João e Maria: Caçadores de Bruxas

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Enviado por Ghuyer em qui, 01/31/2013 - 23:41

Há séculos, contos de fada encantam mentes infantis em formação. De tempos em tempos, essas histórias são modificadas, passando de uma geração para outra, migrando entre culturas diferentes, trocando alguns detalhes e absorvendo novas nuances e significados. A Chapeuzinho Vermelho pré Irmãos Grimm é bem diferente daquela que conhecemos na nossa infância. Em uma das primeiras versões, a menina era estuprada e ficava grávida. Daí para ser engolida por um lobo e depois salva por um lenhador... é um longo caminho.

Hoje, ao invés de haverem novas versões literárias dessas histórias eternas, ao mando de executivos de Hollywood convencionou-se adaptar as mesmas para o cinema, porém com uma abordagem contemporânea supostamente mais moderna. (De certa forma, considero as recentes adaptações de Sherlock Holmes pelas mãos de Guy Richie parte do mesmo processo)

O exemplo mais mordaz dessa recente investida mercadológica é a “super” produção A Garota da Capa Vermelha (Red Riding Hood, EUA, 2011), comandada pela mesma Catherine Hardwicke que levou para as telas o primeiro livro da infame série do vampiro que brilha no sol. E o que Crepúsculo (e todas as suas continuações) fazem pela figura do vampiro, degradando-a ao máximo, A Garota da Capa Vermelha faz com Chapeuzinho Vermelho, tornando o conto uma tolice sem tamanho que ofende a inteligência do espectador – exatamente o oposto do que um conto de fadas deveria fazer.

Depois, ainda surgiram: A Fera (Beastly, EUA, 2011), uma visão contemporânea de A Bela e a Fera, que coloca os protagonistas nos dias de hoje; a nova série Beauty and the Beast (2013-) parece seguir a mesma receita, com um toque um pouco mais sombrio; as séries Grimm (2011-), Once Upon a Time (2011-), a primeira usando a fórmula do seriado policial inserida em universo habitado por personagens fantásticos, e a segunda utilizando uma estrutura clássica de fantasia, com uma bruxa malvada e uma princesa angelical – ambas nos dias atuais; só no ano passado tivemos duas adaptações de Branca de Neve - Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, EUA, 2012) e Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, EUA, 2012); e, agora, aparece este João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel & Gretel: Witch Hunters, EUA, 2013).

Acredito que cada pessoa tem o seu conto de fadas preferido, e que nenhuma escolha é menos válida que a outra. Ao mesmo tempo, acho inegável que alguns contos são simplesmente mais fortes que outros. Não necessariamente melhores, não. Acho que o juízo de qualidade não entra na questão. Uma mesma história pode ser maravilhosa se contada de um jeito, e sem a menor graça se contada de outro jeito. Porém, algumas dessas histórias têm uma força intrínseca maior que as outras. Uma mensagem, uma lição de moral. Alguns contos de fadas são imersos em um poderoso pathos não só estético, mas ético. João e Maria é um deles.

A historinha dos dois irmãos que, para acharem o caminho de volta e não se perderem na floresta, vão largando pedacinhos de pão por onde passam, só percebendo que trilha que fizeram sumiu (comida por pássaros) quando é tarde demais e já estão perdidos. Sem saberem para onde ir, encontram uma casa totalmente feita de doces. Encantados, começam a comer... Vocês sabem como acaba.

João e Maria: Caçadores de Bruxas se apropria dessa situação para desenvolver uma premissa maior. Portanto, o que dá certa liberdade à produção é que aqui o conto de fadas serve como ponto de partida para outra história, que vem depois. Não é uma releitura da história, uma adaptação para os dias atuais, ou qualquer variante disso. A grosso modo, é quase uma continuação do conto original. Esse detalhe é, por um lado, o ponto interessante do filme; por outro, o maior problema.

O problema se dá no fato de o roteiro do filme ser quase ofensivamente raso e pouco criativo, assim jogando no lixo a possibilidade de aproveitar devidamente os icônicos protagonistas em uma boa aventura cinematográfica – o mencionado pathos não existe. O bom é que o longa joga João e Maria em um mar de cenas sanguinolentas divertidíssimas.

Dirigido pelo desconhecido e norueguês Tommy Wirkola, Caçadores de Bruxas começa com um prólogo intenso que conta com uma dispensável e breve narração de Jeremy Renner, mas que pelo menos já denota o tom que a narrativa manterá até o final. É um aviso que quer dizer: quem levar o filme a sério não vai se divertir nem um pouco. É verdade. Mas também é verdade que, apesar disso, o filme tem suas falhas, algumas bem graves.

A maior delas já foi citada. O roteiro, escrito pelo próprio Wirkola em parceria com Dante Harper, é de uma obviedade broxante. Além de incluir vários flashbacks que não servem para nada e apenas quebram o ritmo da narrativa, a dupla ainda parece seguir o maior número de clichês possível, como o garoto fã dos heróis que sabe tudo sobre eles, o monstro feioso mas de bom coração, a bruxa do bem, o xerife bundão, a verdade por trás dos pais de João e Maria, o vilão que conta seu plano maligno para os mocinhos... Enfim.

Aliás, é incrível a quantidade de coisa errada com a cena em que a vilanesca bruxa evil from hell vivida por Framke Janssen (primeiro papel de destaque da moça desde X-Men) conta para João (Jeremy Renner) e Maria (Gemma Aterton) o que realmente aconteceu com seus pais. Considerando que praticamente todo o restante do filme parece (acertadamente) não se levar a sério, é incoerente que Wirkola tente extrair algum apelo dramático com a longa (e intrusiva) narrativa da vilã do filme. De tão trágico, o destino dos pais de João e Maria poderia render até uma ópera grega, mas o fato é que fica deslocado demais do resto da narrativa. Justamente por ir contra o tom do resto do filme, a cena ainda perde toda a força que poderia ter.

Mas o decepcionante mesmo é que todo o mistério da trama já é resolvido nessa única passagem. Ficamos sabendo o que aconteceu com pais dos protagonistas, entendemos porque ambos são imunes a feitiços de bruxas, descobrimos porque as crianças estão desaparecendo, e tudo o mais. A sorte é que o filme é bem curto, então a tensão acabar logo aí não é algo tão terrível. O terrível é o clímax anticlimático logo em seguida, quando os heróis destroçam um covil lotado de bruxas com uma facilidade risível. É divertido, mas poderia ser bem melhor. E a necessidade do roteiro em martelar para o espectador que o final da história se passa no mesmo cenário em que ela se iniciou é patética, diminuído a força dessa circularidade narrativa, que seria interessante se abordada de outra forma.

Apostando na violência gráfica exagerada que flerta com o gore descerebrado, a direção de Tommy Wirkola consegue rechear Caçadores de Bruxas com cenas maravilhosamente sangrentas e engraçadas, o que no final das contas é o ponto alto do filme. O que mais poderíamos esperar de um diretor que tem nas costas um filme sobre zumbis nazistas (Dead Snow/Død snø, 2009) e uma paródia norueguesa de Kill Bill? Aliás, a influência de Tarantino aqui é gritante, e basta assistir ao recente Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012) para perceber a equivalência em termos de litros de sangue utilizados nos dois filmes. Dentro desse quadro pintado de vermelho, o destaque, eu diria, vai para um momento de ataque raivoso do ogro vivido por Derek Mears (o Jason do remake de Sexta-Feira 13), já que se trata da única sequência cuja mise en scène funciona adequadamente. Pois, embora inspirado em Tarantino, Wirkola está a milhas de distância da competência daquele enquanto diretor (enquanto roteirista nem se fala), e transforma a maior parte das cenas de ação do filme em um emaranhado de confusão (culpa também do montador Jim Page), onde, entre outras coisas, personagens que estão bastantes distantes um do outro acabam por se encontrarem cara a cara em questão de segundos, ou, durante alguma perseguição, aquele que estava metros atrás acaba por surpreender o outro surgindo em sua frente.

Mesmo com Jeremy Renner e Gemma Aterton para liderarem a narrativa (o que fazem relativamente bem, mesmo sem a menor força de vontade), o elenco acaba se mostrando homogeneamente travado no piloto automático, onde o único destaque vai, de novo, para o ogro de Derek Mears que, mesmo sob quilos de maquiagem, ainda assim é responsável pelas feições mais cativantes do filme. Framke Janssen é uma que está interessante, mas apenas embaixo da cara feiosa de bruxa. Quando aparece com seu rosto ‘real’, a atriz não convence. E é uma pena que a belíssima e finlandesa Pihta Viitala mereça ter o adjetivo “inexpressivo” endereçado a sua atuação na pele da única personagem coadjuvante com algum potencial (além do ogro) e que é terrivelmente mal aproveitada pelo roteiro.

Embalado pela boa trilha de Atli Övarsson e também contando com um cenário medieval feito especialmente para ser destruído de forma exagerada nas cenas de batalha que são povoadas por anacrônicas metralhadoras e afins, João e Maria: Caçadores de Bruxas consegue ser um divertido, violento e irreverente passatempo, mas que perde várias oportunidades de ser um grande filme, o que é uma pena, mas não o fim do mundo.

Obs 1: o 3D do filme é fraco, escuro e excessivamente pontuado por coisas voando em direção ao espectador – um recurso que é bacana apenas quando usado com cautela;

Obs 2: os créditos iniciais do filme são belíssimos;

Obs 3: a paródia de Kill Bill que Wirkola dirigiu se chama Kill Bujio.

Obs 4: existem pelos menos mais três adaptações de João e Maria agendadas para estrearem no mercado internacional em 2013.

Poltronas 

3

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