João e Maria: Caçadores de Bruxas

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Enviado por Julia em ter, 01/29/2013 - 13:59

 

        João e Maria: Caçadores de Bruxas é uma grande mistura em tela. Um conto infantil, detalhes dos dias atuais e efeitos terríveis em 3D: todos concentrados em 88 minutos de um enredo fraco e clichê. O longa é baseado no clássico conto João e Maria, e o conto não possui data exata, mas baseia-se em um relato oral coletado pelos irmãos Grimm, no século XIX. Segundo a tradição, ele existiria desde a Idade Média, apesar de ter sido adaptado ao longo dos séculos. Pelo visto, o filme de 2013 passou por uma nova e intensa adaptação, já que os dois irmãos título do longa possuem requintadas armas, técnicas rápidas de luta e seus feitos saem em recortes de jornal.

        O anacronismo, porém, é o menor dos problemas da nova produção. Esta preocupa-se em criar uma atmosfera de ação frágil, na qual apenas a simpatia dos dois atores principais pode dar algum sustento ao que acontece na tela. Jeremy Renner provocou um efeito interessante ao me fazer questionar mais de dez vezes o que ele estaria fazendo nesta produção, já que aprecio seu talento como ator. Gemma Arterton faz o papel que necessita para crescer um pouco na carreira, pois desprovida de grande talento (mas esforçada e carismática, no geral), seu maior mérito é ser parecida com Cobie Smulders em cenas ocasionais. O filme tenta brincar com o conceito de bruxa e mexe com típicos medos que eram característicos na Idade Média, mas desconhecidos pelas crianças hoje em dia, como o medo de florestas, um real perigo nos séculos passados.

        Os efeitos em 3D parecem ter sido feitos por um profissional que descobriu a tecnologia há algumas horas, já que aparecem em sua forma mais simplória e infantil: objetos “voando” em direção a plateia e outros usos não sofisticados do mesmo. Além disso, a fotografia de Michael Bonvillain investe em uma paleta constantemente escura e cinza, que dificulta ainda mais a “apreciação” da tecnologia, já que se torna impossível compreender o que está acontecendo na tela em algumas cenas, como nas lutas e imagens do vilarejo durante a noite.

       O filme possui alguns méritos, e curiosamente, a maior parte deles está na personagem - não na atriz - de Gemma Arterton. Baseado em um conto infantil da região da (hoje em dia) Alemanha e sem data definida, o filme mostra, de forma totalmente anacrônica, uma Maria forte e decidida. Como o longa é destinado para um público adolescente, é no mínimo interessante e positivo ver uma “mocinha” que aponta armas para a cabeça de xerifes preconceituosos, se defende ao ser chamada de “vadia” (um dos insultos mais generalizados para as mulheres), bebe na taverna com um grupo de homens e participa ativamente da caça às bruxas com seu irmão (tarefa deveras violenta em diversos momentos). Ela não cede aos clichês de protagonista feminina frágil e tenta se afirmar como uma legitima heroína. Mas em certos momentos, o filme acaba caindo em lugares comuns, como em alguns aspectos do terceiro ato (spoiler:  no caso, o fato de ela ter sido sequestrada e salva pelo irmão). João e Maria Caçadores de Bruxas não possui tolerância em uma divisão tão generificada no cinema. No longa de Tommy Wirkola (que eu não sei se sabia bem o que estava fazendo) homem e mulher partilham muitos dos papéis antes destinados para um ou outro gênero. É uma pena que provavelmente nenhuma boa atriz aceitaria fazer parte de um roteiro tão ruim para vermos Maria, de fato, como uma heroína plena. Jeremy Renner atua bem em um papel sem graça de um João diabético (exato, devido ao fato de ter sido prisioneiro da Bruxa dos Doces quando criança, aspecto que descobrimos na cena em que ele injeta INSULINA NA PERNA), mas sem arrancar suspiros.

        O saldo do longa, no geral, é negativo. Efeitos ruins, enredo fraco e história que não empolga ou sequer convence. Porém, discordo que seja uma destruição de um conto que tenha habitado a mente infantil. É, como tantas outras, uma adaptação que atende aos pedidos de uma época. Se eles se comportam de um modo anacrônico – sem dúvida – não é um problema, já que este não se propõe a uma fidelidade histórica, mas sim, a construir uma nova história (não necessariamente boa) com personagens já conhecidos.

Poltronas 

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