Embargo

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Enviado por Luciana em dom, 12/25/2011 - 17:58

Adaptar: “modificar o texto (obra literária), ou tornando-o mais acessível ao público a que se destina, ou transformando-o em peça teatral, script cinematográfico”.

A adaptação de uma obra para as telas é uma arte. Nem sempre bem sucedida, é claro, mas é uma arte. Dito isso, falemos agora sobre Embargo, novo longa do cineasta português António Ferreira (Esquece Tudo o que Te Disse, 2002), uma adaptação do conto homônimo de José Saramago (interessante, por sinal), retirado do livro Objecto Quase.
 
Desde o seu início já podemos suspeitar que o roteiro de Tiago Sousa foge bastante ao conteúdo do conto, já que a narrativa abre com uma sequência que não existe no conto. Isso seria um problema? Claro que não, pois é uma adaptação, não uma transcrição do texto para as telas. Pena que aqui as coisas não corram tão bem, pois o roteiro é cheio de falhas e a imaginação de Tiago Sousa extrapola todos os limites possíveis e aceitáveis. Ele “martela” em situações que funcionariam (e funcionam, neste caso) bem no papel, na leitura, mas ao serem vistas na tela se tornam maçantes, exaustivas. Como é o caso da rima temática feita à exaustão com o título do filme.
 
Nuno Silva (Filipe Costa) é um pai de família que inventou uma máquina capaz de scannear pés, que proporcionaria um avanço monstruoso na indústria calçadista, e que em razão do sucesso do projeto, o ajudaria a mudar de vida. Enquanto isso, a população se vê em meio a um embargo petrolífero, e conseguir gasolina é algo raro nesses dias. Nuno se utiliza de uns garotos para ajudá-lo a conseguir o combustível clandestinamente, cena que já soa bastante estranha em sua composição.
 
 
A própria família de Nuno é bastante peculiar: Margarida (Cláudia Carvalho), sua esposa, é bastante enérgica, briga com ele a todo o momento. A filha Sara (Laura Matos) – uma garotinha de no máximo uns 5-6 anos – é tratada por ele como adulta e tem como companheiro um coelho de pelúcia sem cabeça. O coelho é algo que se torna alvo da obsessão de Nuno durante quase todo o filme.
 
 
Disposto a vender seu invento, ele tenta marcar reuniões com os possíveis compradores. E no momento em que tudo poderia dar certo e ele poderia dar um rumo melhor à sua vida e de sua família, algo inusitado faz com que ele seja prisioneiro dentro de seu próprio carro. Impedido de sair do veículo, Nuno passa a percorrer a cidade – já repleta de carros parados ao acaso por falta de gasolina – atrás de seus interesses, mas o mais inusitado é que ele, impedido de sair do carro, cria as mais adversas situações, cada qual mais inusitada que a outra. 
 
A trilha sonora de Luís Pedro Madeira é muito boa, um dos poucos acertos do longa. As atuações podem soar um tanto artificiais em determinados momentos, e a fotografia de Paulo Castilho insiste em tentar nos remeter a um deserto, quando na verdade não é o caso. Outro erro do longa, a exposição de imagens, de pistas do que veremos minutos depois e a quantidade de vezes que observamos placas nos postos de gasolina indicando que estão fechados ou sem combustível é irritante, tornando-se óbvio o que acontecerá com o carro de Nuno instantes depois. Vários erros que sobrepostos acabam por comprometer o projeto.
 
Como se isso não fosse o suficiente, chega o momento em que o ponteiro do combustível do carro do protagonista demonstra que o tanque está vazio, o que somado à bizarra “resolução” para que ele finalmente saia do carro faça com que nos perguntemos onde está a lógica do projeto. Nuno está completamente arruinado, com sua vida “embargada”, e mesmo assim o roteiro insiste em fazer parecer que tudo está entrando nos eixos.
 
 
Reitero minha opinião de que a adaptação de uma obra não precisa ser extremamente fiel, que um livro e um filme podem sim ser analisados separadamente, sem que um deles perca a qualidade. Mas, um roteiro bem escrito e uma direção competente são requisitos mínimos para o sucesso de um projeto, o que infelizmente não ocorre com Embargo. Temos uma película confusa, fragmentada e que chega mesmo a incomodar em função de seus vários deslizes.

Poltronas 

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