Deus da Carnificina

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Enviado por Ghuyer em dom, 06/17/2012 - 14:26

Quando me coloquei a pensar no que escrever sobre Deus da Carnificina, ao folhar o caderno que uso em aula, procurando uma página em branco, passei os olhos pelo rascunho da minha crítica do filme Triângulo Amoroso, e na hora percebi que as duas obras tratavam de certa forma sobre o mesmo assunto, ainda que com abordagens totalmente diferentes e defendendo ideais quase opostos.

Uma relação um tanto aleatória, comparando dois filmes que, a princípio, jamais remeteriam um ao outro, tão diferentes que são em tom, estrutura e estilo. No entanto, acredito que a essência do discurso é a mesma nos dois casos. Só que, se o drama vanguardista do alemão Tom Tykwer analisava com ponderação a decadência do casamento nos seus moldes tradicionais e oferecia uma solução otimista, a comédia ácida de Roman Polanski, por sua vez, remetendo ao pessimismo de seu excelente Lua de Fel, disseca sem dó o relacionamento conjugal, e ri da desgraça que encontra pelo caminho.

Abrindo a narrativa que logo transcorrerá em um único cenário e em tempo real está a cena de um grupo de crianças em que uma delas acaba agredindo outra no rosto com um pedaço de madeira. Ali só vemos que o agressor não parecia bem aceito pelos demais, e que o agredido se encontrava de certa forma no centro do grupo. Não escutamos nenhum diálogo, e só podemos especular sobre o que levou um menino a agredir o outro. Temos certeza apenas de um detalhe: aquilo é coisa de criança.

Em um segundo momento, estamos na residência dos Sr. e Sra. Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly), os pais da vítima, onde, junto com os pais do acusado, os Sr. e Sra. Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet), redigem um relatório de mútuo acordo sobre o ocorrido. Devido a uma série de circunstâncias, os visitantes acabam não indo embora na hora prevista e, como consequência de uma tola e crescente implicância de ambas as partes, a conversa entre os dois casais vai aos poucos se intensificando, sugerindo um desfecho invariavelmente trágico. Assim, ficamos a testemunhar as reações daqueles quatro adultos que, ao entrarem num surto de exagero infantil exponencial, vão se comportando de forma incrivelmente similar àquela vista na primeira cena do filme.

Quanto às aparências iniciais, é interessante notar que, não fosse a divertida trilha sonora de Alexandre Desplat, que com uma única zombeteira melodia de percussão já consegue imprimir o tom cômico que acompanhará toda narrativa, considerando se tratar de um longo plano estático sem cortes que lembra muito Caché, a primeira cena de Deus da Carnificina poderia facilmente sugerir um drama apocalíptico ao estilo de Michael Haneke. Não é de admirar que, adaptando a peça de Yasmina Reza (que assina o roteiro junto com o diretor), de certa forma o que Polanski realiza aqui não deixa de ser um pequeno apocalipse dos bons costumes mergulhado em humor cínico.

Estabelecendo a dinâmica entre os personagens com a cautela típica de seus melhores filmes, Polanski primeiro larga o espectador em meio a uma agonizante aura de desconforto, nos submetendo a uma sessão de vergonha alheia graças, principalmente, ao sorriso forçado de Jodie Foster e à insistência de sua personagem em aprofundar o problema ainda mais. Ao contrário do que possa parecer, esse estranhamento não é fruto de um desleixo por parte do cineasta, ou de uma falta de sintonia do elenco. Pelo contrário, além de perfeitamente natural para uma situação como a retratada, o visível embaraço que toma conta do filme na primeira meia hora mostra-se importante tanto para o desenvolvimento inicial dos personagens, revelando as principais características de cada um, quanto para delinear as questões que serão debatidas ao longo da narrativa.

Já nos primeiros diálogos são lançados tópicos aparentemente irrelevantes, mas que serão subitamente retomados mais para o final, em um processo que revela muito não só sobre os personagens, mas também sobre o discurso que o filme em si pretende defender. Nessa bela lógica interna do roteiro, até o comentário inocente sobre um animal de estimação acarreta consequências sérias algumas cenas mais tarde. Basicamente, tudo que um dos quatro protagonistas diz será rebatido por outro em algum momento, primeiro de forma polida e civilizada, mas carregando as réplicas com ofensas e xingamentos rasos à medida que o tempo passa.

Nesse sentido, é incrível a competência do elenco em assegurar a verossimilhança e manter forte o interesse do espectador até a última cena. Ao passo em que a montagem de Hervé de Luze consegue passar a nítida impressão de uma narrativa em tempo real, costurando sequências tensas e cômicas com naturalidade, vale notar que, embora falte a Polanski sua geralmente inspirada criatividade na hora de compor os enquadramentos, no que resulta um filme visualmente pouco interessante, as brilhantes atuações dão conta do recado de forma admirável, pouco importando em que ângulos aparecem em cena.

Contrastando com algumas de suas performances mais marcantes, quase sempre retratos de mulheres fortes e independentes, a idealista Penelope Longstreet permite à excelente Jodie Foster exibir sua versatilidade. Pintando sua personagem com uma fragilidade que vai se tornando mais evidente a cada cena, Foster provavelmente tem o papel mais desafiador do filme, mas nem por isso demonstra qualquer dificuldade em defender o moralismo de Penelope até o fim. Não me parece coincidência o fato de Penelope, sendo a única que defende seus valores morais até o final, também ser retratada pelo roteiro como a personagem mais chata da trama. Nesse contexto, Foster merece créditos também por conseguir imprimir comicidade a essa característica, que, a cargo de uma atriz menos talentosa, poderia transparecer em pura irritação no espectador.

Indo na contramão, Kate Winslet exala confiança como Nancy Cowan, mesmo após protagonizar o elemento surpresa que marca a virada do primeiro para o segundo ato (é impossível não notar). Fortemente maquiada e vestida com elegância, Nancy tem sua sutil falsidade trabalhada por Winslet em falas afirmativas empregadas em tom pouco convincente, ainda acompanhadas de olhares furtivos, que transparecem a falta de interesse da mulher em entrar mais a fundo na questão. Por mais que pareça tentar encontrar uma solução, não é difícil de perceber que Nancy quer mesmo ir embora, como a própria afirma perto da última cena do filme.

Fazendo o par de Winslet, Christoph Waltz incorpora o único personagem do longa que deixa claro desde o primeiro momento não dar a menor importância para o que se está discutindo – uma característica que, em última instância e ironicamente, o transforma na pessoa mais honesta da história. Constantemente atendendo o celular e cortando seus interlocutores na maior cara de pau, Waltz interpreta o típico homem de negócios que coloca o trabalho acima da família o tempo todo. Em todo caso, apesar do aparente clichê e mesmo com o roteiro não tentando aprofundar o personagem, que se expressa sempre do modo mais franco e direto possível, em frases carregadas de descaso e tédio, o arquétipo advogado Alan Cowan garante a Waltz apresentar seu timing cômico invejável, tornando-o responsável por arrancar as maiores risadas do espectador.

Por fim, vivendo o companheiro de Penelope, temos John C. Reilly naquela que provavelmente é a melhor performance de sua carreira. Precisando manter o mesmo ritmo das ótimas atuações de seus colegas de elenco, Reilly surpreende por não se ofuscar em nenhum momento, e até chamando toda atenção para si em determinadas cenas. Primeiro fazendo a persona de marido carinhoso e pai amável, lá pelas tantas Michael Longstreet protagoniza uma brusca mudança de personalidade que Reilly transparece com a devida intensidade, de forma quase chocante, mas divertidíssima. “Who wants a Scotch?”, ele grita ao se dirigir para a garrafa de uísque, marcando o preciso segundo em que Deus da Carnificina se declara uma versão atual de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?.

No que se segue, ao mesmo tempo em que a influência da obra-prima de Mike Nichols fica mais evidente, Polanski também vai deixando clara sua opinião sobre aquelas pessoas que, perdendo todos seus freios e máscaras de falso moralismo, constituem uma severa crítica à sociedade contemporânea, em especial à norte-americana. Recheando aqueles quatro personagens com um cinismo que, mesmo divertido, não deixa de ser deprimente (“Esse é o pior dia da minha vida!”), Polanski coloca à mostra a hipocrisia que hoje impera nas relações humanas.

Sugerindo a ideia de que aquela longa conversa que testemunhamos não iria a lugar nenhum, o modo repentino com o qual o cineasta fecha a narrativa e encerra o tempo de cena daqueles personagens decadentes também não deixa de ser sua forma particular de dizer “Foda-se” para aquelas pessoas.

Em tempos em que a futilidade parece se sobrepor à integridade pessoal em escala industrial, Deus da Carnificina diz apenas o óbvio, não leva a lugar nenhum, mas faz isso com estilo, garante boas risadas, e oferece um fabuloso show de atuação do início ao fim.

Poltronas 

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