Inquietos

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Enviado por Luciana em dom, 01/15/2012 - 18:36

Gus Van Sant já esteve em dias melhores quando dirigiu os excelentes Elephant (2003) e Milk - A Voz da Igualdade (2009). Em seu novo pretensioso longa, Inquietos, ele infelizmente pisou na bola. E feio.

Partindo da premissa de que tudo que é sentimental ao extremo faria feliz o espectador, o atrapalhado roteiro de Jason Lew extrapola todos os limites possíveis ao construir uma narrativa enfadonha e desastrosa.
 
Enoch Brae (interpretado pelo apático Henry Hooper) é um garoto visivelmente problemático, cujo principal passatempo é entrar de penetra em funerais alheios. E é justamente em um desses momentos que ele conhece Annabel Cotton (Mia Wasikowska), uma garota que se apresenta como voluntária do hospital local, da ala destinada aos pacientes jovens com câncer, ou como diria Enoch, para descontentamento da garota: "a ala de jovens cancerosos". Está aí um dos principais furos do roteiro, o de insistir em diálogos bobos e descartáveis. Os diálogos que tentam ser simbólicos são sempre superficiais, e estão anos-luz distantes de qualquer coisa parecida com conversas reais entre dois adolescentes.
 
 
Annabel é estudiosa do mundo das aves, insetos e outros animais, e como se isso não fosse o suficiente para causar estranheza em sua personalidade já um tanto diferente, ainda tem uma foto de Darwin na parede do quarto. Mia Wasikowska tem uma atuação razoável, mas mesmo assim, sua interpretação deixa a desejar, fazendo em alguns momentos parecer que está atuando no chamado “piloto automático”.
 
O universo do garoto é o mais esquisito que se possa imaginar, pois em função de alguns acontecimentos ele tem por amigo um fantasma. Isso mesmo, um fantasma. Hiroshi (Ryo Kase) era um piloto de caça kamikaze e que agora, na forma citada, é o melhor amigo de Enoch. O filme chega ao cúmulo de colocá-los em cena jogando batalha naval, isso para não citar determinada cena que beira o absurdo.
 
 
Depois de Annabel contar a ele que não é uma voluntária no hospital, e sim uma paciente com câncer em estágio terminal - o que é tomado por ele com a mesma emoção de quem fica sabendo a previsão do tempo de amanhã, ou até menos - os dois passam a andar o tempo todo juntos, inclusive fazendo planos para que ele a ajude quando a morte se aproximar. O engraçado é que mesmo tendo câncer de cérebro e com a expectativa de menos de três meses de vida, ela não aparenta estar doente, continuando com suas aventuras e passeios com o namorado. Fora um olhar aqui e uma convulsão ali, não seria possível dizer que ela está morrendo.
 
 
A trilha sonora onipresente de Danny Elfman é exagerada e sufocante. E como se isso não fosse o suficiente para dizer: “vejam bem, esta é uma história triste!”, a fotografia de Harris Savides nos apresenta a melancolia das paisagens outonais e a neve do inverno, tentando fazer com que tenhamos certeza de que devemos chorar ao final da narrativa. Por mais que isso seja difícil, para não dizer impossível.
 
Assim como alguns diálogos, algumas cenas poderiam ser facilmente deixadas de lado, como a conversa entre Enoch e Annabel em frente ao túmulo dos pais do garoto, ou a discussão ridícula entre os dois, quando resolvem encenar a morte dela e ele faz um improviso.
 
Para anular de vez a credibilidade do longa, o diretor ainda comete o pecado de plagiar a belíssima obra de Richard Linklater, Antes do Amanhecer (2001), em uma tomada em que nos mostra agora vazios e desabitados os locais antes percorridos pelo casal apaixonado. Encerrando a narrativa de forma lamentável, Inquietos é, indiscutivelmente, um grande tropeço de Gus Van Sant.

Poltronas 

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