Nausicaä of The Wind Valley

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Enviado por Pedro em sex, 02/25/2011 - 14:14

Nausíca era a filha de Alcínoo, rei dos feácios, na Odisséia. Seu nome no léxico grego representava o incêndio, o queimar de barcos. É ela, no livro seis, que resgata Ulisses de sua nudez e o leva para junto de seu pai. Em Aristóteles, ela se casa com o filho de Ulisses – princesa dupla. Bela como Artemis, denuncia o próprio Ulisses, num romance tipicamente grego, no qual a bela princesa anuncia que o grande herói, agora mais visto como seu filho (ainda que a diferença de idade entre eles seja grande e óbvia), lhe deve sua vida.

Hayao Miyazaki talvez seja o maior diretor e produtor de animes (além de ser um ótimo mangaka – que pra quem não sabe é o quadrinista que faz mangás) e esse talvez seja seu mais pessoal e seminal trabalho – no sentido de que esta animação lançou seu sucesso pessoal e pautou muitos de seus trabalhos posteriores (eu diria, principalmente, no que concerne sua visão das mulheres como fortes e decidas construtoras da realidade). Miyazaki adaptou muitas coisas, criou universos imensos, mas Nausicaä é seu filho fundador: ele mesmo é o artista e roteirista do mangá original (publicado em sete edições entre 1982 e 1994 – no Brasil todas já foram disponibilizadas pela Conrad Editora – com milhões de cópias vendidas: inclusive algumas por mim) e ele mesmo é o roteirista e produtor da animação. Vista como o trabalho fundador do mais que famoso Studio Ghibli (responsável por ganhadores do Oscar como Spirited Away – A Viagem de Chihiro de 2001), mesmo tendo sido concebida e feita pelo menos dois antes.

Longe do clássico fundador do Ocidente, a história do filme se passa não no início dos tempos, mas no final. Ulisses, Alcínoo, reis e deuses estão mortos (ou morrendo). O mundo pós-apocalíptico de Miyazaki – como o é frequentemente – é de cabeça para baixo. Queimado em sete dias, por deuses-soldados, de suas cinzas nasce uma floresta tóxica chamada Fukai. Repleta de insetos gigantescos, monstruosos e geniosos, essa floresta de fungos, esporos e mofo expele uma poeira tóxica que envenena o Homem com um câncer incurável. As comunidades humanas, então, se limitam a pequenas cidades-nação espalhadas por mundo muito diferente, mas unidas pelos ventos: os mares são tóxicos, chamados frequentemente de mar-ácido. As grandes embarcações de Homero são imensas aeronaves que se assemelham a um híbrido entre os gigantescos insetos e os tanques de guerra e seus pequenos barcos são asas deltas a jato e caças para dois ou três homens.

São os ventos que nos levam a Nausicaä. Princesa do Reino do Vale dos Ventos, uma das únicas nações a herdarem a tecnologia do mundo antigo, ela voa uma asa delta a jato com a perícia de uma Amelia Earhart guerreira. Humana, bela (com seus cabelos ruivos cortados curtos, como era de praxe ao cinema dos anos 80, naquele resgate da figura de Katherine Hepburn, da mulher forte ainda que delicada) e gentil, a princesa ama a todos e é amada por todos. Querida como aquelas princesas míticas de histórias infantis e lendas medievais, Nausicaä é apresentada ao espectador como exploradora – investigando o Fukai com sua máscara de proteção e um conhecimento profundo do funcionamento desse ecossistema extremamente vil ao ser humano – e como naturalista. Aos mais terríveis e temidos insetos, os Ohmu, uma espécie de híbrido entre besouro de muitos olhos e algum crustáceo, dotado de dezenas de pernas e um casco totalmente impenetrável, ela apenas demonstra carinho e gentileza. Conversa com um deles, salvando o espadachim heróico Yupa.

Em seu reino, o drama é a morte iminente do rei, pai de Nausicaä. Ainda assim, o Vale dos Ventos é uma terra quase idílica. Escondida entre vales e uma floresta, às margens do oceano que eles referem como sendo o mar-ácido, a terra de Nausicaä desenha o argumento eco-consciente de Miyazaki – quase perene ao Japão e suas produções culturais durante essa época dos anos 80 e 90. A energia vem de moinhos e o exército é uma brigada de proteção ambiental e agricultural. A tecnologia – uns poucos caças e armamentos – são heranças de uma era supertecnológica que morreu junto com o mundo.

Mas como um bom contador de histórias vindo de um país um dia dominado pela noção fascista de controle total do mundo, de um homem em harmonia com a natureza substituído pelo homem racional que domina e manipula a natureza – como o mítico Godzilla – a história se contorce da paz para a guerra total.

Conforme a história se desenrola, duas outras nações se revelam. A nação tolmekiana e a nação de Pejite. As duas sob a tensão da mesma fantasmagoria: Pejite seria outra nação herdeira da tecnologia do velho mundo. Mas essa tecnologia é um fardo: sob seu solo, escondida embaixo da cidade-nação, um deus-soldado, o último, dorme há mil anos.

Nausicaä é lançada nesse desafio, conciliar um mundo agonizante frente ao terror terrível. Os Ohmu, criaturas geniosas, lançam-se sobre as cidades. Suas dezenas de olhos num vermelho fogo conduzem manadas imensas, que ofuscam o horizonte e esmagam tudo que encontram. Seu estampido furioso é até a morte e suas carcaças inertes semeiam outro foco da floresta fúngica. Pequenos esporos viajam com os ventos envenenado as poucas florestas saudáveis.

Também o homem semeia sua própria destruição. A princesa tolmek quer acordar o deus-soldado e usá-lo para queimar da Terra todo o Fukai. Rouba-o da nação de Pejite mas nada contém o terror desse fantasma do mundo morto – o avião que com a carga roubada cai nos pastos do Vale dos Ventos, matando todos os passageiros e colocando o centro da disputa entre as duas nações bem no quintal de Nausicaä.

A invasão inevitável dos imensos exércitos armados de Tolmek é só o primeiro dos problemas que a corajosa princesa precisa enfrentar para descobrir como salvar os homens e as criaturas que todos consideram monstros mas que ela aprendeu a amar.

Nessa aventura incrível, escapando de monstros furiosos e lutando em fantásticas batalhas aéreas, Nausicaä ainda vai encontrar aliados e encher os corações de inimigos – e dos espectadores – de uma alegria e uma necessidade de ver a vida, mais do que o bem, vencer.

Miyazaki cria uma aventura maravilhosa, com cenários ao mesmo tempo monstruosos e e lindíssimo. O idílico e o alienígena se entrelaçam em florestas de fungos ou no segredo que elas escondem. Das muitas princesas do diretor, essa talvez seja a mais profundamente heróica. Seu cabelo cor de fogo e sua determinação em salvar todos e chorar cada morte, lembra o espectador do respeito e admiração que o animé sempre teve por aqueles trabalhos clássicos da Disney, mas também o lembra da reverência pela pureza de um herói genuíno.

Nausicaä of the Wind Valley é obrigatório pra todo mundo que gosta das animações japonesas e uma ótima pedida para quem conhecer melhor o trabalho de Hayao Miyazaki e o que há de melhor nesse gênero. Também é uma boa lembrança de como as coisas eram feitas antes da era do 3D e da animção por computador.

 

Poltronas 

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