127 Horas

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Enviado por Giordano em qua, 02/23/2011 - 01:44

 

O Novo Exercício Sinestésico de Danny Boyle

Sinestesia: figura de linguagem que consiste em misturar sentidos físicos em texto, como por exemplo, dizer que a luz de determinado ambiente é “macia”, ou afirmar que tal melodia é muito “verde”. Criar um efeito sinestésico eficiente no cinema trata-se de uma complicada façanha, uma vez que acontece quando o filme estimula algum sentido do espectador que não a visão e a audição.  

Danny Boyle, que criou uma desagradável experiência quase olfativa ao explorar o subdesenvolvimento indiano para contar sua otimista história de amor no sensacional Quem quer ser um Milionário, trabalha com os outros quatro sentidos em “127 Horas” para imergir o espectador na jornada de Aron Ralston, escalador que se tornou notório após o acidente que lhe aconteceu em maio de 2003.

Boyle desenvolve uma maneira própria de envolver o espectador em “127”. Ele utiliza tal recurso, de sinestesia, para construir uma impressionante imersão do espectador. Através desta imersão, o cineasta coloca o espectador preso na agonia. A agonia física (a dor) e a agonia mental (o tempo, como mostra o lindíssimo pôster da ampulheta). Todos os elementos do filme – roteiro, fotografia, montagem e edição, decupagem, design de produção, trilha musical, atuação (numa impressionante e visceral performance de James Franco) – convergem nesse sentido, de sinestesia, imersão e agonia.

Aqui, montagem e roteiro são praticamente indissociáveis. Ambos só são capazes de construir o personagem Aron quando unidos. O filme se vale de uma edição hipnótica em seu primeiro ato, quando vemos telas divididas entre multidões realizando diversas atividades, para só então conhecermos um único personagem sozinho, que é o avatar do espectador na situação-limite ao qual somos impostos. A câmera nos mostra alguns detalhes, o canivete suíço deixado no armário, a torneira transbordando um cantil, um gatorade retirado da geladeira, pingos de água desperdiçados.  O filme vai do coletivo ao individual em um segundo, quando Aron está no trânsito, e percebe um grupo de ciclistas, e em um segundo, troca olhares com apenas um destes ciclistas. Aron encontra duas garotas no caminho, que não tem outra função senão auxiliar na construção do personagem como um sujeito de extrema perspicácia, conhecimento do ambiente no qual está inserido (os canyons de Utah), muito individualista, sem grandes amarras e de espírito livre. 

Há apenas um outro personagem de real relevância para a história que o filme nos conta: o canyon. Aron conta rapidamente a história do cowboy Blue John (que dá nome ao lugar), mas é o suficiente para que possamos reconhecer o tal cowboy quando este se materializa como delírio do escalador ou como manifestação do próprio canyon. Boyle contempla cada sinuosidade do espaço para compor os enquadramentos, seja nos momentos nervosos de câmera na mão ou nas incríveis tomadas gerais que faz do deserto, ou quando se preocupa a mostrar folhagem rasteira, pinturas rupestres ou um eventual lagarto que se faz presente.  Para tal, utiliza-se também do som, no silêncio quebrado apenas por abafados ruídos de passos ou um longínquo fone de ouvido.

Apresentados os nossos protagonistas: Aron e o Canyon. Pensamos estar preparados para que estes se apresentem mais intimamente. O espectador que vai ao filme sabendo o mínimo sobre este, já sabe que Aron vai, eventualmente, sofrer um acidente. No entanto, Danny Boyle não cai não obviedade de criar um suspense para o momento que isso acontece, e o faz com naturalidade, mas usando recursos sonoros e cortes rápidos para que sintamos a desorientação e impacto junto a Aron. E é somente após o impacto que Boyle nos mostra o título, afirmando que é ali que começa a história.

A partir daí, tudo está armado para o embate Homem X Rocha que veremos em seguida. Aron apresenta-se cordialmente, apesar do começo trôpego, acariciando a rocha. Não tarda a Aron fazer a sua tentativa inicial, de erguê-la ou empurrá-la, e frustra-se ao perceber que isso não funcionará, e é nesse momento que Aaron vê um último vislumbre de civilização em um bom tempo: um avião que passa há muitos quilômetros de onde ele se encontra. 

A partir daí, acompanhamos as necessidades e as sentimos junto através da sinestesia do filme: planos do ponto de vista do líquido que é bebido, a mão de James Franco tateando a pedra e as extremidades, a falta de eficiência do canivete fajuto que sua mãe lhe deu, o torniquete que retarda a gangrena, o gosto do sangue, as batidas do coração, as lentes de contato sujas ou Uma veloz câmera subjetiva nos leva até o porta-malas do carro de Aron, onde se encontra um gatorade, e que segue uma montagem publicitária de comerciais de refrigerantes na qual Aron pensa e nos faz sentir a sua sede

Durante o processo, conhecemos as angústias de Aron em dois sentidos: as angústias físicas e os delírios dele. Na angústia física, acompanhamos momentos de claro racionalismo (como quando decide usar a pedra como prateleira, ou quando cria um sistema de alavanca) e momentos em que Aron simplesmente arranja ocupações para vencer o tempo, conversando consigo mesmo na câmera, tentando sem sucesso obter algum tipo de prazer ou ocupando-se de pequenos rituais como observar o pássaro que passa pela manhã e o horário do dia em que bate sol em parte de seu corpo. Já os delírios exibem certa culpa (a lembrança do telefonema da mãe ou da conversa com o colega de trabalho), ou o escapismo, ao se imaginar saindo dali ou em outros lugares, um outro delírio (e talvez o grande momento do filme) é aquele que envolve um sofá e a lindíssima canção “IF I Rise”, de Dido e A. R. Rahman, coroando a incrível e agonizante jornada sinestésica dos espectadores através de Aron.

Pelo título, já sabemos que Aron permaneceu 127 horas preso. Se ele permaneceu esse tempo preso, é porque eventualmente saiu dali. Isso não é um spoiler, é pura lógica. Quase todo mundo já sabe qual é o clímax deste filme, uma das cenas mais comentadas do ano, e trata-se de um dos acidentes mais comentados da década passada. Mas caso haja algum alienígena cinéfilo lendo, ou alguém que se esforça muito para ser um, não o verbalizarei. Mas a tal cena demonstra todo o virtuosismo de Danny Boyle sinestesicamente, regendo a imagem e o som estimulando muito mais do que os cones e bastonetes dos espectadores. Muito mais. A dor é palpável na construção visceral que é feita do momento, e ao utilizar sons agudíssimos nos picos de dor e a tensa trilha, é difícil manter-se indiferente ao que surge na tela. 

Mesmo após o clímax do filme, Boyle consegue manter a agonia (com apenas um plano de um cabo de rapel sendo puxado), e a sinestesia (em momentos de dor e alívio). E nos recompensa menos com sentimentalismo (que, é claro, é útil em certos momentos), mas mais com algumas imagens simples, de um pássaro se juntando a outros, o detalhe do primeiro verde após tanta aridez do deserto, os pés limpos de um corpo sujo e cansado, um boné deixado para trás, ou oito homens pintados em uma parede, que deviam estar ali há milhares e milhares de ano, assim como a rocha, que ficou todo esse tempo aguardando para encontrar Aron, como o próprio afirma em certo instante.

 

 

Poltronas 

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