A Dançarina e O Ladrão

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Enviado por Luciana em ter, 05/01/2012 - 19:07

O Filho da Noiva (El Hijo de La Novia, 2001), Nove Rainhas (Nueve Reinas, 2000), Abutres (Carancho, 2010), O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2010), Um Conto Chinês (Un Cuento Chino, 2011) e o mais recente chegado ao Brasil – mesmo sendo um filme de 2009, só chegou agora em 2012 – A Dançarina e O Ladrão (El Baile de La Victoria, 2009), são todos filmes que têm algo em comum: Ricardo Darín esbanjando charme e talento em cena. Não temos como negar o talentosíssimo ator que é.

Mas infelizmente todo bom ator chega a um momento na vida em que passa por um filme não tão glorioso, um filme mais mediano. Baseado na obra não lançada no Brasil El Baile de La Victoria (que infelizmente ainda não li) de Antonio Skármeta, A Dançarina e O Ladrão não é um filme ruim – longe disso –, mas é um filme que deixa a desejar em alguns pontos. Peca em certos momentos pelo excesso de clichês e o roteiro, assinado pelo próprio Skármeta, por Jonás Trueba e pelo diretor Fernando Trueba, ao tentar mesclar as duas histórias que se entrelaçam ao longo da trama, não consegue fazê-lo de forma fluida, de modo que em alguns momentos uma acabe tropeçando na outra.

Anistiados após a saída do ditador Augusto Pinochet, alguns presos são postos em liberdade no Chile. Entre eles estão Nicolás Vergara Grey (Darín) e Angel Santiago (em uma interpretação inspirada de Abel Ayala). Vergara Grey é um famoso ladrão, conhecido por todos por sua imensa habilidade em abrir cofres. Angel, por sua vez, acabou preso por uma banalidade e agora, solto, busca vingança. Seus caminhos acabam se cruzando quando um preso – que ainda se encontra na cadeia – insiste que Angel e Vergara trabalhem juntos em um golpe milionário. Mas Vergara está ansioso por tentar reencontrar a mulher e filho que deixou quando foi preso 5 anos atrás. E Angel, dando voltas na cidade, encontra uma bela jovem. Suas roupas são simples, seu cabelo meio desarrumado, mas ela tem uma beleza que encanta o jovem. Essa é Victoria (interpretada pela talentosa Miranda Bodenhöfen), que aos poucos nos deixa conhecer sua história, principalmente por flashbacks. E ao se envolver com Angel, acaba cruzando também o caminho de Vergara.

Victoria é órfã e vive de favor em uma academia de dança muito simples, muito pobre, onde, acolhida por uma professora, teve aulas e aprendeu a dançar ballet. Ela é uma exímia dançarina, todos os seus sentidos são voltados para a dança, mas infelizmente ela é pobre e, por algum motivo, não fala. Isso é o suficiente para que mais adiante ela seja humilhada em uma escola de dança, mesmo depois de demonstrar todo o seu talento, pois não é tolerável que uma garota pobre e muda dance ballet.

As atuações do trio principal encantam o espectador. Abel Ayala faz de Angel um personagem carismático, engraçado em muitos momentos. No entanto, as atenções se voltam principalmente para Miranda, que dança com maestria, como se não houvesse outra coisa no mundo mais importante que isso. Uma vez que a garota não fala, ela precisa colocar em sua personagem toda a alegria, dor e sofrimento através do seu olhar e de seus movimentos. E é claro, Darín, que apesar de ter um personagem mais calado, demonstra toda a sua sensibilidade e talento ao soltar a voz e cantar El Dia Que Me Quierasem determinado momento do longa - essa cena por si só já valeria assistir ao filme, um momento a ser lembrado; excelente!

A direção de fotografia de Julián Ledesma é competente por utilizar tons mais amarelados em ambientes fechados como bares e boates, onde existe um clima mais amigável por assim dizer, e tons mais azulados quando as locações são nas ruas do Chile, demonstrando de forma eficaz o clima de frio em que se passa o filme. Tal fotografia é complementada com maestria pela belíssima e inspirada trilha sonora do filme, que curiosamente não conta com a autoria de alguém em especial. Mas as músicas escolhidas fazem enorme diferença no conjunto da obra, principalmente ao transmitirem o lirismo proposto em determinadas cenas.

Ao passo que a trama se entrelaça e se desenvolve, e que as histórias deveriam se complementar, já que Angel, Victoria e Vergara interagem em cena, a história do jovem casal rouba a maior parte dos louros, deixando a história de Vergara quase sempre na sombra. Nisso talvez deixemos de conhecer mais sobre esse intrigante personagem que cativa o público desde a sua primeira aparição em cena.

As motivações de cada um agora fazem com que passem a pensar no golpe que lhes daria nova oportunidade na vida, ao passo que se der errado lhes renderia alguns anos na prisão. Angel pensa em atravessar clandestinamente os Andes com a amada e viver uma nova vida na Argentina, e Vergara, amolecido pela paixão do casal, pensa em ajudá-los. Passamos a torcer por cada um deles, a esperar que seus objetivos sejam alcançados e que suas histórias entrem nos trilhos – e quanto a isso o roteiro acerta em cheio em deixar em aberto determinada situação.

Ao fim, A Dançarina e O Ladrão, apesar de alguns tropeços, é uma bela obra que, através da música, da poesia e do lirismo, nos mostra que todos devem ter uma chance de recomeçar. É uma obra que mostra que o amor, o ódio e a tristeza existem, e estão ali para serem trabalhados e assimilados (ou não), por nós enquanto seres humanos. E esperamos que, depois desse interessante personagem, não demoremos muito mais a ver Darín em um novo papel, encantando mundo afora com seu talento.

Poltronas 

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