A Invenção de Hugo Cabret

imagem de Ghuyer
Enviado por Ghuyer em dom, 05/06/2012 - 23:19

Nas mãos de Martin Scorsese, a singela adaptação de um livro infanto-juvenil se transformou em uma fantástica declaração de amor ao Cinema.

Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um garoto que mora dentro dos corredores da estação de trem de Paris. Independente e sonhador, quando não está fazendo a discreta manutenção dos grandes relógios espalhados pelo local, ele foge do inspetor da estação (Sacha Baron Cohen) enquanto tenta reunir as peças necessárias para desvendar o mistério envolvendo a última aquisição de seu pai: um autômato, uma marionete mecânica do tamanho de uma criança. Durante uma de suas investidas para consertar a engenhoca, Hugo é flagrado pelo dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley) que, irritado com os frequentes furtos por parte do menino, toma posse de seu caderno de anotações e o obriga a trabalhar para pagar pelos itens que roubou. Com o passar do tempo, Hugo se aproxima da afilhada do sujeito, Isabelle (Chloë Moretz), que, na expectativa de viver uma aventura, decide ajudar o rapaz a reaver seu caderno.

Filmado em um 3D absolutamente sensacional, A Invenção de Hugo Cabret é um espetáculo visual do início do fim, e a consolidação definitiva dessa técnica cinematográfica. Desde a primeira tomada, que consiste em um plano-sequência deliciosamente elegante que começa com uma panorâmica aérea da Paris de 1930 e termina em um close no rosto do protagonista, até o último frame do filme, Scorsese e o diretor de fotografia Robert Richardson criam passagens de uma beleza ímpar dentro de tudo o que já foi realizado em 3D no cinema.

Depois de ter sido convencido por James Cameron a filmar A Invenção de Hugo Cabret em 3D, Scorsese tratou então de fazer um filme integralmente idealizado para ser exibido em três dimensões. Ao contrário do que a vasta maioria dos cineastas tem feito, Scorsese parou e pensou em todos os aspectos do projeto de modo a explorar da melhor maneira possível as peculiaridades da nova tecnologia. O perfeccionismo do diretor responsável por obras-primas como Cassino e Os Infiltrados fica evidente a cada segundo de projeção, não sendo difícil imaginar que cada quadro de A Invenção de Hugo Cabret tenha sido cuidadosamente confeccionado visando o proveito máximo da captação (e posterior exibição) em 3D.

O fato curioso é que a filmagem em 3D do filme vai, a princípio, diretamente contra o caráter nostálgico da história. A Invenção de Hugo Cabret tem em sua essência uma celebração dos primeiros anos da História do Cinema e, dessa forma, acaba apresentando uma declaração de amor ao Cinema bastante similar àquela vista em O Artista, ainda que diametralmente oposta. Enquanto o francês Michel Hazanavicius tratou de homenagear a sétima arte voltando a seus primórdios ao fazer um filme mudo e em preto-e-branco, Scorsese seguiu outro caminho, e se viu utilizando a mais alta tecnologia disponível atualmente para retratar a eterna Magia do Cinema de modo inédito.

O Artista resgata o que o cinema foi um dia e deixa claro que esse mesmo cinema continua funcionando. Apesar das melhorias técnicas que hoje permitem novas linguagens cinematográficas, o cinema ainda é aquela mesma forma mágica e incomparável de se contar histórias. O Artista volta ao passado para evidenciar essa verdade. A Invenção de Hugo Cabret, pelo contrário, oferece uma janela para o futuro, saudando as novas formas de fazer cinema.

Adaptação do livro homônimo escrito por Brian Selznick, A Invenção de Hugo Cabret representa mais de 500 páginas que o roteirista John Logan teve de resumir em pouco mais de 2h de filme. A narrativa, no entanto, em momento algum parece prejudicada em função dessa inevitável compressão de informações. Logan não só é habilidoso em apresentar o cotidiano dos personagens logo nas primeiras cenas, como constrói um diálogo inicial que explica fatos já ocorridos sem soar expositivo demais, além de incluir os flashbacks que ocorrem ao protagonista no momento certo, evitando que se alonguem mais do que deveriam. E ainda que a narração do personagem de Ben Kingsley no terceiro ato do filme possa soar mais longa que o ideal, a mesma se mostra apaixonada o suficiente para justificar sua extensão.

Embora John Logan já tenha se deparado com material destinado a crianças antes (entre outros projetos, ele também é o roteirista do recente Rango), é interessante constatar que A Invenção de Hugo Cabret se trata da primeira incursão de Martin Scorsese em um universo claramente voltado para o público infantil. Mesmo estando acostumado com narrativas pesadas em meio a filmes geralmente violentos, Scorsese afirmou que faria da jornada do pequeno Hugo uma aventura que sua filha de 13 anos gostaria de assistir. O resultado fala por si. Arrisco a dizer inclusive que o filme é acessível até mesmo para crianças mais novas (minha prima de 7 anos adorou o filme). E o mais incrível é que a trama de A Invenção de Hugo Cabret é simples o suficiente para prender a atenção do público mais novo, ao mesmo tempo em que é interessante o bastante para entreter o público adulto.

Essa força do filme em cativar o espectador, no entanto, não seria a mesma sem o carisma do ótimo elenco. A começar pela tocante performance central de Asa Butterfield, que demonstra uma incrível confiança já em seu primeiro grande papel, pouco se importando em dividir a cena com veteranos do porte de Ben Kingsley e Christopher Lee. Com um olhar ingênuo e obstinado, Butterfield não demora a conquistar o público, e logo todos nós estamos curiosos para saber até onde vai a jornada do nosso pequeno herói. Da mesma forma, sua companheira Chloë Moretz, já acostumada a interpretar personagens tão diferentes quanto uma heroína sanguinária (em Kick-Ass) e uma vampirinha depressiva (em Deixe-me Entrar), não encontra dificuldades em viver Isabelle com uma vivacidade contagiante.

Os dois atores-mirins sem dúvida são o centro da narrativa, mas é fato que o elenco adulto se encontra igualmente competente, principalmente considerando o trabalho do já citado Ben Kingsley, que, para criar um retrato eficiente do velho inventor atormentado com os fantasmas do passado, encontra em breves nuances a oportunidade de aprofundar a tristeza de seu personagem – e se nos irritamos com seu Papa Georges durante a maior parte do filme, é inegável a enorme admiração que sentimos por ele ao final da projeção. Sacha Baron Cohen, por sua vez, é responsável pelos pontuais momentos de comédia da produção, e sua natural veia cômica lhe permite arrancar risadas do público sem grandes dificuldades – e a insegurança que apresenta sempre que contracenando com a florista Lisette (Emily Mortimer, querida como sempre) é o suficiente para evitar transformar seu atrapalhado Inspetor da Estação em algum vilão unidimensional. E ao mesmo tempo em que o eterno Christopher Lee faz o livreiro Labisse soar ameaçador no primeiro momento apenas para ganhar nossa afeição com o passar do tempo, é admirável que o fato do personagem de Jude Law ser visto em apenas um flashback não impeça o ator de cercar o pai de Hugo com carinho e dedicação cativantes.https://mail.google.com/mail/images/cleardot.gif

Além de rechear a trama com recriações de cenas de obras clássicas das primeiras três décadas do cinema, da mesma forma que ilustra como funcionavam algumas pioneiras técnicas de filmagem da época, Scorsese ainda encontra tempo para discutir as questões relacionadas à preservação de películas antigas, martelando na importância dessa prática. Ao mesmo tempo em que constrói o mistério e o drama do filme com paciência e atenção aos detalhes, o roteiro de John Logan também encontra espaço para tornar orgânicas à narrativa todas essas obstinadas investidas de Scorsese na História do Cinema.

Contando ainda por cima com uma maravilhosa trilha sonora de Howard Shore, A Invenção de Hugo Cabret salienta que, por trás daquele Scorsese rígido e sisudo responsável por filmes com alto grau de cinismo como Os Bons Companheiros, existe um sujeito de alma doce pronto para nos agraciar com uma leve e deliciosa aventura fabulesca a qualquer momento.

...

Obs: uma questão crucial referente ao mistério do filme diz respeito à revelação da identidade do personagem interpretado por Ben Kingsley. O potencial dramático da história seria amplamente intensificado caso a cobertura publicitária em cima da produção tivesse o bom senso de não fazer essa revelação. (spoiler): ter consciência desde o início da projeção de que aquele mágico decadente se trata de Georges Méliès não é algo que necessariamente dilui a força do filme. Eu, por exemplo, fui ver A Invenção de Hugo Cabret sabendo que Méliès era um dos personagens da história. Não me parecia relevante saber disso. O que eu não sabia, no entanto, é que boa parte do mistério que move a narrativa se ancorava justamente na identidade desse personagem que, no começo, não se apresenta como tal. Então só posso imaginar o quão surpreso eu poderia ter ficado no meio do filme caso a participação de Méliès na trama me fosse revelada somente no momento certo.

A sorte é que nenhuma criança sequer já ouviu falar em Georges Méliès.

Poltronas 

5

Comentários

imagem de Lana

Enviado por Lana (não verificado) em ter, 05/22/2012 - 16:10

Maravilhoso!! Adorei mais esse trabalho da Emily Mortimer!! Li sobre uma nova série, na qual ela faz parte, que mostrará uma história por trás das câmeras de um telejornal político, com teor opinativo. Eu acho que o Tema de <a href="http://www.hbomax.tv/thenewsroom">The Newsroom</a> é muito legal, além de ser muito interessante. Mal posso esperar pela estréia.

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.