Three

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Enviado por Ghuyer em ter, 06/21/2011 - 03:43

 

Na última terça-feira (14/06), eu passei por um momento tenso. Antes disso minha boca era só relativamente normal. Agora, com um pino de titânio parafusado no meu maxilar, me sinto mais estranho ainda. Um implante, sim. Botei um implante, e tem mais um a caminho. Eu poderia discursar longamente sobre as imprecisões do meu histórico médico-ortodôntico, mas não vem ao caso. O fato é que, estando em estado pós-cirurgia, acabei me deitando de vez em cima do livro cuja leitura eu havia iniciado poucos dias antes.

Estou falando de “Three”, ou “3”, do escritor Ted Dekker. Tinha chegado à página 78 antes da operação-implante. Na noite do dia seguinte eu já tinha terminado o livro de 348 páginas - o que dá uma média de mais de 100 páginas lidas por dia. E isso, acreditem, é muita coisa considerando meu coeficiente de velocidade de leitura. Eu leio muito devagar, e é difícil um livro me prender a atenção desse jeito. Fiquei surpreso com a minha empolgação ao devorar os capítulos. Tanto que na janta de quarta-feira (15/06) eu fiquei com o livro à mesa, coisa que nunca faço.

Em 2008 eu já havia lido um livro que Ted Dekker escrevera em parceria com Frank Peretti, chamado “Fim do Jogo” (House, no original). Lembro de também ser uma leitura frenética, como “Three” acabou se mostrando depois, embora os dois livros sejam bastante diferentes. “Fim do Jogo” é praticamente uma história de terror sobrenatural, ao passo que “Three” é um thriller policial que acaba se revelando um drama psicológico intenso. São os únicos trabalhos de Dekker lançados no Brasil (com tradução brasileira), mas não se enganem, o cara já escreveu cerca de 30 romances. Fiquei muito curioso para ler outras de suas obras. E pesquisando sobre o sujeito, acabei descobrindo que justamente esses dois livros que li foram adaptados para o cinema. Só esses dois. “Three” em 2006, e “Fim do Jogo” em 2008 (logo no ano em que o li). Não vi nenhum ainda. Só estava conseguindo encontrar “Thr3e”, como foi batizada a adaptação cinematográfica, dublado, sob o falho título brasileiro de “3 Desculpas  Para Matar”, até o Gustavo me conseguir uma cópia com áudio original.

[...]

Acabei de ver o filme, e vou me poupar de fazer uma crítica completa em função da quantidade interminável de falhas. O texto ficaria parecido com aquele que escrevi sobre O Mistério de Candyman (Candyman, EUA, 1992), ou seja, um punhado de parágrafos que de tanto tentar preencher os buracos e juntar todas as pontas soltas da trama acabou ficando quase tão incompreensível quanto o filme em si. Não vale a pena o esforço de fazer uma crítica sobre Thr3e, por esse motivo. Basta dizer que o longa banaliza toda a trama do ótimo livro no qual foi inspirado, reduzindo a pouco mais que nada o conceito central daquela obra, e
resultando em um thriller policial medíocre com um roteiro cheio de furos, uma montagem falha, e um elenco fraco. Assim sendo, ao confirmar que o filme existente não presta, posso, então, especular sobre o que seria um filme ideal baseado em “Three”.

Desde que comecei a minha transformação em cinéfilo (ainda em andamento), passei a cada vez mais ler os livros já imaginando um filme. Não sei se é assim com mais pessoas, mas foi comigo. O culpado decisivo foi o trabalho de Ron Howard com a adaptação de O Código Da Vinci, pois fiquei a par do elenco escalado logo no começo da minha leitura, e incorporei os rostos dos atores aos personagens enquanto lia. Por isso, talvez, minhas únicas queixas quanto ao quesito “fidelidade” nesse longa se pesem em cima daquele final horroroso. Mas como os sensatos sabem, “fidelidade” não é argumento para diminuir um filme, por isso as aspas. No caso de O Código Da Vinci, no enquanto, assim como em Thr3e (além de outros exemplos), creio que a comparação é válida, visto que o final do roteiro cinematográfico vai contra a linha que a narrativa vinha tomando (tanto no texto original, quanto na adaptação). E não me refiro essencialmente ao fim. Creio que qualquer modificação que destoe da verossimilhança, ou mesmo do ritmo, da dinâmica, de qualquer coisa que a história dependa, vale ser questionada. Da mesma forma, deve-se considerar positivamente uma modificação do roteiro que aprimore o texto original, seja para melhor transportá-lo à linguagem do cinema, ou mesmo uma melhoria no contexto geral da trama, como o conserto de um eventual furo – o que, na minha opinião, contrastando com seu antecessor, ocorre em grande escala em Anjos e Demônios.

Depois de ter deixado claro meu ponto de vista em relação a adaptações de livros para o cinema, fico mais tranquilo em falar sobre como imaginei o filme baseado em “Three”. Como vinha dizendo no início do parágrafo anterior, com o tempo passei a ler livros já montando suas adaptações cinematográficas na cabeça. Às vezes consigo até nomear toda a equipe de produção e o elenco principal. Geralmente não chego a tanto; fico só no roteiro e modificações necessárias. Mas “Three”, não só por ter uma narrativa ágil, ideal para a natureza da narrativa cinematográfica, foi um livro que chamou muito minha atenção para a dificuldade em adaptá-lo, apesar disso. É paradoxal. Ao mesmo tempo em que narrativa é susceptível à montagem para o cinema, o conteúdo, por sua vez, não é. Não seria fácil fazer um roteiro. Um deslize e o resultado poderia facilmente ser um desastre. Prova mais incontestável que a péssima adaptação existente? Então, fiquei empolgado com a “ideia de idealizar” um filme de “Three”, e fui juntando mentalmente uma equipe que seria capaz de realizar o filme.

Não cheguei a um time definitivo, mas alguns nomes acredito estarem bastante aptos à tarefa.

  • Direção: Por “Three” conter elementos tanto de Se7en, quanto de Clube da Luta, David Fincher seria a escolha mais óbvia. E de fato, Fincher é provavelmente meu candidato mais forte à cadeira do diretor. Porém, o trabalho de estréia de George Nolfi, Os Agentes do Destino, me faz pensar que ele tem a mão certa para a condução de “Three”, devido ao crescente tom de tensão presente na história. E por saber muito bem como narrar um conto com desfecho surpreendente, o subestimado Paul McGuigan, responsável pelo excelente Xeque-Mate, também está no páreo. Assim como o também subestimado (e desconhecido) Christopher Smith. Claro, não custa dizer que outro Christopher aí poderia fazer mais uma obra-prima caso tivesse em mãos um roteiro do filme (melhor ainda se por ele escrito). E se... Alfred Hitchcock ainda fosse vivo?
  • Roteiro: Por ter uma ótima noção de como entregar informações relevantes para a continuidade da narrativa de forma gradativa e bem planejada, o que é essencial para um filme baseado em “Three”, de novo cito George Nolfi. Talvez o roteiro pudesse ficar com ele, e a direção com um dos outros diretores citados. Tony Gilroy é outro que poderia ficar com o roteiro – aliás, forte escolha. E lembrando de Janela Secreta (Secret Window, EUA, 2004), que possui certas semelhanças de estrutura com o livro, David Koepp também seria uma boa escolha. Da mesma forma que Steven Knight. Até Charlie Kaufman, caso tivesse a bondade de ceder sua genialidade para um projeto alheio a suas indagações filosóficas originais (afinal, estamos falando de uma adaptação, coisa que Kaufman nunca fez). O sumido Ted Tally, que escreveu as melhores adaptações de obras do Thomas Harris que se tem notícia: O Silêncio dos Inocentes e Dragão Vermelho. Eric Roth, em função do que já fez em O Informante e O Bom Pastor . E por fim, outra opção seria a dupla responsável pelo ótimo thriller Um Crime de Mestre.
  • Elenco: Só tenho certeza de um papel. O protagonista, Kevin Parson, deveria sem sombra de dúvida ser interpretado por Ryan Gosling. Sobre os outros personagens, ainda não me convenci. Jennifer poderia ser vivida por Jennifer Connely. Samantha, por Emily Blunt. Milton, por James Gandolfini (embora duvido que ele aceitasse um papel menor). Eugene, por Richard Jenkins. Balinda, por Glenn Close (ou Helen Mirren, ou Susan Sarandon). Dr. John Francis, por Michael Lonsdale (ou Anthony Hopkins). E Slater poderia ser Kiefer Sutherland (ou Gerard Butler, ou Pierce Brosnan).
  • Montagem: Lee Smith, Michael Kahn, a dupla Jim Miller e Paul Rubell, ou Thom Noble.
  • Fotografia: Dante Spinoti, Dion Beebe, Florian Ballhaus, John Toll, Pawel Edelman ou Robert Richardson.
  • Direção de Arte: Albrecht Konrad ou Donald Graham Burt.
  • Figurino: Kasia Walicka-Maimone ou Marit Allen (se estivesse viva).
  • Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams, James Newton Howard ou Thomas Newman.

Colocados à mostra os concorrentes (devo ter esquecido alguém, como sempre acontece), listo, enfim, uma equipe pronta:

  • Direção: David Fincher;
  • Roteiro: George Nolfi;
  • Elenco: Ryan Gosling, Jennifer Connoly, Emily Blunt, James Gandolfini, Richard Jenkins, Glenn Close, Michael Lonsdale, Kiefer Sutherland;
  • Montagem: Lee Smith;
  • Fotografia: Pawel Edelman;
  • Direção de Arte: Albrecht Konrad;
  • Figurino: Kasia Walicka-Maimone;
  • Trilha sonora: James Newton Howard.

Pronto. Se alguém por acaso tenha lido o livro, comente minhas escolhas, e compartilhe as suas.

Comentários

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Enviado por Maza em ter, 06/21/2011 - 08:28

1. Legal o relato sobre o livro, já pesquisei a respeito e tem edição em Português, 2007, Editora  THOMAS NELSON BRASIL (confesso nunca ter lido nada da editora), média de 55 reais logo, bom preço para colocar na minha lista de presentes...em conta, diria eu.

2. Interessante as ponderações sobre adaptações de cinema, procurarei considerar o texto para quando publicar uma certa lista de adaptações para o cinema (até meados de julho, aguardem...não será nada de TOP 10 mas acho que será válida...).

3. Vi parcialmente seu texto sobre O mistério de Candyman e não achei nada de tão ruim quanto parecia ser pelos seus comentários. Pelo contrário, gosto das suas críticas e tudo mais e nem sempre conseguiremos escrever apenas com uma análise técnica da obra observada, as vezes fica um texto aparentemente desconexo, talvez até mais com cara de resenha (isso sim é o que posso dizer de minhas críticas quando por vezes tento reler) mas isso não me parece um demérito nem algo do tipo.

Era isso.

 

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Enviado por Ghuyer em ter, 06/21/2011 - 14:04

1. Também nunca tinha lido - se quer ouvido falar - da editora essa Thomas Nelson Brasil. Foi a capa do livro, mais do que tudo, que me chamou a atenção. Confesso, não raro compro livros pela capa. Se tem duas edições, e a com capa bonita está em falta, espero.

2. Fazer uma lista de adaptações está nos meus planos futuros também. E estou no aguardo quanto a tua!

3. Muito bom saber que aquele texto não está tão ruim! (:

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Enviado por Jana em ter, 06/21/2011 - 10:25

Ghuyer, considera empréstimo de livro?? Huahauhauahuha!

Adorei o texto e com certeza vou ler!

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Enviado por Ghuyer em ter, 06/21/2011 - 14:10

Considero empréstimo de livro, sim. É só cuidar direitinho, hehe. Mas tenho 3 regras (3, oh!):

  1. Usar marcador de página, e não as orelhas do livro, e muito menos dobrar a pontinha das páginas para marcar onde está a leitura.
  2. Na hora de virar a página, não lamber o dedo para fazer isso.
  3. Não emprestar para um terceiro.

Nunca sei como as pessoas leem, ou o que fazem com os livros emprestados, e não estou dizendo que tu por acaso faça uma dessas coisas, mas não custa avisar. Posso levar na quarta-feira já, se quiser.

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Enviado por Jana em ter, 06/21/2011 - 15:24

Quando empresto livros tbem prezo estes cuidados básicos!
Se puder levar Quarta, agradeço!   :D

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