Kingsman: Serviço Secreto

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Enviado por Rafael em qua, 03/04/2015 - 18:14

Um espião charmoso, sofisticado com licença para matar✓

Um vilão rico e maligno que tem como objetivo destruir a sociedade moderna ✓

Um capanga incrivelmente letal sendo praticamente uma arma viva✓

Gadgets com alta tecnologia que não fazem sentido e que não funcionariam no mundo real, mas que são incrivelmente fantásticas✓

Uma bonita e sexy femme fatale ✓

Locações famosas ou exóticas ✓

Esta é fórmula básica para alguns filmes de espionagem, especialmente para os da franquia James Bond, mais especificamente os da fase Sean Connery/Roger Moore. Tudo era excessivo.  Era como se os roteiristas tivessem feito uma aposta para ver qual deles conseguiria superar o limite da galhofa e no final todas as ideias eram misturadas, nenhuma delas era desperdiçada e todas entravam para compor o produto final.  Às vezes funcionava, às vezes não.  Alguns filmes divertiam, enquanto outros se tornavam engraçados por estes excessos.  007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro (The Man with the Golden Gun,1974) e 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker,1979) são dois bons exemplos desta diferença.

Matthew Vaugh e a roteirista Jane Goldman sabem disso.  Em Kingsman: Serviço Secreto (Kingsman: Secret Service, 2014) eles demostram que crescerem assistindo estes filmes do 007 e séries como Agente 86, The Man from U.N.C.L.E. e Mission: Impossible e que são fãs do gênero em si. Assim com Wes Craven pegou um subgênero do terror e criou esta mistura de paródia com homenagem aos filmes sobre slasher que nos conhecemos como Pânico (Scream, 1996), Vaugh brinca com o universo hiperbólico  dos filmes de espiões. Como resultado o diretor entrega um filme que está consciente desta formula burlesca criada ao longo das décadas pelo cinema e televisão.

Adaptando novamente uma história em quadrinhos de Mark Millar (bem mediana, por sinal), Kingsman: Serviço Secreto narra a história do veterano agente Harry Hart, codinome Galahad (Michael Palin Colin Firth) que tenta compensar um erro do passado recrutando o “Eggsy”( Taron Egerton), filho de um falecido agente que morreu após um erro de Harry.  O jovem com brilhantes características é um rebelde trocando um futuro promissor para andar com seus amigos roubando carro.  Ciente disso, Harry recruta Eggsy como escolhido para participar da seleção de novos espiões e assim se tornar um cavalheiro da Kingsman. Enquanto isso, Harry investiga o assassinato de um de seus colegas morto durante uma missão de resgate e acaba se deparando com uma conspiração global para destruir a sociedade arquitetada pelo bilionário Valentine (Samuel L. Jackson) e sua assistente Gazzelle (Sofia Boutella)

Desde seus créditos iniciais, onde vemos pedaços dos prédios se transformando nos nomes das produtoras e dos realizadores da longa, Kingsman já vai plantando as sementes do que vem a seguir.  É algo engraçado que precede uma cena mais tensa.  Por menor que este detalhe seja, isso representa bem a essência do filme.  É como Matthew Vaugh dissesse “Ei, estamos tentando ser um bom filme de espionagem, mas não queremos ser sério. Vamos deixar isso para o Tom Cruise, Daniel Craig, Matt Damon e toda aquela galera. Queremos ser divertidos. Vamos pegar aquela fórmula clássica e construir um filme que faça graça deste universo ridículo.” E é exatamente esse o maior acerto do filme. Ele é bom em brincar com o gênero de espionagem, mas nunca se achando superior aos demais filmes.  Kingsman  não debocha daquele mundo estranho onde lógica não se aplica, mas sim tira graça por estar abraçando ele como sua realidade. A cena onde Harry explica cada função das gadgets para Eggsy pode ser usada como exemplo da forma como o filme trabalha este humor.

Representando bem o clima do filme é o agente Harry Hart, ainda que não seja o protagonista. Colin Firth consegue criar um personagem engraçado e “bad ass” que nunca surge como uma imitação de James Bond, mas sim como um irmão perdido.  O ator dá uma elegância para ele através dos seus trejeitos. Basta ver a naturalidade que ele se movimenta carregando um guarda-chuva mortífero, como se fosse algo comum.  Firth constrói bem a persona de um cavalheiro, Harry é representado como um nobre, mas nunca surgindo como alguém superior a Eggsy.  Assim quando está ensinando o garoto ele nunca soa forçado como se estivesse lendo frases prontas de um biscoito da sorte. Firth nunca soa forçado como a figura do mentor, sabendo alternar entre as várias camadas do personagem: a figura paternal que se importa como Eggsy, o mentor que quer transformar ele em um agente secreto e o imbatível cavalheiro.

Uma atuação enriquecida pela forma que Vaugh filma a luta do personagem, sempre deixando evidente quando o próprio ator está fazendo a coreografia e não um dublê.  A sequência na igreja é o ponto alto do filme, onde vemos as habilidades do Harry em pleno uso. O diretor combina o plano sequencia com a shaky cam, técnica geralmente usada para dar instabilidade (muitos filmes de ação usam achando que vai dar dinâmica para as lutas quando na verdade só serve para disfarçar a péssima coreografia, vide Busca Implacável 3) dando fluidez e valorizando  os esforço físico  de Firth  e dos demais atores e ainda retrata bem o ambiente louco que o personagem se encontra, nunca ficando confuso com o que está acontecendo em tela.

Porém, tirando as cenas envolvendo Harry, nenhuma outra grande sequência de ação consegue prender o espectador. Vaugh tenta criar muita tensão em determinados momentos envolvendo Eggsy e Roxy.  Tanto a cena do paraquedas quanto a luta final entre o garoto e a capanga com lâminas como pernas (sim, a personagem é tão legal quanto soa) exercem a função, mas não compensam todo o clima construído. A tensão não funciona como o diretor pretendia, já que não parece tem um grande risco para o protagonista. Assim, algumas cenas ficam mais arrastadas do que deveriam. Como já tinha feito em Kick Ass: Quebrando Tudo (Kick Ass, 2010) Vaugh  comete uns exageros visuais, mas aqui não funciona tão  bem quanto funcionou no mundo de super-heróis. A cena homenageando Scanners - Sua Mente Pode Destruir (    , 1981) no terceiro ato representa bem isso.  Começa engraçado, mas vai se arrastado até perder o humor.

Todavia, Taron Egerton consegue se sair bem ao cocriar o irresponsável Eggsy, não sendo ofuscado pelo veteranos. Por mais que o personagem soe arrogante em alguns momentos, Taron transmite carisma suficiente para que possamos simpatizar com o rapaz e torcer para que consiga tornar-se um espião.  Infelizmente o roteiro perde tempo demais com o subplot envolvendo a família do personagem, que só serve para reduzir o tom da narrativa.

Mas como o próprio filme diz, um filme só é tão bom quanto seu vilão, o que encaixa perfeitamente aqui. Samuel L. Jackson demonstra estar se divertindo muito compondo um vilão como vários maneirismos.  A voz que o ator dá para o personagem é hilária por ser calma, fina e ainda sim amedrontadora (exemplo: a cena na alfaiataria). E não deixa de ser engraçado ver um ator que construiu a carreira com personagem mothafockas com um modo de falar tão peculiar. Valentine é quase que uma versão rapper de Bill Gates. Jackson não se limita em criar um vilão comum, trabalhando bem o fato de ele ter uma real motivação para suas ações.  É um bilionário maníaco com plano de destruir a sociedade, mas ele tem uma razão e com justificativas.  Muitos dos filmes de espionagem erram justamente nesta parte.   O vilão é um megalomaníaco com razão e com um grande senso de humor sobre o universo que o rondeia.

Enquanto Mark Strong encaixa perfeitamente como uma espécie de Q, que treina os jovens agentes, Michael Caine pouco pode fazer para um personagem que tem como maior ato ficar sentado, beber e ficar falando mal de Eggsy. Todo plot envolvendo ele soa forçado, já que há pouco desenvolvimento para ações dele. Sophie Cookson também sofre com o pouco tempo em cena, mas consegue criar uma jovem futura espiã forte e inteligente que se importa com Eggsy, mas também quer ser aceita na agência.

Apesar dos tropeços de roteiro e direção, Kingsman é um longa bem humorado, com boas cenas de ação e com personagens cativantes. Mais um divertido acerto na carreira de Matthew Vaugh que consegue manter a reputação de bom diretor.  Com tantos filmes ruins ganhando sequência atrás de sequência (expresso aqui meus pêsames por Marky Mark que é obrigado a fazer mais dois Transformers. Sinto muita pena  dele), ficaria bastante contendo caso Vaugh continuasse a contar mais aventuras  de Eggsy neste mundo. Uma nova visão sobre um gênero que anda perdendo a força para o comum é incrivelmente bem vinda.

Poltronas 

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