O Ano do Flare parte II - "Super 8" e "Gigantes de Aço"

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em qua, 01/04/2012 - 20:03

SUPER 8 (super 8) - J. J. Abrams

Qual é o filme que mais tem a cara de Spielberg em 2011? A rsposta óbvia seria "Tintin" ou "Cavalo de Guerra", filmes que o cineasta dirigiu. Isso se não houvesse "Super 8", um verdadeiro pastiche spielbeguiano criado pelo seu pupilo J. J. Abrams com intuito de não só referenciar o mestre, mas também reverenciar. "Puxar o saco" talvez seja uma expressão rude demais. Enfim, há spielberg em quase todo o filme. Desde seu argumento, que envolve um grupo de crianças, um acidente de trem, alienígenas, câmeras caseiras e problemas paternais. A fotografia também segue todos os princípios spielberguianos (que explicarei mais tarde no artigo sobre estes signos), estão lá a câmera baixa e o enquadramento que evoca o sublime, e é claro, o flare.

E aqui vale um comentário sobre o flare. J. J. parece estar tentando tornar o flare azulado artificial uma marca também sua, como já fez em Star Trek e até mesmo em Missão Impossível IV, que ele apenas produz. Mas não é o mesmo flare de Steven Spielberg. É um outro flare, mais invasivo, chama atenção para si, e surge até mesmo em momentos onde não há uma fonte de luz diegética capaz de produzi-lo. Isso reflete bastante o tipo de filme que é Super 8.

Trata-se de um pastiche, como aquele que Abaixo o Amor faz com os filmes de Doris Day ou como o recente O Artista, faz com os filmes mudos. O próprio poster do filme evoca os tempos áureos de Drew Struzan, que criou maravilhas icônicas com os filmes de Spielberg. A trilha sonora de Michael Giachinno é uma grande homenagem a John Williams. A artificialidade de Super 8 é evidente, mas não a um nível que prejudique muito o filme. Mas é preciso estar consciente dela. A impressão é que o filme não se sustenta se retirarmos dele a sensação de nostalgia e as dúzias de referências a ET, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Os Goonies, etc. Só sobraria flare.

O problema é o seguinte: o grande valor de Spielberg, no fim, não está no flare, ou em qualquer constante estética e temática. O valor está na capacidade de contar histórias e na construção dos personagens capazes de nos envolver e nos encantar. E é isso que talvez seja a única coisa que falta em Super 8: a capacidade de encantar. Por mais simpático que seja Joe Lamb, nem lembra a complexidade de um Elliot. Seus amigos sofrem de uma séria falta de carisma, a característica mais necessária a um grupo de amigos estilo goonies. O que nos faz chegar no ET. Tudo bem, JJ aprendeu com o meste que esconder os monstros é uma decisão inteligente. Mas se ele pretendia causar qualquer tipo de identificação, ele precisava mais que pupilas dilatando. No fim, é difícil ter pena ou assumi-lo como antagonista: o alienígena em Super-8 não parece ser um personagem, mas uma função. Uma diferença básica: ET se encerra com um close em Elliot. SUPER 8 se encerra com um enquadramento apoteótico da nave subindo aos céus de Ohio. Só faltou a J.J. acertar sua balança de valores spielberguianos para fazer um filme perfeito.

Mas isso pode ser apenas purismo, Super 8 continua um dos melhores filmes do ano, pois no mínimo se esforça para encantar, divertir e causar qualquer coisa um pouquinho mais mágica no espectador, diferente de vertigem ou adrenalina. Mesmo não sendo o flare dos velhos filmes spielberguianos, é uma tentativa, e uma ótima tentativa, e funciona como uma grande homenagem aos que tem saudade.

AVALIAÇÃO FILA K: 4 POLTRONAS

GIGANTES DE AÇO (Real Steel) - Shawn Levy

Já começo sendo bem direto: Considero "Gigantes de Aço" é um dos filmes mais injustiçados de 2011. Fez uma bilheteria razoável, nada muito forte. A crítica praticamente ignorou o filme. Houve muito preconceito pelas associações com Transformers ou pelo fraco trailer que vende como um filme de ação estúpido. Na minha opinião, trata-se de um dos melhores blockbusters do ano, senão o melhor.

Se o flare de J. J. Abrams surge intrusivo e as vezes, deslocado, a direção surpreendentemente segura de Shawn Levy não permite que vá além do necessário. O nome do produtor Steven Spielberg surge no flare de faróis de um caminhão na cena de abertura, evocando o primeiro filme do mestre, Encurralado, uma homeagem muito mais contida, quase imperceptível, diferente do carro alegórico spielberguiano de Super 8 (que eu adorei, mas enfim).

A história é simples. Num futuro próximo, as lutas humanas são proibidas e substituidas por robôs. Hugh Jackman é Charlie Kenton, um ex-lutador, que agora exerce a função de treinador de robôs, mas se encontra decadente e endividado. O personagem se vê obrigado a passar uma temporada com seu filho Max, garoto esperto apaixonado por lutas de robô. Os dois nunca conviveram, e não conseguem se sentir parte um do outro de maneira alguma. O garoto carente acaba encontrando um apoio em um robô de ferro-velho, usado para saco de pancadas anos atrás. O menino coloca como sua meta treiná-lo a ponto de poder lutar na liga oficial, mesmo com a resistência de Charlie.

Ok, colocando dessa maneira, tudo parece muito óbvio. E de fato, é. É possível saber tudo que aconteceria no decorrer do filme: qualquer um que ja assistiu algum Rocky, O Campeão,  ou outro filme de esportes não terá dificuldade de reconhecer todos os pontos de virada, as vitórias e derrotas e o caminho que percorrerão Charlie, Max e o robô Atom, para a redenção final.

Algumas críticas negativas afirmaram que o filme tenta criar uma subtrama para a existência de uma consciência de Atom. Não é verdade, considero isso uma falha de interpretação por parte de quem afirmou isso. A verdade é que, nos moldes Spielberguianos, o filme é essencialmente sobre a falta da relação entre pai e filho. E essa questão aparece muito mais forte aqui, e tratada com muito mais sensibilidade do que em Super 8, Cowboys e Aliens ou Eu Sou o Número Quatro. Quando estão no ferro-velho, Charlie tenta salvar Max de uma queda no precipício. Quem salva, por acidente, é Atom. A partir daí, pela falha do pai e o resgate acidental no braço inanimado do robô, Max passa a projetar nele uma figura paterna. O garoto insiste em levá-lo para casa, em treiná-lo, e ao descobrir seu "modo sombra", não tarda a querer que o robô não imite apenas os seus movimentos, mas também os movimentos do seu verdadeiro pai, Charlie. A cena no qual há a "descoberta da consciência", não há indícios de que de fato há uma consciência no robô, o enquadramento no rosto de Atom é inerte. Eu vi ali é o desejo do garoto por essa consciência, "o seu segredo está guardado comigo" é dito novamente para o pai de verdade mais tarde.

Essa sensibilidade é um diferencial do filme. É verdade, é superficial, mas isso nunca é um problema nesse. A bela fotografia é uma das melhores do ano e jamais será lembrada em qualquer premiação. A direção de arte e os efeitos visuais são excelentes: o uso de robôs físicos conferem ao filme uma verossimilhança muito melhor que qualquer transformer. Hugh Jackman constroi um personagem muito legal, mas o charme é todo do garoto Dakota Goyo, que faz uma criança muito mais carismática do que todo o elenco de Super 8. Nunca pensei que elogiaria tanto um filme de Shawn Levy (uma noite no museu), mas diferente da grande maioria dos blockbusters desse ano, esse tem personagens. Até mesmo a grande falha do filme evoca aos defeitos de vários filmes de Spielberg: a falta de consistência do personagem feminino, aqui interpretado por Evangeline Lilly, que surge como uma figura totalmente sem personalidade. Mas a exceção dela, todos os personagens são bem elaborados, mesmo que trabalhem com o puro estereótipo (como os vilões" do filme).

Uma pena que tenha sido tão ignorado o filme, trata-se de uma das melhores diversões do ano, uma história cativante, bons personagens, roteiro bem estruturado, excelentes cenas de luta, e tecnicamente perfeito. E, é claro, o flare refletido no metal cromado dos robôs.

AVALIAÇÃO: 4 Poltronas

***

Enfim, não pensem que eu superestimo tanto assim essa técnica fotográfica barata. A verdade é que usei o "flare" nesses artigos como uma metáfora daquilo que Spielberg traz aos filmes. É claro que não é infalível. "Transformers 3",  por exemplo, é um péssimo filme, sem exageros, um dos piores do ano. Mas sem dúvida, "Gigantes de Aço", "Super 8" e "Cowboys e Aliens" são filmes divertidos que tem um diferencial dos outros blockbusters atuais, e não estou falando do flare, e sim um sentimento de nostalgia. Talvez por que em uma certa época, os grandes filmes eram mais inocentes, despretensiosos,  preocupavam-se um pouco mais com uma diversão mais pura, bons personagens, e uma história bem contada, mesmo que com um ou outro defeitos e furos (e os três filmes que eu citei tem problemas), mas que faz com que tantos espectadores nem se preocupem, pois estão distraídos com o flair. Não, não foi um erro de grafia. Em certo instante de "Gigantes de Aço", o personagem de Hugh Jackman fala diz para seu filho que para cativar a plateia, é preciso ter "flair" (que em livre tradução, é algo como "charme"), e que se você não tem muita coisa, mas tem flair, você os pega. Nem sempre é o suficiente, mas se alguns filmes se esforçam para contar uma história e também para ter esse flair, já fico feliz, mesmo com qualquer tropeço. E Spielberg, como diretor ou produtor, tem flare. Ops, flair. Ou os dois.

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