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Enviado por Pedro em qui, 07/21/2011 - 17:24

 

Sou fã de Homem-Aranha. Chorei em 2002 durante a sessão de pré-estréia do primeiro filme. Coleciono os quadrinhos praticamente ininterruptamente desde 1996 e felizmente consegui angariar algumas edições mais antigas e graças a Internet consegui me inteirar das fases clássicas – como por exemplo a origem do uniforme negro e do Venom, o que realmente aconteceu na ponte do Brooklyn com o Aranha e o Duende Verde, todas as mentiras envolvendo os pais de Peter Parker e os vários casos de amor da Tia May.

Ontem (dia 20 de julho) apareceu o primeiro trailer oficial do novo filme, Amazing Spiderman, que tem estréia prevista pro verão americano do ano que vem. Não quero discutir aqui diretores e atores. Tenho problemas com alguns deles – especialmente James Franco nos três primeiros filmes de Sam Raimi; Harold Osborn é um perdedor, um nerd tão nerd quanto Peter e um perdedor. Sempre estragou tudo que fez e no tempo em que Norman, o Duende Verde original, esteve morto ele conseguiu colocar boa parte da fortuna da família fora. Mas adoro o Franco, então nem vou entrar nesse assunto. Também não falarei de efeitos especiais, nem de cenas removidas dos primeiros filmes (como a cena do World Trade Center) ou colocadas como uma afronta (como a cena no terceiro filme em que o Aranha corre na frente de uma bandeira americana).

Quero falar aqui de adaptação. Outros artigos e críticas já apareceram aqui no site falando disso. Mas o Aranha é o meu herói. Sempre foi. Dividimos até o nome. E gosto de achar que eu sei muito, realmente muito sobre ele. E nenhum dos três filmes de Sam Raimi conseguiram sequer mostrar quem o Homem-Aranha realmente é e com o surgimento desse reboot e as primeiras indicações de erros grosseiros de adaptação preciso colocar isso pra fora. Como Jack, o Estripador, irei por partes.

 

Homem-Aranha, de 2002. Dirigido por Sam Raimi, com Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe, James Franco, etc, etc. Nesse filme temos a origem do Aranha e um vilão. Comecemos pela origem. Ninguém nunca acerta. Já vi versões em que até o Doutor Octopus estava envolvido. Nesse filme ele conseguiu pelo menos chegar perto. Mas não era uma excursão de escola na qual Peter Parker é um fotografo perdedor e tímido. Peter sempre foi um gênio. De fato, recentemente alguns vilões do universo Marvel fizeram uma lista das maiores mentes e o Aranha aparecia em décimo primeiro. O que não é pouca coisa quando Bruce Banner está em décimo e Tony Stark em oitavo (Reed Richards encabeçava a lista). Ele estava era trabalhando num programa de estudos avançados que pesquisava aplicações da radiação em animais, especialmente insetos. Sim, estamos nos anos 60. Radiação era a engenharia genética deles. E foi nessa que Raimi entrou e fez uma aranha mutante que, sabe-se lá porque, infecta a quem morde com uma mutação genética espontânea. “Dã” foi a única coisa que me veio a mente. Mas o cara engole, porque os anos 60 foram há 40 anos atrás e tem que vender bonequinho pra criança. Só que essa mutação criou uma coisa que, sério, mesmo tendo chorado na sessão, me enjoou o estômago. Teia orgânica? Não. O pai de Peter Parker era um gênio da química que trabalhava pro governo e quando morreu num acidente de avião – que já serviu pra eles voltarem, morrerem de novo, serem clones feitos pelo Caveira Vermelha, etc, etc – deixou inacabado um projeto de um adesivo para uso militar e policial que aderiria a qualquer coisa e se desmancharia depois de algumas horas, sendo perfeito para prender temporariamente criminosos ou prisioneiros de guerra. Influenciado pelo fato de que seus super-poderes que começavam a aparecer lembravam os de uma aranha – e tinha sido, de fato, uma aranha que tinha o contaminado – Peter termina o projeto do pai inventando também dois braceletes. O Aranha aperta a palma da sua mão com o dedo médio e anelar – naquele movimento de mão que permeia nosso imaginário de super-heróis – porque ali fica o disparador dos lançadores de teia. Em volta do punho – e às vezes no seu cinto também – ele armazena pequenas capsulas onde o fluído de teia fica guardado com uma tecnologia de compressão que ele também inventou.

É mencionado diversas vezes ao longo dos anos que se Peter não tivesse ganho poderes – isso inclusive é mostrado em episódios de realidade paralela – ele provavelmente teria se tornado um dos maiores cientistas de sua época. Isso não aparece nesse filme de forma alguma (de fato, como vou mencionar, praticamente não aparece em nenhum dos filmes).

Mas vamos a outra coisa, talvez mais importante e em duas partes. Parte um: Mary Jane. Peter Parker tem três importantes namoradas antes de Mary Jane. Gwen Stacy, Betty Brant e Felicia Hardy. Stacy é mostrada da pior forma possível no terceiro filme (falarei disso quando chegar a ele) e Betty é mostrada praticamente como uma figurante neste primeiro filme. Sim, ela é a secretária de J. J. Jameson Jr., interpretada por Elizabeth Banks. Ela tem duas cenas no filme e a sua importância para a carreira jornalística (ela sempre ajudou Peter nisso) e na sua vida pessoal (novamente, “dã”, ela foi namorada do cara) é totalmente ignorada. Felicia Hardy aparece no filme, mas é preciso assistir o filme dez vezes pra notá-la andando na “galerinha” do Flash Thompson e da Mary Jane (aliás, uma nota: Flash Thompson moreno e como um simples bully da escola? Nessa hora eu disse alto dentro da sala de cinema: Sammy, vai ler os quadrinhos!). Ela não apenas é a namorada de verdade do Flash durante os anos de escola, como é uma rica mimada que acaba se tornando a ladra Gata Negra, personagem essencial na vida do Aranha. Mas para essas duas eu daria liberdade poética pro Raimi fazer o que quisesse, inclusive nem colocar direito nos filmes. O que eu não admito é Mary Jane. Sabe por que? Pra isso precisamos falar antes do Duende Verde.

Não só ele não era o primeiro inimigo do Aranha como a relação dos dois é complicada e longa. Ele manipulou e destruiu a vida de Peter de todos os lados e raramente diretamente. Osborn é rico e verdadeiramente malvado. Ele contratava gangues, espiões, envenenava a cidade. Mas tudo bem. Liberdade poética, certo? A batalha na ponte do Brooklyn realmente acontece. Mas a namorada a ser largada é Gwen Stacy e, infelizmente, o Aranha não consegue salvar ela. Ela morre. Sim. Na vida real os heróis nem sempre conseguem salvar um bondinho cheio de crianças e a menina que eles amam. Ela caí, se choca contra o asfalto e morre nos braços do Aranha que nunca consegue dizer nada pra ela. E sim: o Duende Verde morre exatamente como ele morre nos filmes. Só que não num prédio abandonado, mas em cima da ponte. Essa ponte tem todo um significado simbólico pra história do Aranha. Raimi não entendeu isso, eu acho.

E é por isso que MJ é inadmissível: ela é a mulher que entra por acaso na vida de Peter Parker e lhe dá esperanças de novo de amar e de poder ser o Homem-Aranha e ainda assim poder ser feliz.

 

Homem-Aranha 2, de 2004. Mesmo elenco. Mesmo diretor. Com a adição de Alfred Molina como o péssimo Dr. Octopus/Otto Octavius. A primeira coisa a ser tratada é a seguinte: não, senhor Raimi, os poderes do Homem-Aranha não desligam quando ele fica deprimido. Não, mesmo. Essa é a sina dele. Tanto que quando nos quadrinhos aparece Ben Reilly, o clone de Peter, ele foge e ainda assim não consegue deixar de usar seus poderes pra salvar as pessoas. Esse é o Homem-Aranha, isso é quem ele é. Mas isso é o que eles chamam de estratégia hollywoodiana; tem que ter esse aspecto emocional. Mas sabe qual aspecto seria ainda mais emocional? Ele ter enterrado a namorada que ele mais amou e agora não achar sentido pra vida de super-herói.

O que nos leva ao Dr. Octopus e o Peter Parker mais imbecil de todos os tempos. Ele conhece Otto Octavius assim mesmo, pesquisando sobre o trabalho do cara. Mas eles dois são gênios. O Aranha avisa ele que o experimento não dará certo. Eles se conhecem e se respeitam como cientista. No filme, Peter poderia ser um jornalista de uma revista científica. Já Octavius faz tudo do mesmo jeito e a mulher dele realmente morre. Mas não tem chip de controle dos braços mecânicos que deixa ele louco. Ele fica louco como a maior parte das pessoas realmente fica: meu sonho matou minha mulher. Ele não é um lunático mendigo. Ele é a droga do Dr. Octopus. Um gênio do mal, que quer dinheiro e poder. Não quer reconhecimento. De fato, ele não pode se importar menos com isso. Tanto que é por isso que ele se une com outros vilões, como Kingpin (Rei do Crime), para fazer dinheiro, para conquistar a cidade. Ou seja, ele não é louco. Ele é mau. E sobre o próprio Peter, bom, já deixei claro: ele é um gênio, não um graduando mal das pernas com um professor Curt Connors (que aliás já não tem o braço. Que cronologia é essa?) que lhe dá dicas de como ir melhor nas aulas. Parker já era chefe de laboratório nessa época, que aliás é uma das épocas na qual ele mais tem dinheiro.

E isso tudo nos leva a grande história da primeira grande derrota do Dr. Octopus: o Aranha vence ele e ele finalmente vai para a cadeia as custas da morte de um grande amigo e incentivador – o capitão Stacy. Lembra desse nome? Sim, é o pai de Gwen. Agora me explica pra que inventar todas essas estratégias emocionais se o herói original já as tinha? Acabaria outro filme, com ele tendo que largar os estudos pra se dedicar a ser Homem-Aranha, ele largando Betty Brant porque não consegue mais mentir pra ela e não consegue aguentar o fato de que ela pode ser a próxima a morrer. Os filmes do Christopher Nolan do Batman fazem sucesso por causa disso: ele mergulha na tragédia que o personagem já tem como essência de seu ser. E olha que vende bonequinho, hein?

Vamos logo para o terceiro filme?

 

Homem-Aranha 3, de 2007. Mesmo elenco, Raimi se uniu com seu irmão pra escrever o roteiro dessa abominação da adaptação de quadrinhos para o cinema que rivaliza com Capitão América de 1990 ou com a série de TV do Hulk. Raimi cometeu a pior gafe de todas nesse filme: adaptar o Venom. Até naquele desenho animado bem legalzinho que tinha nos final dos anos 90 (pra quem não lembra, dava na FOX na mesma época daquele desenho clássico dos X-Men e a primeira leva de Power Rangers) eles cometeram essa mesma monstruosidade. No desenho era o filho astrounauta de J.J. Jameson – que aparece no Homem-Aranha 2 como namorado/noivo de Mary Jane – quem trazia do espaço a entidade alienígena melhor conhecida como simbionte. Mas a história dos quadrinhos é talvez uma das grandes narrativas impossíveis de adaptar. Acontece durante uma daqueles sagas da Marvel, que envolvem todos os personagens, chamada Guerras Secretas. Uma entidade alienígena quase onipotente convoca (um eufemismo pra sequestra) diversos seres super-poderosos de todos os cantos do universo (e até de outras dimensões) para combaterem num torneio que decidirá o destino da galáxia. Amedrontado, o Aranha enfrenta seu primeiro desafio e usando de sua inteligência (sim, sua inteligência) ele vence, mas seu uniforme fica praticamente todo destruído. Só a máscara se mantém intacta (artifícios dos quadrinhos, né?), mas para a sorte do aracnídeo um dos organizadores do evento oferece pra ele um prêmio pela sua vitória: uma pequena bolinha preta presa numa câmara de estase. Ao tocar na esfera, ela se transforma em diversas faixas de tecido que envolvem o Aranha e criam pra ele um uniforme – que neste momento é apresentado como de moléculas instáveis – indestrutível. Essa saga continua, Peter volta pra Terra e, sério, só anos depois ele começa a perceber que o uniforme esta lhe fazendo mal (de fato, devorando seu cérebro).

Como que vai adaptar isso? Impossível, né? Então sabe o que deveria ter sido feito: outra história. O Aranha tem centenas de inimigos e dezenas de sagas que poderiam facilmente ser adaptadas pro cinema. O Venom não é uma delas. E pra não perder a viagem, ele já estragou a relação do Peter com a Mary Jane (nesse ínterim no qual ele se desvencilha do uniforme negro, eles casam) e colocou uma deformação total: Gwen Stacy como uma loira imbecil (interpretada por uma Dallas Howard muito sem expressão) que namora um Eddie Brock magrelo e ridículo. Sim, Topher Grace, Brock era um covarde mentiroso, mas tu tinha que ter “puxado ferro” por três anos antes de interpretar ele. Venom não fica todo musculoso por causa do simbionte; ele já é!

E pra fechar com chave de ouro, faz um Duende Verde 2, encarnado por Harry Osborn, da forma mais imbecil de todas. Quando o segundo Duende, que na verdade é realmente o Harry, aparece, Peter desconfia de que seja o próprio Osborn que não morreu. Porque o uniforme e armas são iguais! Não tem prancha, nem capacete que abre. E muito menos tem os dois se unindo pela amizade bonita que eles sempre tiveram. Harry fica totalmente louco e Peter é forçado a matar ele (quer dizer, ele acha que matou; anos depois se revela que Norman estava por trás de tudo e salva Harry, levando-o para a Europa).

 

Bom, vou fechar esse artigo que me deu alguns anos de vida destilando todo o ódio das afrontas feitas contra meu herói favorito com algumas perguntas sobre o novo reboot. Pelo que dá pra ver no trailer (o link está no final) ele tem lançadores de teia. Mas e a teia? Se a teia for orgânica e o lançador só projetar elas eu juro que vou precisar de toda a minha força pra não sair no meio do filme. Pelo menos a namorada está certa: Emma Stone vai interpretar Gwen Stacy. Perguntas: vai aparecer o pai dela? (aliás o Capitão Stacy aparece no terceiro filme de Sam Raimi – too little too late). E que história é essa dela de jaleco branco? Ela é uma cientista ou que? Gwen era uma moça doce, estudante. Terceira pergunta: Curt “Lagarto” Connors envolvido na origem do Aranha? Duvidoso. E mais duvidoso ainda é que aparentemente ele já aparece direto sem braço. Ou seja, sem a devida história (que muito provavelmente será narrada em flashbacks). Quarta pergunta: bem no início do trailer vemos os pais de Peter. Vai só mostrar ou escorregar na banana de escolher uma das mentiras pra contar? Ou pior, será que vão tentar enredar a história dos pais dele com a própria história do Aranha?

Tenho grandes esperanças e grandes medos em relação a esse filme. Mas uma coisa já dá pra saber: pelo menos Peter Parker não vai ser um baixinho musculoso e nervoso.

 

http://www.youtube.com/watch?v=qJQS16dGk0w&feature=player_embedded

Comentários

imagem de Giordano

Enviado por Giordano em sex, 07/22/2011 - 00:31

Pedro, acho que algumas mudanças realmente podem ofender a essência do personagem, mas ser purista/xiita demais em relação às adaptações é um pouco de exagero, pois são mídias completamente diferentes, e não só por isso, por que uma liberdade de interpretação sobre a mitologia criada cria um frescor ao redor dela. Eu posso fazer exatamente a mesma coisa que tu fez com o Homem Aranha, apontando diferenças, com os Batman's do Nolan, que não são tão fiéis quanto pensam, e não por isso, são filmes ruins. 

Acho que se Sam Raimi fez tantas mudanças em relação ao personagem, bom... não foi por ignorância ou falta de conhecimento dos quadrinhos, por que sei que ele tem muita, até por que Stan Lee acompanhou de perto o roteiro e produção dos três... Mas sim, por opção, e acho que é legal investigar as razões por trás dessas opções, que não é apenas vender bonequinhos. Então vamos aos poucos, em defesa de Raimi.

O cinema dos anos 2000 tem uma verossimilhança muito mais exigente do que os quadrinhos dos anos 60. Ta, talvez exigente não seja a palavra, mas é uma verossimilhança bastante diferente. O público dos quadrinhos tem facilidade em aceitar um gênio juvenil que desenvolve pequenas capsulas onde o fluído de teia fica guardado com uma tecnologia de compressão, expelido pelos braceletes mecânicos que o mesmo garoto desenvolveu. E isso funciona perfeitamente bem para o público restrito dos quadrinhos. No entanto, para o público amplo do cinema, fica mais acessível aceitar o fantástico do que uma tecnologia inconcebível. Portanto, Sam Rami, que já tinha uma experiência pregressa com o fantástico (evil dead!), prefere abraçar a bizarrice da teia orgânica, que eu pelo menos acho que funciona muito bem no filme.

Sobre MJ e Duende Verde. Bem, quanto a eles tu tem ótimos argumentos, sobre a construção da identidade de Peter Parker. Mas Sam Raimi definitivamente não fez a opção de colocá-los por não ter compreendido corretamente o Aranha, mas por uma questão iconográfica. No início dos anos 2000, adaptar quadrinhos não era uma ideia tão brilhante. Tim Burton e Bryan Singer tinham conseguido, mas Schumacher tropeçou feio. Era preciso, para a Marvel, criar um filme infalível iconograficamente, que o público possa identificar rapidamente no seu imaginário popular. E isso dificilmente aconteceria se a namorada fosse Gwen Stacy e o vilão, algum de menor reconhecimento que o Duende Verde. Pois o público geral (crianças e adolescentes acostumadas com o desenho animado, adultos que nunca tiveram o costume de ler muitos quadrinhos) reconhecem em Mary Jane a namorada de Peter e o Duende Verde como arqui-rival. 

Enfim, é claro que todo fã tem direito de criticar as mudanças feitas em relação às origens, mas gosto de tentar compreender as opções feitas, e muitas vezes, desprender-se da fonte gera frutos sensacionais (vide os livros adaptados por Kubrick, ou os Batman de Tim Burton e Christopher Nolan), e tudo bem, reconheço que Sam Raimi talvez tenha distorcido Peter Parker e transformado sua história numa história teen de superação. Mas o universo dos quadrinhos tende a se reinventar ao longo das décadsa, há super heróis com até seis ou sete versões para suas origens, e reinterpretação dos mais variados autores em cima da mitologia, o que já dá uma liberdade ainda maior para quema dapta. E acho que criticar a cor do cabelo de um personagem ou os musculos de outro, aí já é um pouco de exagero, não? hehe

Enfim, adoro essas discussões! E Pedro, o mais curioso é que eu já discuti algumas vezes com teu irmão, o Affonso, sobre fidelidade de adaptações dos quadrinhos. o/

 

imagem de Pedro

Enviado por Pedro em sex, 07/22/2011 - 11:19

Giordano, muitas vezes quando converso sobre esse assunto as pessoas me chamam de xiita da adaptação de quadrinhos. Eu curto. Curto ser "o chato" - só perguntar pra Jana :P

Mas assim, o meu principal problema com adaptações de quadrinhos (vou postar outro sobre os X-Men ainda essa semana; estou acabando de revisar) e foi o que eu quis deixar claro nesse texto é uma coisa que recentemente e no passado foi feita muito bem. Em certo sentido, até Schumacher meio que fez isso. É se apropriar da essência do personagem - seja mesmo de uma adaptação talvez mercadológica, como o Schumacher fez (afinal, aquele Batman ridículo, superficial e infantil era, muito provavelmente, o Batman da infância dele, interpretado por Adam West) - e criar uma história cinematográfica com ele. Acho um engano optar pelo argumento "mídias diferentes": trabalhei com cinema e com cineastas o suficiente para saber que a arte sequencial (nome pomposo pra histórias em quadrinhos) e o cinema são derivativos. E também já trabalhei com pesquisa de recepção de mídias visuais (TV e cinema) o suficiente pra saber que a maior parte dos diretores, produtores e criadores de conteúdos para esses meios são pressionados a tomar atitudes e decisões que no fundo subestimam o público. Tu vê que o cara envolvido na adaptação do Harry Potter para o cinema, lá em 1998-1999, achava que os livros dariam bons filmes, mas tinha muitas dúvidas se mais do que um livro conseguiria ser adaptado por motivos de pressão quanto ao sucesso financeiro.

Hollywood opera em cima de questões psico-sociais bem definidas (e definitivas) e com X-Men e Superman também acontece sempre a mesma coisa: inventa-se uma outra essência do personagem. Aquele Wolverine bundão dos filmes do Bryan Synger: o drama dele é profundo e deprimente, baseado na vivência do americano (e canadense) médio durante os anos 70 com as consequências do Vietnam. Eu nunca me esqueço de um amigo dizendo: "Sabe aquele tio bebaço que tu tem? Ele é palha, estraga tudo, mas também é legal, te dá umas playboy e faz uns churras". O Wolverine é esse cara. De fato, eu sou xiita só com a essência do personagem. É como se Reed Richards não fosse inteligente, como se o Batman não fosse resourceful. Outros diretores também fizeram isso. Eu sou um leitor ávido de Hellboy e mesmo achando os filmes do Del Toro fantásticos, eles escapam gigantescamente do personagem de Mignola, que é soturno, calado e triste. 

Mas concordo com várias coisas que tu disse. O problema é a bile que sobe quando tu vê que o que o personagem é mesmo, as histórias reais mesmo, são tão boas e tão cinematográficas e não há uma explicação realmente plausível pra porque não foi feito. Eu não apenas concordo como certamente teria feito o Duende Verde num primeiro filme do Aranha. Inclusive chamaria o Willen Dafoe (a despeito de que teria mudado o cabelo dele pra ficar mais parecido com o do Norman mesmo - que aliás é icônico). Acho que a Marvel tá descobrindo, principalmente agora com esse sucesso de público E crítica do First Class que é possível a liberdade poética da adaptação, mas tem que manter aquele núcleo duro (em termos lacanianos) de qual é a tragédia/drama/conflito que aquele personagem ou temática traz. 

Eu e meu irmão tivemos centenas de conversas ao longo dos anos sobre isso e foi preciso um Zack Snyder pra mostrar que é sim possível fazer uma ótima adaptação, praticamente fiel, de um clássico dos quadrinhos e ainda assim cagar tudo. Vamos combinar, não precisava daquele final daquele jeito. Podia perfeitamente ter sido o alienígena. Aliás, meu medo e o dele sempre foi que algum diretor metido a gênio - que nem o Tim Burton - venha a querer adaptar Sandman.

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Enviado por Ghuyer em sex, 07/22/2011 - 02:58

Gostei da maioria das observações do Pedro a respeito das origens do Homem-Aranha, uma vez que o máximo que sei sobre o herói se resume às duas séries animadas (principalmente aquela dos anos 90), e aos filmes de Sam Raimi.

No entanto, tenho que concordar com o contraponto do Giordano a respeito das peculiaridades que envolvem o processo "criativo-adaptativo" de passar uma história dos quadrinhos para o cinema. (obs: no terceiro parágrafo, quando diz "No entanto, para o público amplo dos quadrinhos", não queria dizer "o público amplo do cinema"?), ou qualquer situação que envolva adaptação de uma mídia para a outra.

No mais, os filmes do Homem-Aranha, principalmente o primeiro, creio que tiveram uma participação importante na popularização das adaptações de quadrinhos, que basicamente já viraram um gênero no cinema atual. Não só popularização. Quero dizer mais no sentido que mostraram ser possível o negócio dar certo. Para o bem (Batmans do Nolan) ou para o mal (Quartetos Fantásticos), o Homem-Aranha cinematográfico vai ficar para a História.

Agora, apesar da bem apontada questão iconográfica, acho que a trilogia de Raimi tem um sério problema de infra-estrutura, por assim dizer. Pensando em retrocesso, parece que não houve planejamento para as continuações, parece que não se deram ao trabalho de criar um arco narrativo maior. Encontro isso também, porém em menor parte, nas adaptações de X-Men. (Na verdade, a única exceção que vejo são os projetos de Christopher Nolan). Talvez devido à ganância dos produtores, de querer mandar um filme atrás do outro sem pensar muito, talvez por ignorância mesmo, eu não sei. Mas é algo que noto bastante especialmente nessas duas "trilogias". Tipo, na minha cabeça sempre pareceu idiota a ideia de serem trilogias - e penso isso desde antes de entender o organismo financeiro do cinema. Sei que existem dezenas de histórias possíveis de serem montadas com as incontáveis versões dos heróis existentes nos quadrinhos, e sei que Hollywood adora franquias, então não me desce essa ideia de fazerem "trilogias", para depois começarem esses reboots dispensáveis (exceto no caso de Hulk, em que uma refilmagem era realmente necessária). Espero que os filmes de Harry Potter sirvam de lição para qualquer pretensão de adaptar séries grandes (ou com grandes potenciais). Mostrar que é possível (e recomendável) uma boa base de planejamento, para então ir lançando os filmes (e não só três, por favor).

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Enviado por Pedro em sex, 07/22/2011 - 11:30

Começo dizendo uma coisa: Hulk ainda merece outro reboot. O Norton fez um ótimo trabalho, mas ainda não pegaram a essência do personagem e, mais do que isso, adaptaram ele pensando naquela série dos anos 70-80. 

E penso que é esse o problema. Como disse na resposta pro Giordano, acho que principalmente os produtores, subestimam o público. Um bom exemplo disso é Matrix (claro que não as continuações), o original. Os "watchatchauski" disseram em várias entrevistas que eles tiveram que começar a mentir sobre o filme pra conseguir que ele fosse feito. Eles chegavam e diziam "é um filme sobre a apropriação da simulação em Jean Baudrillard e a desmaterialização da percepção e do ser em Hilary Putnam, mas tudo misturado com Kung Fu e essa cultura de videogame". Os produtores riam deles. Daí eles começaram a explicar que seria um filme "sobre Kung Fu e um levante das máquinas": o filme foi feito sem quase nenhuma modificação e no 2 (que eu acho terrível, mas menos que o 3) eles ainda conseguiram colocar a explicação de subjetividade e determinismo do próprio Putnam na boca do "Arquiteto". Também como eu disse pro Giordano eu aceito esse argumento da adaptação transmídia, mas com 300 pés atrás. Acho que é muito mais válido quando aplicado a livros do que quadrinhos. A arte sequencial é a mãe do cinema e não dá pra contar nos dedos de Porto Alegre os cineastas e produtores de obras audiovisuais que usam storyboard para a criação do conceito das cenas. O Snyder, por exemplo, disse que usou a graphic novel - tanto de 300 quanto de Watchmen - literalmente como storyboard. Mas claro, não são diretores e roteiristas que decidem o que vai parecer na tela do cinema ou da TV.

E como resposta aos dois quero dizer uma coisa que esqueci de colocar na resposta pro Giordano: eu coloquei o vender bonequinhos só como artifício do exagero pra incomodar mesmo. 

Obrigado pelos comentários. Adoro esse tipo de discussão, ainda mais quando é com pessoas que conhecem quadrinhos e cinema mesmo.

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Enviado por Giordano em ter, 08/02/2011 - 02:00

Réplica de um amigo meu sobre teus comentários, só pra esquentar o debate...

 

  • A aranha alterada genéticamente está na origem do Homem-Aranha do universo Ultimate
  • Foi de lá o que Raimi tirou essa idéia
  • E a teia orgânica é do Miguel O'Hara, o Homem-Aranha do ano de 2099
  • De uma linha da Marvel que se passava toda em 2099 e foi o início do movimento dos anos 2000 em que as HQs passaram se opor à Image e a tratar de política
  •  
  • Outra: a Felicia Hardy não era da escola deles
  • A namorada do Flash na época era a Liz Allen, que seria a futura espoa do Harry
  • A Gwen não cai no asfalto. O Duende joga ela na água, mas o Peter pega com a teia antes do choque, mas ela já estava morta
  • E o Duende não morre na ponte, ele morre em um beco
E sim, na época em que aparece o Bem Reilly, o Peter está estressado, e os poderes dele falham
  • Ele cai do teto da cozinha
  •  
  • A loucura do Octopus saiu da primeira vez que ele fo ia julgamento
  • Um médico psiquiatra o examinou e deu um laudo de que o choque de ter o apartelho preso à coluna tinha ainfluenciado no funcionamento do sistema nervoso
  • E daí ele passou e ter comportamento violento e sociopata
  • E o Matt Murdock foi o advogado dele no julgamento
  • Em que foi inocentado
  • Depois ele volta a cometer crimes, e descobrem que tinha chantageado o médico para fazer um laudo falso
  • Mas isso em histórias posteriores
  • Daí, na segunda vez que foi preso, chamaram oRichards, Pym e o Stark para realizarem a cirugia para remover o coleta da coluna
  • E cirurgia deu certo, e o Octopus foi para cadeia
  • Mas daí ele descobriu que tinha comando telepático sobre o colete
  • Podia controlar mesmo de longe
  • Então, o octopus não teve problemas mentais por causa do colete com os tentáculos, mas existe uma fonte nas HQs da qual foi tirada essa idéia.

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