Infância Clandestina

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Enviado por Rafael em seg, 12/10/2012 - 08:19

São incontáveis os filmes que têm a infância como tema. Só este ano, temos dois excelentes exemplos: o encantador A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011) e o simpático Moonrise Kingdom (idem, 2012). Se o primeiro aborda a infância como um lugar mágico repleto de aventuras e maravilhas a serem descobertas, o segundo retrata com diversão e sensibilidade a maturidade da juventude diante de um mundo adulto repleto de pessoas que agem como crianças. Indo na contramão destas duas versões, chega Infância Clandestina (idem, 2011), que tenta mostrar como é ser criança quando o mundo que o cerca tenta lhe roubar tudo o que torna esta fase tão encantadora. Inspirando-se na própria infância, o diretor Benjamín Ávila usa da ditadura militar na Argentina na década de 70 como um fator ativo na formação da maturidade do protagonista. Correção: tenta usar, mas não consegue.

Ávila consegue trabalhar o universo infantil se utilizando dos diversos lugares comuns da juventude – a primeira paixão, as amizades e inimizades, a escola, etc. - a seu favor para construir o protagonista, sendo feito de uma forma sensível e controlada. Ainda que beire a se tornar forçada em diversos momentos, o diretor consegue conduzir a aproximação do público com o protagonista. Juan, o personagem principal, é trabalhado o suficiente para que sejamos cativados por ele e suas descobertas sobre o mundo, Ávila usa pontos comuns ao público nesta época especifica (afinal, todos já fomos crianças) para moldar seu protagonista, transformando-o em um personagem simpático. Isso por pegar momentos que podem ser tidos como reconhecíveis e usá-los para torná-lo carismático. Por mais que funcione (e funciona), ainda sim o envolvimento com o personagem não foge disso, se limitando em torná-lo reconhecível para o público.

Entretanto, fica evidente na própria construção dos demais personagens que o cerca: , não se consegue fugir do já citado lugar comum. Personagens que necessitavam ser melhores construídos (como os pais do protagonista e os militantes contra a ditadura), ficam vagos na trama, se tornando rasos em relação à própria construção do protagonista. Há uma tentativa de suprir esta falha destacando a figura do tio, que ganha um caráter paterno, mas que ainda soa rasa, sendo basicamente um estereótipo da figura sabia de bom coração. Mesmo que consigam imprimir o seu talento nos personagens, todos coadjuvantes não podem ir além do estabelecido.

Benjamín Ávila sabe construir o universo infantil e o confronto sobre a realidade obscura, mas se limita a dar um olhar distante sobre a ditadura, justamente o que deveria influenciar na mobilidade da história e na construção do protagonista. O perigo que deveria rondar o mundo de Juan, para que este possa preservar seu universo infantil, soa distante, nunca parecendo uma influência direta ao mundo deste, soando vaga. Há uma amenização no que deveria ser cruel/violento, ficando bastante visível na utilização de quadros (que remetem às histórias em quadrinhos, algo classificado infantil) em cenas com um apelo mais dramático. O confronto entre a beleza infantil X a rigidez do mundo adulto é trabalhado de um modo superficial. A interferência do segundo no primeiro surge mais como uma ideia do que como uma ação. Por mais que o terror da ditadura crie interferência, esta nunca soa efetiva no seu apelo dramático como grande inimigo da inocência, surgindo mais como uma ideia do que um fator efetivo.

Infância Clandestina, por mais que consiga construir o seu personagem principal, acaba esbarrando na abordagem do mundo adulto, se tornando um filme sensível quando explora a infância, mas vago quando tenta trazer a realidade da época. E quando consegue trazer, acaba trabalhando-o muito apressadamente/abruptamente, vide o final do longa. O contraste entre o cruel versus o puro acaba sendo apenas uma ideia mal trabalhada, deixando um filme muito aquém do que poderia ser.

Poltronas 

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