Django Livre

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Enviado por Felipe em qui, 01/31/2013 - 22:32

“Django!

Have you always been alone?

Django!

Have you never loved again?”

Há uns dias, eu estava assistindo a uma entrevista de Quentin Tarantino na qual o entrevistador o comparou a um artista de hip hop. Tarantino concordou e disse ser fascinado pela ideia de, assim como no hip hop, poder pegar duas coisas diferentes, misturá-las e transformá-las em algo novo. Em “Django Livre” o diretor finalmente realiza seu western (southern na verdade) misturando elementos dos clássicos faroestes americanos com os western spaghetti italianos, junto de canções contemporâneas, músicas de Ennio Morricone, soul music e quantidades absurdas de sangue e violência em comparação com o padrão das obras inspiradoras e tão referenciadas neste seu oitavo longa.

Situado no Sul dos Estados Unidos e dois anos antes da Guerra Civil, o filme tem início com cinco escravos sendo levados acorrentados pelos vales e florestas da America do Norte. Entre eles está Django (Jamie Foxx) que é comprado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Schultz quer a ajuda de Django para encontrar três irmãos criminosos procurados pela lei. Com a recompensa paga pelos três, Django ganha a sua liberdade e a ajuda de King para encontrar a sua esposa, Broomhilda (Kerry Washington) que foi vendida para o escroto chamado Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

Tarantino pouco liga para os anacronísmos que um filme de época exige. Não mesmo. Na verdade, procura, sempre que possível, quebrar o convencional. Sua linguagem particular já é bem conhecida pelos cinéfilos. Você sabe o que esperar de um filme de Tarantino e o que não esperar. Seu universo é sempre verdadeiro dentro dele mesmo. Num momento estamos tensos, no outro estamos surpresos quando as balas detonam os corpos dos inimigos e, por fim, estamos rindo do absurdo disso tudo. Tal absurdo é o maior aliado do diretor. Sem ele, o seu cinema não teria a metade da força que tem e não dialogaria tanto com o público. Os filmes de Tarantino têm a sua própria realidade que é inegavelmente crível dentro desse universo único proposto. Já estamos cheios de realidade em nossas vidas e o cinema é o lugar perfeito e a arte perfeita para quebrar qualquer convenção diante dos nossos olhos e fazer com que acreditemos que soldados judeus podem matar Hitler ou que lutas de katana ocorreriam hoje em dia. “Django Livre” exalta os absurdos e brinca com o humor proposto por eles. Seja numa discussão sobre os buracos para os olhos no capuz de um grupo de cavaleiros prontos para realizar uma execução ou o assassinato de um personagem perante aos olhos de uma cidade inteira, o diretor faz graça com o que lhe for conveniente. E sempre funciona.

Trabalhando mais uma vez com o diretor de fotografia Robert Richardson [juntos desde “Kill Bill” (2003), pulando apenas “À Prova de Morte” (Death Proof, 2007)], os enquadramentos de “Django Livre” são poderosos, evocativos e referenciais. Richardson utiliza de sua famosa luz dura e marcada para criar pontos de atenção em cena ou para criar um recorte dos personagens no escuro, como na ação que ocorre logo após os creditos iniciais, e se passa numa floresta à noite. Todos os movimentos e planos característicos da obra de Tarantino estão lá: zooms rápidos, lentos, “dutch angles”, “travellings”, planos laterais... E por aí afora. Mais uma vez, ficamos de boca aberta com a destreza com a qual Quentin realiza suas sequências de ação (algo mais do que comprovado no primeiro “Kill Bill”), numa geografia precisa e clara.

Como sempre, o elenco é um dos pontos altos. Até boa parte da projeção quem manda no filme é Christoph Waltz que faz de seu Dr. King Schultz um personagem cativante que conta com uma boa lábia e um gatilho rápido. Waltz está sempre dando um jeito de se livrar das situações embaraçosas ou perigosas em que se coloca, já que praticamente todos os gestos e palavras de King são muito bem pensados. Ele não fará nada gratuito, pois está agindo dentro da lei enquanto busca suas recompensas. E é quando começamos a conhecer melhor o Django de Jamie Foxx e ele começa a aprender os truques e as manhas da profissão com Schultz que vemos um herói surgindo. Django tem consciência de sua posição perante aos brancos e mesmo não satisfeito com isso, aprende a utilizar isso ao seu favor. É muito interessante notar como ambos vão aprendendo um com o outro durante a jornada. Django vai ficando mais frio e calculista e King, cada vez mais abismado com as crueldades que é obrigado a presenciar (com as quais ele nunca compactuou). Samuel L. Jackson faz de seu Stephen um puxa saco, duas caras, que é muito divertido e perigoso ao mesmo tempo. Ele cria toda uma postura frágil para o personagem que some quando necessária. Ao passo que Kerry Washington, apesar de estar praticamente sempre sob pressão, consegue transmitir calma e alegria. E então temos o vilão de DiCaprio, Calvin Candie. Uma criança mimada. Um adulto nojento. Um rico sem classe, que busca sempre exibir suas posses, mas não possui quase conhecimento algum. Que gosta de ser chamado de Monsieur, mas não sabe nada de francês. Candie é um homem detestável seja exibindo sua falsa classe ou no modo como trata seus escravos - Vá brincar lá fora!”- e DiCaprio consegue a proeza de torná-lo fascinante ao mesmo tempo. Quando ele encara seus interlocutores, sua maldade é ressaltada pelos olhos extremamente azuis do ator. A primeira vez que Candie aparece ele está de costas assistindo a uma luta de escravos violentíssima e ao se virar para nós, vemos um jovem sorridente. Estamos sempre esperando o momento de explosão de Calvin graças às pausas criadas por Tarantino.

Se observarmos a obra de Tarantino, podemos notar que seus filme são construídos em cima de personagens, cenas longas, pausas, diálogos e um crescente clima de tensão proveniente destes. O diretor consegue tornar uma simples conversa num momento horrível quando tudo pode acontecer. Isso graças (além de seus maravilhosos roteiros) às pausas empregadas por ele durante as cenas ou durante o filme. Ele trabalha como um maestro sabendo quando as personagens devem se calar, quando o que é dito é o bastante para aborrecer alguém a ponto de puxar a arma e quando o filme precisa de um respiro. Às vezes, a lentidão empregada pelo diretor pode parecer um descuido, um medo de cortar algo (não que isso nunca ocorra), mas é louvável como ele emprega isso de forma que depois de tanta violência, tenhamos uma calmaria que parece desnecessária só para nos levar de novo para uma matança desenfreada. É incrível como ele tem calma para apresentar seus personagens e a frieza com que se desfaz deles. Tarantino sabe orquestrar esses momentos de tensão de forma que isso potencialize a história. No caso de “Django Livre” isso só aumenta a nossa satisfação em ver o personagem título conseguindo sua vingança.

Quentin Tarantino mais uma vez conseguiu. Como um artista de hip hop ele se apropriou daquilo que o criou, daquilo que o fez quem ele é, e que o marcou. Quentin pega o cinema e o torna dele. E isso que é o cinema na verdade. O filho de “um” que pode ser adotado por outros e dessa “adoção” podem surgir novas obras tão boas ou melhores que refletem o artista que as adotou. Tarantino é um desses verdadeiros artistas, e nunca um imitador. E há vinte anos é referência de um cinema ágil, criativo e divertido. Mesmo que ele viva dizendo que se um dia a película realmente acabar ele irá parar de fazer cinema ou que vá parar no décimo filme, é sempre bom ter a esperança de que ele vai continuar povoando a arte mais divertida de todas com seu frescor e seus personagens marcantes. Que cara foda.

 

“D’Artagnan, motherfuckers!”

 

 

Poltronas 

5

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