Mamãe é de Morte

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Enviado por Maza em seg, 08/20/2012 - 11:25

Um filme que vi dezenas de vezes. E faz muitos anos que não retornava a ver, mas ainda assim, a lembrança é das melhores. Dito isso, revisitei Mamãe é de Morte e a sensação continuou a mesma: das mais agradáveis.

Kathleen Turner agarra seu papel de Beverly Sutphin com unhas e dentes, possivelmente umas das maiores atuações de sua carreira. Aliado a isso John Waters realiza um curioso estudo de personagem de forma que em um primeiro momento possa parecer despercebido, mas está longe disso. Observem que Sutphin é uma personagem aos moldes da família politicamente correta: o clássico perfil de família perfeita, está sempre reunida e dialogando com os filhos e marido. Mas qualquer coisa que passe, de alguma forma, a atrapalhar sua família é vista com maus olhos e claro, irá morrer pelas mãos dela. Mas que fique claro, é apenas uma espécie de mecanismo de defesa para com a sua família, pois rixas existem com outras pessoas, mas não a ponto de precisar matá-las. Basicamente é uma pessoa politicamente correta, mas que resolve alguns problemas de forma politicamente incorreta, muito boa a sua atitude (opinião particular deste que escreve). No fim das contas, Sutphin só quer o bem de sua família. O traço que Waters pinta para sua protagonista é preciso: Turner não é uma psicopata por natureza, não devasta todos que vêm pela frente, como já mencionei. Observamos isso através de flashbacks pontuais e que são inseridos à narrativa de maneira breve, mas necessária, como construção do perfil da protagonista.

Apoiado com a montagem eficiente de Janice Hampton e Erica Huggins, Mamãe é de Morte se beneficia igualmente de pequenos recursos que, usados de maneira apropriada não cansam a narrativa ou o ritmo do filme. Entre os que podemos citar estão os flashbacks já mencionados, um inspirado raccord de analogia (quando a cena nos mostra um coração arrancado em um filme trash e logo após ocorre a transposição para um suculento bolo de almôndegas), gags visuais curiosas -- como no consultório dentista do marido de Sutphin, onde temos um quadro que aparentemente traz a imagem de um dente, mas que podemos  tranquilamente identificar ali um par de belas pernas, ou ainda, na locadora do filho quando observamos em destaque o pôster do filme ‘A Morte lhe Cai Bem’ -- e os split screens (que por sinal proporcionam um momento bastante engraçado do primeiro ato do longa).

Talvez um dos grandes acertos do filme seja justamente o roteiro – do próprio Waters – e a questão de exagero em todas as situações, mas não se levando a sério em nenhum momento (incluindo nisso uma voraz crítica à perda de privacidade e virar alguém popular da noite para o dia, não importando o que levou a tal exposição), a tal ponto que até supostas falhas sejam bem aceitas, visto que a ideia é mesmo essa. Só assim para perceber as inúmeras evidências de assassinato por parte de Beverly Sutphin, e no tribunal as acusações sobre elas serem derrubadas, uma após aoutra. As mortes por sinal são as mais variadas, indo desde atropelamento (com direito a ré, é claro), tesouradas e a cena mais espetacular de todas, com golpes de pernil de ovelha.

Mamãe é de Morte conta ainda com uma trilha sonora bastante apropriada, criando uma perfeita harmonia nos diferentes momentos pelos quais o filme passa, desde a serenidade da família popular americana no começo do filme, com o céu aberto e pássaros cantando, até os momentos de tensão que antecedem às mortes (além de Daybreak, a música característica da protagonista, tocada ao longo da obra).

O diretor ainda nos brinda com um toque discreto, mas direto em relação à protagonista: mesmo que saibamos de tudo que Sutphin faz (inclusive sua família, em uma pequena tirada de humor em relação a ela aceitar bem o namorado de sua filha) é apenas na última frase dita do longa que notamos a aceitação, mesmo que de forma subliminar, da 'Serial Mom' e seu perfil psicopata: genialidade nos pequenos detalhes!

Finalizando com mais um delicioso momento de ‘mais do mesmo’, Mamãe é de Morte continua maravilhoso mesmo passados quase 20 anos. Seu humor sagaz e sua crítica ao american way of life, e ao público que adora criar celebridades a qualquer momento continua vivo, intenso e principalmente atual. Mais do que isso, mostra que às vezes qualquer mero desvio de conduta pode ser suficiente para ter sua vida abreviada. Talvez a única coisa que infelizmente seja datada é a cena do pernil de ovelha, quando a velhinha morre pelo fato de não rebobinar fitas de vídeo. Nisso, devo admitir: nem sempre a tecnologia traz bons frutos. Confesso que por algumas vidas a menos, preferiria o modo de vida dos anos 80 e parte dos 90: podem me julgar, mas tipos como Beverly Sutphin vivem no subconsciente de cada um de nós!

Poltronas 

5

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