A Dama de Ferro

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Enviado por Rafael em sex, 02/17/2012 - 19:28

Não são raras as vezes em que a cinebiografia de Margaret Thatcher, A Dama de Ferro, relembra o recente J. Edgar, de Clint Eastwood. Além do destaque para a maquiagem (no primeiro de forma positiva, no segundo negativa) e uma atuação marcante por parte de seu protagonista, ambos compartilham do objetivo comum de mostrar uma faceta desconhecida de uma pessoa controversa e reconhecida internacionalmente, mostrando como se tornou famosa em seu meio, e o que a levou a ganhar a alcunha, explorando desde suas relações familiares até sua personificação de pessoa pública. Consequentemente o mesmo erro acaba sendo compartilhado pelos dois longas: o de tentar idolatrar seu biografado o humanizando para então glorificar suas falhas e erros.

Em A Dama de Ferrosomos apresentados a uma envelhecida e reclusa Margaret Thatcher (Meryl Streep), que sofre de alucinações com seu falecido marido Denis (Jim Broadbent), fazendo com que relembre as fases mais importantes de seu passado, indo desde a sua iniciação na política até sua ascensão e queda como primeira-ministra britânica. Thatcher relembra sua trajetória, ao mesmo tempo em que tenta se adequar e compreender o seu envelhecimento, o fim de sua carreira política e, principalmente, a morte de seu marido.

Apelando para o lado emocional, Phyllida Lloyd, que dirigiu anteriormente o insuportável Mamma Mia, busca demasiadamente humanizar Thatcher, usando a todo o momento diversos artifícios para conseguir atingir o lado humano na figura da primeira-ministra, em um fracassado ato de compensar a sua covardia de expor e explorar a Thatcher política. Inicia-se então uma série de tentativas através das subtramas para torná-la uma figura realista, e que acabam sempre soando forçadas na história por serem mal concebidas e desenvolvidas, sendo que poucas realmente adicionam algo substancial à trama. O fato dos excessivos arcos dramáticos nunca serem devidamente trabalhados acaba por impedir a expansão e desenvolvimento da personagem justamente na parte que almeja: o lado pessoal e humano.  Estas acabam sendo as principais limitações que acometem o longa, impedindo o crescimento da história, tornando-a fraca e repetitiva.

Por falhar em desenvolver a personagem como pretendia de início, tudo que aparece em tela se torna uma desculpa para torná-la mais importante do que realmente é. Suas relações com os demais personagens e sua redenção ao final acabam servindo como justificativa tanto para torná-la mais humana, quanto para venerá-la. Suas ações acabam se tornando mais bonitas e mais nobres do que realmente são, transformando-a em uma mártir da política, mesmo que o tema de uma mulher triunfando no universo machista da política nunca chegue a ser exposto em tela de uma forma concreta.

A fraqueza da trama e da direção acaba se defrontando com mais uma grande atuação de Meryl Streep, o que torna possível surgir uma comoção e uma proximidade com o público, sendo tudo feito através de pequenos gestos e olhares que transmitem todos os sofrimentos pelos quais a personagem passou, seja a morte do marido ou as suas duras batalhas no parlamento. Streep a constrói diferenciando-a nas diversas fases pelas quais passa, mas mantendo a essência e assim unificando-a, contudo sendo possível ver a diferença entre a Margaret esposa/mãe e a Margaret/política, mesmo que a história tente barrar esta criação. Sendo ainda notável que a excelente composição da maquiagem nunca interfira, evidenciando ainda mais o talento da atriz, que compõe com extrema precisão uma envelhecida Margaret, tornando ainda mais realista o sentimento de perda e sofrimento que a personagem sente.

 A Dama de Ferro acaba servindo apenas como um filme para Streep esbanjar talento, sem ela o longa ficaria mais debilitado do que já é, sendo provável que caísse no esquecimento, exatamente o que aconteceria com Mamma Mia pela mesma razão. Pelo visto virá a se tornar comum Streep salvar os longas de Lloyd.

Poltronas 

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