Contra o Tempo

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em sab, 10/01/2011 - 04:15

Existe uma brincadeira na internet de colocar “títulos literais” nos filmes. O de Matrix é “I ONCE FLIPPED THROUGH A PHILOSOPHY BOOK” (Um dia eu folheei um livro de filosofia).  A piada é ótima pois brinca com a impressão de profundidade que o filme passa, quando na verdade, é uma revisão superficial de conceitos permanentes nessa área de conhecimento. E não me entendam mal, isso não é um ataque ao filme, sou fã assumido do primeiro Matrix, e acho que a graça está justamente aí. A partir de 1999, essa profundidade aparente se tornou um atrativo no cinema, aparecendo no Existenz, de Cronemberg, no (felizmente) esquecido 13° Andar, no cult Donnie Darko, em Equilibrium (filme de que não me lembro bem), e recentemente, no grande sucesso de Christopher Nolan, Inception – A Origem, um espetáculo de roteiro que tem como maior trunfo se assumir como “filme-de-assalto” e estabelecendo seus personagens como funções, e não como personagens desenvolvidos em si. No entanto, Inception também acaba celebrado por uma grande parcela do público através dessa aparência de profundidade, e é aí que está a grande sacada de Nolan e dos Irmãos Wachowski, na aparência de profundidade, e não na profundidade em si. Matrix não é um filme-de-artes-marciais, que no fundo, é filosófico. É o contrário. É um filme “filosófico”, que no fundo, é só um filme-de-artes-marciais.

Seguindo essa linha, temos Source Code – Contra o Tempo, do David Bowie Jr. (ta, não é esse o nome dele), Duncan Jones, que não deve mais agüentar ser chamado de filho-do-David-Bowie. Agora ele poderia tranquilamente ser conhecido como “o-diretor-de-Lunar”, pois seu filme de estréia é brilhante por vários motivos, sendo o principal, a atmosfera absurdamente envolvente que é construída. Não quero revelar muito sobre a trama, basicamente, o personagem de Jake Gylenhaal é um soldado que está dentro de uma espécie de cápsula que faz com que viva constantemente os oito minutos que antecedem a explosão de um trem para encontrar um terrorista com o objetivo de impedi-lo de cometer ataques posteriores a esse, que já aconteceu, e a princípio, não pode ser mudado.

O conceito é fascinante, bem mais que o filme. Creio que, se assim como Matrix e Inception, o roteiro jogasse mais com as regras de um gênero (aqui, no caso, o Who done it? e a clássica idéia de corrida-contra-o-tempo combinados), a história se tornaria bem mais interessante (como estava sendo até certo ponto). Mais tarde, o filme me perde entre um sentimentalismo que não faz o menor sentido, e conceitos cientifico-filosóficos imprecisos.

O sentimentalismo é trazido primeiramente pela relação do personagem principal com a memória do pai, acompanhado pelos melosos violinos da intrusiva trilha musical. Há um pseudo-romance impulsivo entre o protagonista e a personagem de Michelle Monaghan, que acaba motivando as ações do cara, mas que me parece bastante inverossímel, convergindo para o embaraçoso beijo em slow motion enquanto uma explosão acontece em segundo plano. Já quanto aos conceitos, como ficção científica, me parece haver sérios problemas de lógica interna (principalmente no final, mas eu teria que rever para afirmar categoricamente) e como filosofia, o filme acaba se entregando a uma discussão moral que acaba se tornando tão artificial quanto o romance que move a trama.

O grande problema do filme é, talvez, na indecisão do tom que o filme carrega. Há diálogos que simplesmente saltam em meio ao roteiro que, no geral, é contido, mas de repente temos um ataque engraçadinho “Da próxima vez, te mando uma pizza” ou momentos Legalmente Loira (como uma amiga minha lembrou) de “That’s the new me!”, mudanças bruscas nos personagens que acabam se tornando constrangedoras. Há esse problema também na estética das atuações do filme: Temos os contidos e bem dosados Jake Gylenhaal e Vera Farmiga (essa última, excelente como a agente que se comunica diretamente com o personagem de Jake), mas ao mesmo tempo temos Jeffrey Wright construindo um tipo muito caricato, com uma voz de cientista louco e sua muleta.

Ah, os gêneros e suas regras fascinantes... Já deixei claro que sou um grande defensor dessa ferramenta que tanto ajuda o roteirista a contar aquilo que ele quer. Eu penso que Duncan Jones teria se saído melhor se tivesse aplicado seu ótimo conceito e seu ritmo a uma estrutura mais Agatha Christie, que não necessitaria de questões éticas, romances forçados e lógica científica. E talvez, se seguisse uma estrutura, mesmo que o filme tivesse esses problemas, eles não saltariam da tela para a mente chata de um Giordano na platéia, pois este estaria mais envolvido com as regras de um gênero, como aquele filme de lutas de pessoas de sobretudo ou aquele filme de quadrilha do pião, que são fascinantes e envolventes, exatamente por enquadrar esses conceitos no esqueleto pré-concebido do gênero. No fim, é um filme bem realizado tecnicamente e com uma montagem que confere um ritmo muito bacana de acelerar e frear. Mas não consigo pensar em uma palavra melhor para definí-lo do que "impreciso". 

Poltronas 

2

Comentários

imagem de Vinicius

Enviado por Vinicius (não verificado) em ter, 06/12/2012 - 21:21

Aee!
Pois olha... Não achei o filme impreciso não. 
Para as questões “morais” recomendo assistir, se já não assistiu, “Johnny Got His Gun” (Johnny Vai À Guerra - 1971).
Para as questões científicas recomendo ler sobre multiverso, universos paralelos, teoria das cordas, e muitas outras TEORIAS (siiiiim, apenas teorias) sobre o universo, espaço e tempo...
Para mim, o filme é bem estruturado, as coisas acontecem na hora certa e as idas e vindas aos oito minutos não são cansativas.
Claro, é uma exploração da “realidade”, mas ainda acho tão original quanto outros títulos do gênero bastante conceituados.
E de acordo com a tua qualificação (e com a minha opinião), pode ser um filme de ficção que no fundo é ação, ou um filme de ação que no fundo é ficção.
< SPOILER!>Tem umas sacadas muitos boas como as visões/memórias que ele tinha quando ia e voltava dos oito minutos, lembra? A mulher... um reflexo... ;-)
Acho que o filme merecia uns 3,5 na escala de vocês.
Abrass!

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.