao utilizá-lo para representar os alienígenas de sua obra prima, Contatos Imediatos de Terceiro Grau. E a partir deste filme, o flare se tornou uma marca estética e uma ferramenta narrativa não só para o diretor, mas para todo o gênero da Ficção Científica.

2011 foi um ano importantíssimo para a carreira de Steven Spielberg. O grande motivo para que eu fizesse esse especial é o lançamento dos dois filmes dirigidos por ele nesse ano, Cavalo de Guerra, que estreia dia 6 de Janeiro, e As Aventuras de Tintin, que estreia dia 20 de Janeiro, data até a qual esse especial vai ser atualizado com os mais variados textos sobre a brilhante carreira do meu diretor favorito. Mas esse texto, em especial, não é sobre o Spielberg diretor e sim sobre o Spielberg produtor. Nesse ano, tivemos 5 filmes produzidos pelo mestre. 5 ficções científicas. 5 filmes com a marca Spielberg. 5 filmes cheios de flare. 

 

EU SOU O NÚMERO QUATRO (I Am Number Four) - de DJ Caruso

O primeiro da lista foi "Eu sou o Número Quatro". Trata-se de um filme que não esconde seu caráter "caça níquel" com o objetivo de dar início a uma franquia. E é justamente essa artificialidade de concepção que prejudicou o filme, que apesar de seus problemas e de sua obviedade, é uma sci-fi teen eficiente. Nasceu para ser um filme de Michael Bay, mas os robôs gigantes tomaram o tempo do diretor "tecnicamente preciso". Então o cara tido como um dos diretores mais odiados do momento produz o filme juntamente a um dos diretores mais amados do cinema. Com essas forças se anulando entre os produtores, talvez coubesse ao diretor dar uma personalidade ao filme. O problema é que DJ Caruso, que já havia trabalhado com Spielberg nos genéricos, porém divertidos, Paranóia e Controle Absoluto, parece ter ligado no piloto automático, apesar de um ou outro momentos inspirados. 

Tecnicamente o filme é muito bacana. A fotografia, com leve granulado e muito flare, é de ninguém menos que Guillermo Navarro, que venceu o oscar por Labirinto do Fauno. Os efeitos especiais da Industrial Light & Magic, parceira constante de Spielberg, estão entre os melhores e mais discretos do ano. E narrativamente, o filme também não faz feio, já que trabalha em terreno seguro: Alienígena, que atende pelo nome de "Quatro", descobre que seus iguais estão sendo assassinados, e para se salvar, ele se camufla na atmosfera high school, faz amizade com um nerd, fica afim de uma garota, sofre bullying de um quarterback. O filme segue EXATAMENTE a mesma estrutura do clássico de Nicholas Ray, Juventude Transviada (Rebel Without a Cause), e segue a máxima, na qual eu acredito, de que com boas referências bem articuladas, criam-se bons filmes. No lugar de James Dean, temos Alex Pettyfer interpretando o alienígena que assume o nome de John Smith.

Como toda boa ficção científica spielberguiana, os temas sci-fi são pano de fundo para um rito de passagem dos personagens. A chegada da vida adulta aparece para Quatro no domínio de seus poderes, no que ele consegue fazer com a luz emitida por suas mãos. Do controle desse poder, depende a proteção de seus entes queridos e a imposição dele num mundo que lhe é agressivo. Assim como todo filme à Spielberg, há o problema com a paternidade, que identificamos na presença do guardião que Thimothy Oliphant interpreta. 

Se tudo parece seguir a cartilha, o que falta? Alma, talvez. DJ Caruso, Bay e Steven parecem mais interessados em forçar uma franquia que o filme acaba sendo prejudicado, a exemplo de Eragon, Percy Jackson, A Bússola de Ouro e vários outros exemplos recentes. E embora Eu sou o Número Quatro seja claramente superior a esses citados, a sensação é de comida congelada, dessa vez de uma marca boa, mas ainda assim, comida congelada. 

AVALIAÇÃO: 3 POLTRONAS

TRANSFORMERS: O LADO OCULTO DA LUA (Transformers 3: The Dark of the Moon) - de Michael Bay

Quando assisti ao primeiro Transformers, em 2007, pensei comigo "Aí, Michael Bay! Resolver ler o polígrafo do Spielberg e fazer um filme divertido e contar uma história legal!". Ledo engano. Spielberg continuou produzindo os filmes dos robôs gigantes por que não é bobo: mesmo ruins, esses últimos dois geraram uma receita gigantesca. E o lucro parece inversamente proporcional à capacidade do filme de contar histórias. A verdade é que não parecem haver personagens neste terceiro. E se percebi algo da estética do produtor presente nesse resultado final do filme... acho que é só no flare, já que nem os efeitos visuais me parecem muito ligados à maneira spielberguiana de fazer cinema. 

"Transformers - O Lado Oculto da Lua" é o terceiro capítulo da história de Sam Witwicky. Ou melhor, trata-se da terceira história envolvendo Sam Witwicky e os robôs gigantes. Digo isso, pos a ligação narrativa deste terceiro com os anteriores é bastante frágil. O primeiro "Transformers" apareceu com a curiosa ideia de fazer um filme baseado em uma linha de bonecos de plástico, mas embora o clima do primeiro filme (e apenas do primeiro filme) seja de uma inocente aventura à Spielberg (que não por acaso, produz a trilogia), toda a franquia incorpora elementos contemporâneos e questões cada vez mais em voga no século XXI. Como bem disse a teórica e crítica Fatimarlei Lunardelli, Transformers acaba sendo mais do que um mais um produto de apelo masculino que soma mulheres a automóveis, tornando-se um elogio à sociedade de consumo. E isso presente desde o primeiro filme (no qual Sam é encontrado pelas máquinas através do E-Bay), até este terceiro.

Transformers - O Lado Oculto da Lua ganha este título pois tem seu início (sua parte mais interessante) como uma versão alternativa para a corrida espacial dos anos 60, quando na chegada do homem à Lua, foi encontrado um autobot. Quando voltamos à Sam Witwicky, ele está desempregado depois de salvar o mundo duas vezes e com uma nova namorada (já que a intérprete da anterior, Megan Fox, foi demitida por ofender o diretor Michael Bay), e novamente acaba envolvido entre uma briga entre Autobots e Decepticons, agora com a presença do robô perdido Sentinel Prime. No mais, narrativamente, Transformers 3 tem o solitário mérito de brincar com os acontecimentos politico-sociais do nosso mundo, um mérito que é completamente esquecido mais tarde, constituindo um terceiro ato gigantesco na interminável batalha final. Os diálogos entre Megatron e Sentinel parecem sugados dos diálogos entre Professor Xavier e Magneto, que por sua vez, inspiram-se em Martin Luther King e Malcom X, o que não deixa de ser bacana, uma vez que a história do filme flerta com os anos 60 a todo instante.

O que mais chama atenção nese terceiro Transformers, é a superficialidade das relações humanas de Sam em comparação à relação dele com as máquinas. A troca da personagem depois da demissão de Megan Fox é a maior prova disso. Se o ator Hugo Weaving (presente no filme apenas em sua sensacional voz), o personagem Megatron com certeza se manteria, mesmo que com outro timbre. É claro que um dos motivos é por que o espectador, no caso de Megan Fox, reconhece logo de cara que não se trata da mesma atriz. Mas não me parece ser esse o único motivo: o fato é que o filme joga de maneira que tanto Sam quanto o espectador se envolva mais com os robôs do que com os humanos. Portanto, quem se importa com a troca da namorada de um filme para o outro? Ninguém, a não ser uma horda de adolescentes em fúria apaixonados pela inexpressiva Megan Fox. Mas se Megatron, ou o melhor amigo de Sam, Bumblebee, fossem substituidos por outros personagens, seria uma adaptação bem mais difícil para o espectador.

Essa é uma questão absurdamente contemporânea que Transformers tem o mérito de colocar em roda, mas de maneira alguma é um mérito narrativo do filme possuir personagens tão mal desenvolvidos, quanto a própria namorada interpretada por Rosie Huntington-Whiteley, os pais, o ex-militar de John Turturro, o absurdo chefe de John Malkovich e a militar caricata de Frances McDormand. Os seres humanos, em Transformers, funcionam todos como um superficial alívio cômico para uma profunda disputa tecnológica entre máquinas, o que não deixa de ser uma visão de mundo assustadoramente possível para os dias de hoje.

Uma pena, pois por mais alienígena ou robóticos que sejam os filmes com a "marca Spielberg", eles são fundamentalmente humanos. Ao contrário dos filmes de Michael Bay. 

AVALIAÇÃO: 1 POLTRONA

COWBOYS & ALIENS (Cowboys X Aliens) - de Jon Favreau

O terceiro filme dessa lista tem, com certeza, um dos conceitos mais absurdos do ano, e que causou estranheza ao grande público ao unir dois gêneros absurdamente díspares como bem assume o título: o faroeste e a ficção científica, nessa ordem. Não é um feito inédito, mas é sempre bacana quando dá certo. Assim como o recente Rango, o filme de Jon Favreau (diretor dos dois Homem de Ferro e de Zathura), o filme brinca com a estrutura e iconografia do mais clássico gênero americano. E a primeira meia hora segue à risca a estrutura clássica de Wayne ou Eastwood. Conformismo, abuso de poder, um forasteiro que quebra o equilíbrio. Daniel Craig e Harrison Ford nos papéis centrais, encarnam figuras arquetípicas: o misterioso herói solitário e o fazendeiro bruto. A presença de Olivia Wilde como a mocinha forte que se livra do perigo sozinha remete ao faroeste revisionista. A única estranheza em toda a primeira meia hora é o bracelete robótico do personagem de Craig. 

O filme é baseado numa história em quadrinhos (que segundo dizem, é muito ruim, mas não li), e se torna uma ficção científica somente quando o bracelete do forasteiro se mostra útil ao salvar a cidade do ataque de naves espaciais e a partir daí, começa a jornada para salvar os entes queridos dos moradores que foram abduzidos. A péssima atuação de Olivia Wilde (ainda que linda) não compromete, pois Craig, Ford, Paul Dano, Sam Rocwkell e os outros coadjuvantes sustentam seus excelentes personagens, cada um com seu próprio arco a ser resolvido. 

A fotografia é de Mathew Libatique (Cisne Negro), agora equilibrando o flare solar dos faroestes com o flare artificial das luzes alienígenas. A foto é somada a um sensacional design de produção, que remete, ao mesmo tempo, aos faroestes clássicos e revisionistas e aos filmes B, as duas grandes referências. Dos faroestes, vem todo o cenário, a poeira, e os signos visuais do gênero. E dos filmes B, temos o desenho das naves, aliens e armas, nada muito inventivo, e sim o mais icônico possível como deveria ser. É nessa brincadeira semiótica que se encontra o interesse de Cowboys & Aliens, mas é na construção de personagens e no resolvimento do arco dramático que está a base.

Viu, Bay. Não é tão difícil assim contar uma história. Cowboys & Aliens não é uma história sensacional, filme maravilhoso ou livre de defeitos (claro que tem, vários, a personagem de Olivia Wilde e a obviedade de algumas situações estão entre eles). Mas é eficiente por que não esquece que está contando uma história, e da maneira como ela deve ser contada. Mas enfim... Talvez Bay e o resto de Hollywood nem queira escutar. Afinal, o seu Transformers 3 fez um sucesso líquido muito maior do que essa brincadeira de Jon Favreau, ou os próximos dois excelentes filmes que cito nesse artigo.

AVALIAÇÃO: 4 POLTRONAS

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