Bruna Surfistinha

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Enviado por Giordano em qui, 03/03/2011 - 22:49

A prostituta e blogueira Bruna Surfistinha (pseudônimo de Raquel Pacheco) é um ícone da cultura popular recente do nosso país, e isso muito nos diz sobre um certo tipo de celebridade que insistimos em construir aqui em terra tupiniquim. Mas até aí, tudo bem, nada é novidade. Ao ser anunciado um filme baseado no livro da moça, é difícil não pensar que em estamos sendo contemplados com uma empreitada de retorno financeiro garantido e alta resistência de um público mais conservador.  No entanto, o mínimo que se espera de qualquer filme é certa eficiência naquilo que pretende (ou deveria pretender). Mas a única envolvida no projeto que parece preocupada em mostrar algo interessante é Déborah Secco. E embora essa fosse a chance perfeita para fazer um trocadilho de duplo sentido, estou elogiando não só os dotes físicos da moça, mas principalmente o tratamento que dá ao papel de Raquel Pacheco, e que acaba, com sua presença e atuação, segurando as pontas em um filme extremamente falho.

 
Deborah Secco consolidou-se nas telenovelas como uma atriz muito eficiente em determinado tipo de papel, a garota impetuosa e prepotente disposta a subir na vida de maneiras mais fáceis, tipo que encarnou em Celebridade, Paraíso Tropical e na atual Insensato Coração. Quando a atriz tentou conduzir outros tipos, acabou falhando grosseiramente, como nas fraquíssimas heroínas de A Padroeira e América. Faço esse resgate para afirmar que sim, a Bruna Surfistinha do título pertence ao primeiro tipo, mas Secco, longe da artificialidade esperada nas novelas, busca uma maior profundidade à personagem que encara, explorando com sutilezas os dramas da vida de Bruna, em especial, em excelentes dois momentos: o primeiro encontro com um cliente, em que Raquel se torna Bruna não só no nome, mas em uma mudança de expressão, que vai da dor, passando por resistência à completa indiferença... E em outra cena, um raro momento em que a personagem encontra-se vestida, no qual Raquel telefona para sua mãe no meio da noite, sem chegar a dizer nada no telefone.
 
No entanto, embora Secco mostre muita força e naturalidade em  seu papel, ela, assim como outros atores talentosos como Drica Moraes, Fabiula Nascimento e Cássio Gabus Mendes, são extremamente prejudicados pelo péssimo roteiro do filme. O filme mostra várias mudanças bruscas de Raquel, primeiro quando larga a família, aí quando passa de garota ingênua à prostituta mais requisitada, quando larga o bordel, quando se torna uma celebridade deslumbrada, até seu momento de maior degradação, mas mostra tudo isso sem nos evidenciar os catalisadores de uma transformação à outra, então nada nos parece justificado. Pouquíssimos personagens ali parecem ter alguma importância dramática, e as situações menos ainda, já que tudo é apenas mais uma desculpa para a próxima seqüência de clientes que veremos, que vão do sensual ao sexo escatológico, que realmente mostra-se eficiente em banalizar o sexo para o espectador a ponto de que este não se interesse mais, depois da quinhentésima montagem que vemos.
 
Visualmente, o filme até incomoda pela fotografia estourada que lembra aquela vista no pavoroso Veronika Decide Morrer. Quanto à trilha musical, bacana conseguirem os direitos de Fake Plastic Trees e tal, mas as canções jamais são aproveitadas como poderiam ter sido. Tudo no filme, e quando digo tudo não é exagero, converge para a persona construída ao redor de Bruna Surfistinha e de Deborah Secco. A verdade é que não há outra razão que leve o grande público ao cinema, além da união desses dois ícones, Bruna e Déborah. E surpreendentemente, não há outro fator que salve o filme de ser uma bobagem completa, senão Deborah. 
 

Poltronas 

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