Gravidade

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em dom, 10/13/2013 - 17:57

I'm stepping through the door 

And I'm floating in a most peculiar way 

And the stars look very different today 

Here am I sitting in a tin can far above the world 

Planet Earth is blue and there's nothing I can do

(Space Oddity, David Bowie)

Ao assistir "Gravidade", já estava imbuído de um entorno bastante vasto de expectativa. O filme anterior do diretor, "Filhos da Esperança" (Children of Men, 2006), foi um dos grandes filmes que assisti nessa década, tornando o mexicano Alfonso Cuarón (diretor de filmes tão distintos quanto Y Tu Mama Tambien e Harry Potter & o Prisioneiro de Azkaban) um dos mais interessantes realizadores do século XXI. Seja fazendo uma distopia suja e melancólica, um road-movie naturalista ou dando humanidade e estranhamento ao universo mágico o bruxo mais famoso do mundo, me parece que Cuarón tem como maior ferramenta narrativa e atmosférica a capacidade da câmera de se movimentar, de maneira a criar tensão e gerar sentidos. E não há nada mais cinematográfico, do ponto de vista etimológico, do que a cinemática em si, a possibilidade de movimentar o olhar de maneiras que o olho humano não é capaz: passear por entre os pêndulos de um grande relógio, atravessar os vidros vencendo a refração, ou mesmo mover a câmera como se estivesse em gravidade zero, como seus personagens.

Não há muito o que dizer sobre a plot de Gravidade. A premissa é simples: a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) fica a deriva no espaço. Qualquer outra informação ou textura, é background. O que interessa aqui é a completa solidão da personagem e, principalmente, o estado de espírito em que se encontra.

Por falar em estado de espírito, para alguém que já estudou o conceito de sublime (sobre o qual Edmund Burke, Kant e Schopenhauer se debruçaram em seus estudos), fica evidente que a categoria estética com que Cuarón mais trabalha nesse filme é a mesma que a pintura alemã de um Casper David Friedrich, por exemplo. O sublime é aquela sensação de maior impacto que o belo. Uma sensação que é ao mesmo tempo positiva e negativa, uma epifania da impotência do ser humano frente a algo imensurável. Imensurável, essa é a palavra. E quando a Dra. Ryan Stone está em frente tanto ao universo quanto ao Planeta Terra, seu sentimento é de pura insuficiência, não só respiratória (já que seu oxigênio está no fim), mas filosófica. O próprio reflexo do planeta azul no seu elmo já se mostra tão fascinante quanto assustador. Enquanto o Belo transmite o conforto através da perfeição das formas, o Sublime apavora, mas sem deixar de encantar através daquilo que não se pode medir, nem questionar.

Se outros cineastas utilizam a sensação de sublime para filmar uma Nave que aterriza no espaço, como Steven Spielberg em Contatos Imediatos de Terceiro Grau, aqui a situação se inverte. Aqui, as naves, os satélites, são pequenas frente à imensidão. Isso não significa que Cuarón ignore a simbologia da nave como nave-mãe, que tanto Spielberg quanto Ridley Scott ou Kubrick utilizaram naquelas que considero os melhores exemplos de sci-fi que consigo pensar (Contatos..., Alien e 2001). Não, Alfonso Cuarón evoca esse significado em um belíssimo plano em que a personagem de Bullock, livre de sua “segunda-pele” (o traje de astronauta), relaxa na posição fetal, relacionando diretamente sua nave ao útero materno.

Tenho que deixar claro aqui minha surpresa em relação a Sandra Bullock. Sempre a considerei uma atriz medíocre, não exatamente ruim, mas nada nunca havia me chamado atenção, muito menos seu papel oscarizado em Um Sonho Possível (Blind Side, 2009). No entanto, em Gravidade, a atriz sustenta o filme, mesmo nos momentos menos inspirados do roteiro de Cuarón (que escreveu junto com seu filho Jonas), que às vezes se rende ao melodrama ou a soluções fáceis. A Dra. Ryan Stone de Bullock exibe um equilíbrio entre a fragilidade e a força da obstinação da personagem, algo que não consigo enxergar as outras candidatas ao papel alcançando. Apesar de Natalie Portman ser uma grande atriz, imagino sua interpretação tendendo demais à insegurança e à histeria. E Angelina Jolie, por sua vez, creio que traria um excesso de segurança que converteria Stone em uma espécie de super-heroína. Não pensava que diria isso algum dia, mas Bullock foi um excelente casting para o papel. E o mesmo se pode dizer para o pequeno papel de George Clooney e mesmo para a voz de Ed Harris como o correspondente em Houston, ator já consagrado em papeis espaciais por Apollo 13 e Os Eleitos.

Apesar da presença de uma estrela e um astro no elenco, as constelações que mais interessa a Cuarón são as verdadeiras: o espaço surge, ao mesmo tempo, como adversário e como deidade. E isso se torna possível graças ao grande destaque do filme: as técnicas precisas de Cuarón em criar um espaço, uma órbita terrestre perfeitamente verossímil através de CGI perfeito, melhor tecnologia 3D possível, e uma espetacular fotografia de Emmanuel Lubezki (Árvore da Vida e Filhos da Esperança), que se utiliza dos efeitos digitais para criar reflexos e texturas repletos de significado. Além do trabalho de som, que respeita regras de acústica e astrofísica na maior parte do tempo. Claro que há licenças poéticas nas leis científicas aqui e ali, mas é por isso que o filme faz parte de um gênero chamado ficção científica. O objetivo ainda é o drama, mesmo o filme tendo um feeling de simulação de parque de diversões, como afirmam os detratores da obra.  Essa ligação do filme com o gênero se mostra presente até mesmo em referências diretas a Star Wars (“eu estou com um mau pressentimento a respeito disso”) ou ao Marvin, o Marciano dos Looney Tunes, que surge flutuando junto a Bullock em certo momento da projeção.

Antes das sessões em salas IMax, sempre há a abertura sensacionalista em que uma voz (que lembra àquelas de simuladores de parques) diz “preparar para imersão total”. E mesmo já tendo assistido ótimos filmes como Star Trek: Além da Escuridão e Círculo de Fogo, esse aviso fez muito mais sentido em Gravidade¸ filme no qual Alfonso Cuarón vence os limites da tecnologia para desenvolver o mais crível espaço sideral do cinema, sem, no entanto, deixar de ser um clássico exemplo de sci-fi.

 

Poltronas 

5

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