Amantes

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Enviado por Felipe em ter, 02/22/2011 - 23:58

Quando ‘Amantes’ tem início, encontramos a silhueta de  Leonard (Joaquin Phoenix) sozinho em quadro numa fotografia azulada enquanto este caminha sobre o píer. A melancolia daquele momento é quebrada quando ele pula na água esperando dar um jeito em seu sofrimento. Já de cara sabemos um dos fatores que ocasionou sua decisão, o fim de um relacionamento. Mas, ao contrário do que a primeira cena do filme indica, ‘Amantes’ trata dos problemas (e das decisões) de seu personagem principal com leveza e até certo bom humor.

Na mesma noite após sua fracassada tentativa de suicídio, Leonard conhece Sandra (Vinessa Shaw), filha dos futuros compradores da tinturaria de sua família. Sandra parece a mulher perfeita. Bonita e sem esconder seu interesse pelo personagem central, sua chegada é o primeiro indício para que ele veja que é possível seguir em frente com alguém novo. Algo perfeitamente ilustrado no momento em que ele deita o porta retrato com a foto de sua ex-noiva, logo após conversar com Sandra.

Mas é quando conhece sua nova vizinha, Michelle (Gwyneth Paltrow), enquanto esta discute com alguém pelos corredores do prédio é que Leonard baixa a guarda e é finalmente arrebatado. A personagem de Paltrow representa uma falsa classe. Uma falsa profundidade que por muitas vezes pode encantar as pessoas num piscar de olhos. Desde seu primeiro momento em cena, ela está com problemas. Algo que, mesmo que não conscientemente, chama a atenção dele. Mostrando-se sempre interessada com o que ele tem a dizer e sempre o encorajando, a nova vizinha traz a identificação imediata para a vida do problemático protagonista.

A direção de James Gray é impecável. Seja nos momentos em que vemos Leonard e Michelle conversando no terraço, separados por colunas de concreto, ou então quando os contemplamos de longe em momentos constrangedores como na cena que se passa do lado de fora de uma boate. O filme, baseado no conto “Noites Brancas” de Dostoiévski, conta com os característicos planos de Gray onde, utilizando o próprio cenário, criam-se “molduras” em volta dos personagens tornando-os presos às situações ou os separa de vez (conforme o filme avança podemos notar que Leonard fica cada vez mais separado de sua família, alheio a tudo, sempre afastado por uma porta ou parede). O diretor sabe muito bem usar a câmera (e todos os elementos fílmicos) em serviço de sua história e de seus personagens, algo que já foi comprovado em seus dramas policiais “Fuga para Odessa”, “Caminho Sem Volta” e “Os Donos da Noite” (Estes dois últimos contando com a presença de Joaquin Phoenix). E é interessante que mais uma vez, Gray traga como um dos pontos centrais de sua obra a família e a pressão que esta exerce sobre os indivíduos. O personagem de principal sofre pressão de todas as partes. Seja da família da ex que a forçou terminar o relacionamento, seja da família de Sandra, que quer o melhor para sua filha, ou de sua própria família que espera que ele encontre alguém que lhe traga alguma calma, mas que também ajude no rumo dos negócios.

Joaquin Phoenix encarna Leonard Kraditor, um sujeito altamente instável, inseguro e que vive preso ao passado, com extrema confiança. Seja em suas roupas em tons marrons ou na bagunça de seu quarto. Phoenix investe numa composição muito perigosa, mas que funciona perfeitamente graças ao seu talento de saber empregar muito bem o bom humor do personagem em seus momentos de “calma”, como quando Sandra lhe conta que trabalha na Pfeizer e ele resmunga ironicamente “É, conheço bem...”, ou quando finalmente resolve externar seus sentimentos sem nenhuma contenção como se tirasse um grande peso dos ombros.

Na dupla de atrizes que dividem (ou quase isso) o coração do protagonista, temos a ousadia problemática de Michelle e o interesse e a compreensão de Sandra. Enquanto uma se aproxima da personalidade dele a outra ilustra a calmaria, uma chance de se estar com alguém normal novamente, alguém que goste dele. Mas é somente com sua vizinha que Leonard se vê feliz de verdade, a ponto de largar tudo (inclusive jogar fora, de vez, a foto da antiga noiva).

Com um final surpreendentemente triste, contando com um ato ímpar de renúncia que transforma um momento bonito numa cena de autodestruição. ‘Amantes’ é um daqueles filmes que poderiam ser simples até dizer chega, mas que nas mãos de um cineasta tão talentoso como James Gray, ganha tantas camadas e tantos detalhes que fica difícil de acreditar que seja tão pouco conhecido e reconhecido.

Poltronas 

5

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