Lincoln

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Enviado por Giordano em seg, 01/28/2013 - 21:32

O Neoclassicismo foi um retorno estético e conceitual a valores da fase chamada “clássica” da arte, da filosofia e da política: a civilização Greco-romana. Esse retorno atingiu o ápice após a revolução francesa, no império napoleônico, quando arte e arquitetura voltaram a exercer algumas funções que faziam nessa fase clássica: a de celebrar a História da civilização dominante. Memoriais, colunas, arcos do triunfo, entre outros tipos de construção que solidificavam em mármore as lembranças do povo de sua história política recente.

Nos Estados Unidos da América, o neoclassicismo atingiu uma força maior do que em qualquer outro lugar do mundo. A confiança da política americana na própria interpretação da democracia grega se reflete com força na arquitetura, como é possível ver na própria Casa Branca, no Capitólio, no gigantesco obelisco do Monumento a Washington, e até em obras mais recentes, como o Memorial a Abraham Lincoln.

O filme tem início com letreiros explicando a situação da Guerra Civil norte-americana do século XIX. A fonte utilizada para escrever essas informações é a fonte Trajan. É verdade que não é uma escolha incomum, considerando que, atualmente, é o tipo de letra mais banal encontrado em posters e créditos de filmes hollywoodianos. No entanto, em Lincoln, a escolha tipográfica ganha um significado ainda maior. “Trajan” é uma fonte inspirada nos escritos da chamada Coluna Trajana, construída na Roma Antiga para celebrar os feitos do Imperador Trajano.

Steven Spielberg declara o neoclassicismo desde a tipografia de título e letreiros, e talvez construa, em Lincoln, o mais próximo de um Monumento que o cinema recente chegou.

Não, não é exagero. O conceito de “monumento” define uma estrutura construída mais por motivos simbólicos, que costuma refletir não só o herói ou acontecimento que celebra, mas também o contexto em que foi construído. Afinal, não pode ser coincidência que no ano da reeleição do primeiro presidente negro chegue às telas um filme como este, praticamente hagiográfico do presidente que organizou a abolição da escravidão afro-americana logo após sua reeleição.

Faço a referência ao neoclassicismo aqui não pela estética, mas pelos sentidos que constrói. No entanto, a incrível fotografia de Janusz Kaminski evoca muito mais um outro movimento artístico – o barroco – através do uso de chiaroscuro (técnica da pintura renascentista que gera volume a partir de luz e sombra), iluminação low-key, fumaça, velas e janelas. Mas o motivo pelo qual é feita essa opção se aproxima mais do idealismo neoclássico do que da dúvida barroca. Não há dúvida aqui, apesar das sombras. As sombras do altivo Lincoln de cartola só estão lá para que vejamos primeiro a silhueta, e só depois o rosto. O mito, e somente depois o homem.

Criticar essa opção de Spielberg é mais uma crítica aos valores sobre os quais a política norte-americana se construiu do que uma crítica ao valor de “Lincoln” como filme. Superados os recalques antiamericanos (que é tão irritante quanto o patriotismo ignorante), é possível apreciar “Lincoln” da mesma maneira como se aprecia um Arco do Triunfo. Abraham Lincoln não foi um presidente perfeito, é claro, mas é quase óbvio dizer que foi um dos grandes presidentes, senão o maior que os Estados Unidos já tiveram.

Uma vez li num livro que “a História sempre vai estar incompleta em qualquer estória”, uma frase que me faz muito sentido quando se trata de dramas históricos. Nesse tipo de filme, é preciso fazer recortes. Lincoln não é um filme sobre a vida do presidente, não é um filme sobre a guerra civil, nem sobre o abolicionismo. A politicagem, a compra de votos e a contenção do abolicionismo radical foram, acredito, medidas necessárias para o aceleramento do processo tanto da emenda quanto do fim da guerra civil. E é exatamente esse ponto da história – os estratagemas - que o filme me parece extremamente eficiente em mostrar.

No que diz respeito ao lado familiar de Lincoln, Spielberg não me parece tão bem sucedido. É interessante como Spielberg mostra a preocupação de Lincoln com o filho mais novo, como se esse de alguma maneira representasse o futuro da nação, como no belo momento em que Lincoln lê com seu filho à janela enquanto a emenda é aprovada. Nada mais spielberguiano. Mas o diretor, embora notoriamente afeiçoado ao melodrama (como é possível ver em obras incríveis como A Cor Púrpura O Império do Sol, e em outras menos eficientes como Amistad e o incompreendido Cavalo de Guerra), erra a mão nos momentos melodramáticos que envolvem a esposa, principalmente devido a atuação exagerada de Sally Field (a "Regina Duarte" hollywoodiana), tornando a relação de Abraham e Mary Todd muito artificial.

   

O filme fica realmente interessante quando se concentra na politicagem. Os discursos calmos e anedotas políticas inseridas em meio à retórica de Lincoln são perfeitamente executados pela atuação de Daniel Day Lewis, que trata seu personagem mítico com um exercício admirável de postura e entonação. Já se tornou até mesmo um clichê falar de Day Lewis como o ator que desaparece em meio ao personagem, ou pelo entorno de “melhor ator vivo” que se cria ao redor dele, mas não deixa de ser mais um impressionante trabalho dele.

Um personagem menor na trama, mas tão relevante para a 13ª ementa quanto o homem da cartola, é Thadeus Stevens, que, interpretado com severidade e carisma por Tommy Lee Jones, cria o pêndulo moral da trama ao discutir quando é necessário o controle do radicalismo para que medidas menos ambiciosas sejam tomadas. 

Assim como Spielberg controlou a ação e deixou o melodrama apenas para as irritantes cenas com Sally Field, o compositor John Williams também está controlado aqui, evocando com os sopros o nacionalismo, mas sem exageros intrusivos.

O viés neoclassicista do filme – e da democracia americana – aparece também na retórica de Lincoln, que cita o matemático da Grécia antiga Euclides para refletir sobre a lógica da diferença racial. Assumindo a mística e o mito de Abraham Lincoln, Spielberg tinha o final perfeito em suas mãos, em certo momento do presidente em silhueta.

No entanto, Spielberg parece não seguir outra máxima grega – a máxima narrativa de Aristóteles que diz que algo que pode ser cortado deve ser cortado. Os minutos que sucedem essa cena resultam num engodo cafona e constrangedor que martiriza o personagem-título ao introduzir o famoso assassinato na trama, ao invés de simplesmente sustentar o mito da 13ª emenda, e concentrar-se nisso.

Apesar da infeliz escolha nos minutos finais, Lincoln é um grande monumento neoclássico em forma de filme. Nunca visitei Washington para conhecer o icônico Lincoln Memorial, que foi palco do discurso “I have a dream” de Martin Luther King e de tantos outros discursos – uns supérfluos, outros nem tanto – sobre a democracia americana. Por ora, o mais próximo que cheguei desse memorial, é o idealizado filme de Steven Spielberg. 

 

Poltronas 

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