A Invenção de Hugo Cabret

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Enviado por Felipe em sex, 02/17/2012 - 21:28

 

Certa vez, Martin Scorsese, meu diretor favorito, disse sobre escrever críticas: “Gosto demais de cinema para fazer isso”. De certa forma, concordo com ele. Para mim, ver filmes e comentá-los acontece de uma forma muito mais passional e pessoal. Quando resolvo escrever sobre algum filme que vi, me sinto preso às regras e normas do que os leitores irão achar aceitáveis. Enfim, mesmo assim existem obras e realizadores que me fazem querer marcar uma mesa redonda (ou algo do tipo) e debater cada detalhe. Alguns deles já morreram, outros estão apenas começando no ramo (ou seguem tentando). Mas toda vez que me deparo com um novo filme de Scorsese nas salas de cinema, eu me re-apaixono pela sétima arte. E agora, com sua aventura em 3D, Marty consegue novamente nos fazer sair da exibição com mais uma história e personagens que ficarão marcados ao lado de tantos outros ícones que o cineasta criou em sua filmografia.

                                   

Iniciando sua mais nova obra-prima com o maior travelling de sua carreira, Marty nos apresenta o “palco” da história e nosso herói, o órfão Hugo Cabret (Asa Butterfield). Hugo vive entre as paredes da estação de trem Gare Montparnasse em Paris e, quando não está observando os habituais freqüentadores do local, está fazendo com que sua presença não seja notada enquanto mantém os relógios da estação funcionando perfeitamente. Sozinho no mundo, Cabret sobrevive da forma que pode, roubando aqui e ali comidas e peças de brinquedos, a fim de consertar um robô (um autômato, na verdade) que foi deixado por seu pai, já falecido (Jude Law).  Transitando entre diversos personagens, Hugo acaba conhecendo Isabelle, uma menina solitária que encontra em livros todas as aventuras que nunca pôde realmente viver e que possui a chave que pode ajudar o amigo a consertar o autômato.

                                          

Scorsese, em sua primeira incursão no 3D, realiza um trabalho fantástico, superando até mesmo Avatar. Muitas vezes as pessoas reclamam sobre a tecnologia bradando que certos filmes não aparentam muito o 3D e o que irrita é que falta a elas perceberem que 3D não se trata apenas de objetos voando em nossa direção e, sim da idéia de profundidade e interação com a obra, algo que é plenamente alcançado em A Invenção de Hugo Cabret. Podemos nos sentir ali, juntos de Hugo e Isabelle enquanto eles passeiam por pilhas e pilhas de livros do estabelecimento do Monsieur Labisse (Christopher Lee), ou então sermos intimidados por Gustave Dasté (Sacha Baron Cohen), o inspetor da estação, quando este se inclina cada vez mais em nossa direção chegando a causar um interessante desconforto. E é louvável que Martin tenha escolhido trabalhar com o 3D justamente neste filme, pois, ao mesmo tempo em que reverencia as primeiras obras do cinema, nos coloca no lugar dos primeiros espectadores. Sim, aqueles que se assustaram ao ver o trem se aproximando deles na exibição do filme dos irmãos Lumiére, e nos faz interagir mais com a obra, algo que estamos perdendo cada vez mais de vista. O cinema já é um “jovem centenário” e é normal que com tanto tempo nas costas (e outras plataformas surgindo o tempo todo) as pessoas percam a fascinação genuína que era causada por trens que se aproximavam, empregados que saiam das fábricas e bandidos que atiravam diretamente em nossa direção. Nesse aspecto, o 3D faz com que possamos nos sentir mais próximos do universo apresentado e torna ainda mais marcante a experiência pelo fato de nos proporcionar a oportunidade de vermos trechos de vários dos primeiros filmes em versões remasterizadas e na tela grande como O Grande Roubo do Trem (The Great Train Robbery, 1903), Viagem a Lua (Le Voyage Dans La Lune, 1902), O Beijo (The Kiss, 1896) e outras relíquias.

Curioso também é notar o quanto o pequeno Hugo é parecido com o próprio Scorsese.  E como a falta do pai reflete no menino a falta que o realizador sente de seu maior exemplo. Não só ele como René Tabard (Michael Stuhlbarg) também representa outra face do diretor. Hugo, Tabard e Méliès são os três lados de Martin: o jovem que ia ao cinema com o pai, o amante das artes que coleciona, estuda e mantém o cinema vivo para as próximas gerações e o realizador, criador dos sonhos que preenchem a gigantesca tela.

                        

Sem querer estragar o mistério do filme para aqueles que não fazem idéia do que se trata, apenas gostaria de registrar que homenagear Méliès, o mágico e cineasta, é um dos maiores trunfos da obra. Afinal, o que é o cinema senão magia? Méliès ainda nos primeiros anos da arte conseguiu criar obras memoráveis e instigantes, pois via naquela invenção algo que duraria por anos e anos (ao contrário dos Lumiére e tantos outros) e segue ainda hoje influenciando novos realizadores.

 A Invenção de Hugo Cabret por mais que seja repleto de relógios durante toda a projeção, jamais nos faz notar a sua duração e lembrar que há um mundo fora da sala de cinema. Engrandecido pela trilha sonora original de Howard Shore (que merece todo e qualquer prêmio), o design de som expressivo de Tom Fleischman, característico dos filmes de Scorsese onde certos objetos ganham destaque por um momento (quase como uma Iris que se abre ou fecha), o design de produção de Dante Ferretti que recria com perfeição a Paris dos anos 30, a fotografia de Robert Richardson, que além do desafio de trabalhar com o 3D ainda consegue compor e trabalhar com diferentes tons de cores para cada segmento da história (flashbacks de Hugo e seu pai que surgem mais estourados, os flashbacks de René que recriam o processo do antigo technicolor de duas cores utilizado em O Aviador e os flashbacks de Papa Georges que ganham cores vivas e nos lembram de uma época de ouro onde toda e qualquer descoberta era um enorme passo para o cinema) e, principalmente, a montagem da parceira inseparável de Scorsese, Thelma Schoonmaker. Aliás, grande parte dos méritos dos filmes de Marty se dá graças à montagem ágil e inteligente que ele constrói junto de Thelma com seus cortes e maneirismos característicos. De fusões a fast motions, planos detalhes curtíssimos a planos com diálogos sobrepostos que levam a história adiante de forma mais econômica.

Se não fosse por Charles Scorsese e o fato dele levar Marty todas as semanas ao cinema, não teríamos mais de quarenta anos de carreira para nos orgulharmos.  E muito menos teríamos essa figura que ama a sua arte incondicionalmente e faz filmes, dos mais comerciais aos mais pessoais, com todo o seu coração. O coração, assim como a chave que faz o autômato funcionar, é o que nós faz voltar tantas vezes àquela sala escura na busca de novas histórias. E, de tempos em tempos, voltarmos para encontrar um mestre que simplesmente tem o dom de nos apaixonar mais e mais por essa arte tão querida e mágica. Um mestre que apenas quer continuar a fazer filmes como aqueles que o moveram quando era criança.

                                

 

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