Branca de Neve (2012)

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Enviado por Ghuyer em ter, 07/09/2013 - 23:51

Na carona do que o diretor francês Michel Hazanavicius fez em O Artista (The Artist, EUA/França, 2011), o espanhol Pablo Berger traz mais uma homenagem à chamada Era Silenciosa do Cinema com seu encantador Branca de Neve (Blancanieves, Espanha, 2012).

Adaptando o famoso conto de fadas através de diversas liberdades criativas, Berger cria uma narrativa inusitada situada na Espanha dos anos 1920 em que a filha de um famoso toureiro, depois de passar a infância tendo de lidar com a madrasta cruel, conta com a ajuda de uma trupe de sete anões circenses para seguir a carreira do pai.

Em verdade, o roteiro apenas se apropria do essencial da história da Branca de Neve, com pouquíssimos momentos do filme remetendo diretamente ao conto “original” (aspas porque nada é original quando se trata de cultura oral transcrita em papel). Os créditos iniciais até contam com uma confissão, “inspirado no conto dos Irmãos Grimm”, mas mais de forma a exteriorizar a paixão do cineasta pelas obras dos contistas alemães do que por determinar que o filme seja uma adaptação daquela fábula específica (embora o seja). Do mesmo modo, alguns elementos pontuais do roteiro parecem ter sido incluídos apenas para evocar passagens do conto, invés de propriamente servir à narrativa (e aí destaco a cena da maçã, que surge um tanto forçada).

No geral, no entanto, Berger acerta a mão na condução de Blancanieves, fazendo a narrativa fluir incrivelmente bem. A montagem de Fernando Franco imprime um ritmo dinâmico que torna secundária a necessidade de intertítulos para mostrar as falas dos personagens. Intertítulos, aliás, que aparecem apenas pontualmente, em frequência variável ao longo do filme, jamais no fazendo sentir sua falta quando ausentes. Através da montagem muito bem pensada, a história nunca perde seu brilho (e sua sombra) de filme mudo. Algumas passagens são propositalmente bruscas, com trocas de enquadramento, ou cheias de sobreposições, geralmente ilustrando flashbacks – essas últimas às vezes mais frequentes do que deveriam, na verdade. Simultaneamente a isso, o trabalho de Franco também é competente também quando aposta em algumas elipses elegantes para ilustrar a passagem do tempo (a que mostra a passagem da infância para a adolescência da protagonista é especialmente bela), ou em momentos que exigem tensão, quando parte para uma sequência de planos rápidos que geram um clima de apreensão intensa (as cenas de tourada e a tentativa de assassinato de Branca de Neve são os exemplos mais evidentes, todos muito bem montados).

Fazendo par com a montagem, vem a linda trilha sonora de Alfonso Vilallonga, que surge como a verdadeira voz do filme, colocando uma atmosfera de doçura à história sempre que possível, mas não esquecendo a essência profundamente triste e trágica da mesma. Vilallonga cria uma composição que faz eco às trilhas da época dos filmes mudo (bastante expressivas e onipresentes), mas que jamais deixa de ter uma alma própria, notável através da mescla de música clássica com flamenco. Porém, assim como o montador exagera nas sobreposições, o compositor comete o mesmo erro em determinados momentos, principalmente ao não se conter na hora de incluir na trilha assinaturas sonoras para situações específicas – no caso, sempre que determinado personagem aparece ou faz determinada ação, Vilallonga repete o mesmo acorde, e depois de um tempo essa prática fica mais repetitiva do que funcional.

A música dá voz ao roteiro, a fotografia dá cor e espírito. Arrisco a dizer que a fotografia que Kiko de la Rica fez para Blancanieves é uma das mais belas que vi ultimamente no cinema, e com certeza uma das mais lindas do ano. O preto e branco surge mais do que apropriado ao filme, e não só por se tratar de um filme que pretende ser mudo. Toda a nostalgia empregada pela época na qual a história se passa é transmitida através desse mar de tonalidades de cinza, que Rica mexe e pinta como um verdadeiro mestre, criando vários planos exemplares (aquele que foca a pequena Carmen descendo a seu novo quarto, por exemplo, ou o devastador plano final do filme).

Muito bem retratado por essa bela fotografia, e em meio a uma ótima reconstituição de época do diretor de arte Alain Bainée e do figurinista Paco Delgado, está o elenco homogeneamente ótimo, com o destaque inevitável de Maribel Verdú, que se diverte horrores fazendo os ares de madrasta má – e como adoramos odiar sua personagem! E, expressivo o suficiente apenas pela composição gestual levemente exagerada (afinal, é um filme mudo), o time de atores do longa gera o drama necessário às cenas sem a necessidade de intertítulos expositivos. Aliás, é interessante notar como o tom caricatural das atuações diminui um pouco após a protagonista atingir a maturidade, o que representa apenas uma das espertas decisões que o diretor Pablo Berger toma ao longo do filme.

Com um roteiro simples e até pontualmente falho (o desenvolvimento quase nulo dos sete anões é um dos problemas), mas cheio de pequenos momentos da mais pura beleza poética, Berger transforma sua singela versão hispânica muda e preta-e-branca da história da Branca de Neve em uma verdadeira joia do cinema, repleta de muito mais criatividade e presença autoral que a maioria dos projetos ditos “revolucionários” que vemos por aí (Zack Snyder*, estamos de olho), e ainda, em termos de qualidade, posicionada milhas à frente dessa onda atual de produções metidas a moderninhas que se propõem fazer “releituras” de contos de fadas para um público que tem preguiça de ler legendas.

*Obs: eu adoro o Zack Snyder, mesmo. Gosto de todos os seus filmes (sim, até de Sucker Punch e daquela animação das corujas), e estou muito ansioso para ver o que ele fez em Homem de Aço. Mas ele não é visionário. Nunca foi. Provavelmente nunca será.

Poltronas 

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