Dawson Ilha 10

imagem de Luciana
Enviado por Luciana em dom, 12/04/2011 - 18:00

Em 11 de setembro de 1973 o então presidente do Chile, Salvador Allende, é deposto por um golpe de estado liderado pelo general Augusto Pinochet, chefe das Forças Armadas. Na ocasião da invasão do Palácio de La Moneda Allende é morto, e até pouco tempo se sabiam duas versões para a sua morte: o seu assassinato por conta das tropas invasoras ou o suicídio. Em julho de 2011, Isabel Allende, escritora e sobrinha de Salvador Allende, pediu a exumação dos restos mortais do presidente, e segundo a perícia a provável causa da morte teria sido o suicídio.

Dito isto, entramos no contexto de que trata o filme Dawson Ilha 10, dirigido e roteirizado por Miguel Littín, baseado na obra Dawson Isla 10, de Sérgio Bitar. O filme foi o representante oficial do Chile para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, mesmo sendo co-produção Chile/Brasil/Venezuela. Indicado também em 2010 para o prêmio de Melhor Filme Hispanoamericano nos prêmios de Goya.
 
Sergio Bitar era Ministro de Minas de Salvador Allende, e juntamente com vários outros ministros e aliados do governo foram confinados na Ilha Dawson, uma ilha gelada ao extremo sul do Chile, para onde foram levados sendo tratados como animais. Como prisioneiros de guerra, esses homens sofreram as mais diversas ofensas, tanto físicas, quanto morais. Além de torturas psicológicas. A conquista de um lápis ou uma notícia através do mal sintonizado rádio que mantinham escondido era o que se podia ter de mais precioso, além de se manterem vivos.
 
 
Os prisioneiros eram separados em grandes galpões, eles não tinham mais nome, identidade ou profissão, eram agora parte de um problema que as Forças Armadas tinham em mãos, estratégia essa utilizada para humilharem ainda mais aquelas pessoas, isoladas, sem valor, sem nome. A dificuldade de manter um aglomerado assim de presos era tão grande quanto o problema que teriam se os executassem. Os presos eram submetidos ao trabalho forçado e deveriam fazer por merecer estarem vivos. E como a cada momento chegavam mais e mais prisioneiros, as acomodações em que viviam precisavam ser revistas ou eles transferidos a outros locais da ilha. A neve e o vento estavam sempre presentes.
 
 
O roteiro opta por nos apresentar algumas imagens de arquivo entremeadas à reconstrução de cenas (destaque para os minutos iniciais, que mantém o estilo “câmera na mão” em forma quase documental, filmando em primeira pessoa), utilizando-se de atores para interpretar os ministros presos na ilha. Mesmo que o foco maior seja em Sergio Bitar (Benjamin Vicuña), que escreveu suas memórias enquanto estava preso, outros personagens merecem tanta ou maior atenção que ele, como o arquiteto Miguel Lawner (Jose Bertrand), responsável pela reconstrução da igreja que havia na ilha; o sargento Figueroa (Luis Dubó) que mesmo sob expressas ordens de tratá-los como prisioneiros deixava transparecer algo de humano em suas atitudes; e José Tohá (Pablo Krög), que nunca se recuperou da morte de seu amigo Allende.
 
A fotografia é de Miguel Littín, que com pequenas exceções donde se destacam breves momentos da abertura do filme, traz uma fotografia acinzentada e assim sendo, praticamente desprovida de cores quentes, “vivas”. Tal opção é extremamente eficaz em diversos momentos, principalmente para retratar a tal ilha e sua névoa, sua frieza e similares, e as filmagens ocorreram na própria ilha Dawson. O filme tenderia ao lado documental, e só não é tratado como tal em função da reconstrução de cenas. Mas, podemos vislumbrar imagens de arquivo onde vemos Salvador Allende e Santiago do Chile, inclusive com o áudio de seu último discurso em La Moneda.
 
Como na frase de Neruda, “Em cada pedra, eu deixei um telegrama escrito”, em cada canto se podia encontrar um vestígio de um prisioneiro, fosse em uma parede, uma pedra, ou em alguma folha de papel escrita e levada pelo vento.
 
 
Dawson Ilha 10 pode ser considerado tanto um excelente filme, quanto um ótimo relato do que ocorreu nesse momento singular a esses homens de confiança de Allende, que nada mais fizeram a não ser lhes ser fiéis, e muitos desses acabaram pagando isso com as próprias vidas. Mais uma etapa da História que nos é mostrada com a eficiência de um bom roteiro e uma boa direção.
 

Poltronas 

4

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.