Frankenweenie

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Enviado por Giordano em qui, 11/01/2012 - 21:35

 

Com a estreia da animação stop motion “Frankenweenie” nessa semana de bruxas e dia de finados, vale a pena relembrar a pequena obra prima que Tim Burton realizou em 1984 com a Disney. O filme original fugia aos padrões que a empresa havia seguido até então. Afinal, era um tributo ao clássico filme de horror Frankenstein, de James Whale, estrelado por Boris Karloff.

Agora, com os trailers e tal, todos já sabem o cerne da história, que toca numa questão profunda para as crianças – a morte de animais de estimação. É a história de um menino que, frustrado com o acontecido, reverte a situação usando o conceito elétrico de Mary Shelley.

É um filme do “early Tim Burton”. E por “early Tim Burton”, eu quero dizer tudo aquilo que foi feito antes de Beetlejuice (no brasil, o infame título de Os Fantasmas se Divertem) conquistar o mundo todo. Nessa época, ele era um cara bizarro da Disney, que tinha coragem de fazer coisas que ninguém mais tinha na empresa: o já famoso curta Vincent, a misteriosa versão ninja de João e Maria que nunca foi lançada, e um megalomaníaco e bizarro média sobre Aladim.   

A Disney, na época, fazia uma série de relançamentos, como de Mogli e Pinochio. A ideia era lançar Frankenweenie junto com o segundo. Acabou que consideraram o filme pesado demais e não lançaram.

O filme já tem início homenageando clássicos filmes B na apresentação de filmes caseiros do pequeno Victor, estrelados por seu melhor amigo, o cachorro Sparky. Não demora muito para que o cão morra tragicamente. E muito menos para que o menino, numa aula de ciências sobre eletricidade, tenha a ideia.

Como (quase) sempre, Tim Burton constrói muito bem a figura do “outsider”, do excluído, do incompreendido. Em seus filmes, são esses os personagens que geram mais identificação. Enquanto as “pessoas normais” são as que incomodam, irritam, ou assustam. Aqui, não é diferente. A vizinhança é caracterizada de maneira bizarra, como por exemplo, a cartunesca senhora gorda do vestido florido ou a garota que se exercita e repete os movimentos com sua Barbie.

O menino e seu cachorro ressuscitado, no entanto, são os que geram a maior identificação. O cão se torna uma projeção do menino, algo como o id dele ou algo parecido. O cachorro tem coragem de correr, assustar, ridicularizar e incomodar a vizinhança, tudo o que Victor não faz em sua reclusão. Quando o cão encontra sua “noiva de frankenstein” após morrer pela segunda vez para salvar o garoto, é uma projeção do fato de que Victor também encontrou o  seu lugar ao ganhar o apoio de toda a vizinhança para ressuscitar o cão com as baterias dos carros de todos.

O filme não ignora, porém, o ponto de vista dos pais. Apesar de preocupados com a ideia inusitada que seu filho tem, o Pai e a Mãe (interpretados por Daniel Stern e Shelley Duvall) não deixam de apoiar e tentar ter carinho pelo ressuscitado Sparky. “Alguns pais se preocupam com o filho se envolver com drogas”, se consolam os pais antes de dormir. Para na manhã seguinte, a mãe oferecer todo o apoio que conseguir ao filho: “Eu vou conseguir para ele um bom cesto de baterias!”.

 A relação entre direção de arte e fotografia traz o maior mérito dos melhores filmes de Tim Burton: equilibrar o cartunesco, o bizarro e o fantástico com o naturalista, com o suburbano, com o “comum”.

Entre os criativos cenários, temos o cemitério de bichos extremamente caricato, com lápides em forma de aquário, hidrante e esquilo.

O sótão do menino, seu “mundo”, traz a mistura entre as máquinas bizarras (parte do equipamento é o mesmo utilizado no filme de James Whale!) e os eletrodomésticos roubados da cozinha da mãe.

Outra referência a Frankenstein está no minigolfe abandonado onde se dá o climax, que trabalha com a referência a Frankenstein através do mini-moinho.

As referências não ficam apenas na trama e na cenografia. Até mesmo os enquadramentos homenageiam o filme de 1931.  James Whale jamais escondeu sua influência do Expressionismo Alemão, que aqui também aparece absurdamente forte, seja no uso de sombras e silhuetas, até as ornamentações e belíssima utilização do chiaroscuro.

A iconografia e os temas da carreira de Tim Burton já apareciam com muita força aqui. Esse permanece, até hoje, um dos melhores filmes da carreira do diretor. Talvez justamente por ser uma das premissas mais simples com que ele já trabalhou...

Poltronas 

5

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