Deus da Carnificina

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Enviado por Luciana em sex, 06/15/2012 - 15:51

Roman Polanski é diretor de grandes obras. Filmes como O Bebê de Rosemary (1968), O Pianista (2002), O Último Portal (1999) e O Escritor Fantasma (2010) marcam presença em sua carreira. Sua mais recente obra, Deus da Carnificina – baseado na peça teatral da francesa Yasmina Reza – é eficiente em alguns momentos, mas infelizmente não consegue emplacar como um grande filme. Não me entendam mal, o filme não é ruim, mas está longe de se parecer com os excelentes filmes que estamos acostumados a receber do diretor.

A história é extremamente simples, acompanha quatro pessoas – dois casais mais precisamente – que se encontram em uma tarde para falar de seus filhos, dois garotos na faixa de 11 anos de idade. Esse encontro acontece a fim de que conversem e entrem em um consenso sobre o evento ocorrido na manhã daquele dia, onde um dos garotos agrediu o outro na escola.

Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly) são os pais da vítima, enquanto Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz) são os pais do agressor. É interessante perceber, ao início da conversa, a cordialidade e polidez com que se tratam, chamando-se pelos sobrenomes e com palavras comedidas, tentando manter as coisas dentro dos limites da educação e respeito.

Aos poucos, vamos percebendo a mudança em cada personagem. Ao longo da conversa, que deveria ser de conciliação, mas que toma rumos mais acalorados, cada um dos quatro vai deixando cair o pano que esconde sua verdadeira face, digamos assim. No momento já não cabem mais os elogios ou cortesias, a conversa toma o rumo de discussão, em que a moral, o respeito, a ética e mesmo a privacidade de cada casal vai sendo deixada de lado. Nesse ponto o eficiente roteiro de Polanski e Yasmina consegue criar diálogos por vezes hilários, cenas que variam da tensão à comédia em instantes.

Cada um deles tem um ponto fraco que vai sendo exposto ao espectador, seja o machismo de Alan ou sua irritante mania de falar ao telefone, ou a figura superprotetora de Penelope, e assim por diante. Aos poucos as discussões tomam rumos mais pessoais, onde cada casal discute entre si, “lavando a roupa suja”, ou discutindo aleatoriamente, não importando a quem está atacando na vez.

     

O filme se passa basicamente dentro do apartamento de Michael e Penelope – com exceção de dois momentos em que estamos ao ar livre – e a escolha do diretor de fazer com que a história seja mostrada em tempo real, exatamente como ela acontece, acaba tornando o filme, em determinados momentos, maçante e exaustivo. E o fato da quase ausência de trilha sonora contribui ainda mais para o fato de o tempo parecer não passar. Aliás, é um desperdício de talento colocar Alexandre Desplat somente para abrir e encerrar o filme. Mas quem disse que Polanski é convencional?

As atuações do quarteto estão impressionantes, com destaque, em minha opinião, para Jodie Foster, excelente em cena. Mas não podemos também descartar o talento multifacetado de Kate Winslet, que consegue mudar o humor de sua personagem num piscar de olhos. E é claro, Reilly e Waltz não deixam a desejar, complementando o elenco de peso que parece ter sido escolhido a dedo por Polanski.

O filme prima pela crítica social e os bons costumes, aborda temas como bullying, trapaça, manipulação, manter aparências ou “fachada”, problemas conjugais mal resolvidos, falta de diálogo, profissões de mais ou menos status, negócios escusos e assim por diante. Mas, como disse no início, infelizmente Deus da Carnificina não é um grande filme, e apesar dos acertos não consegue se sustentar, não funciona por completo. Resta enfim, que fiquemos na torcida para que o diretor venha, em breve, a nos agraciar com mais uma de suas excelentes obras de costume.

Poltronas 

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Comentários

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Enviado por Giordano em sab, 06/16/2012 - 00:19

Acho que a opção de internalizar toda a ação e desenvolver em tempo real é perfeita, e pra mim, pelo menos, não cansa em nenhum momento. Pelo contrário, agonia. E creio que esse era o objetivo.

Quanto à trilha do Desplat, achei um dos melhores momentos da carreira dele. Acho ele um compositor bem mais ou menos, mas a trilha dele me envolveu totalmente nos planos em que aparece. Qualquer trilha a mais durante o filme seria intrusiva, creio eu.

Na verdade, achei o filme perfeito com exceção de um plano, e um só. O penúltimo, que envolve um certo animal, pra não dar spoiler. Com exceção desse plano bobo e desnecessário, achei o filme sensacional. 

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Enviado por Ghuyer em sab, 06/16/2012 - 02:44

Lu, ainda não li tua crítica porque estou escrevendo a minha agorinha mesmo.

Mas não resisti a ler o comentário do Giordano, e já vi que dessa vez concordo com a discordância dele.

Não achei o filme sensacional, mas gostei muito.

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