O Último Portal

imagem de Luciana
Enviado por Luciana em dom, 06/26/2011 - 18:11

Ao assistir pela primeira vez ao filme O Último Portal eu já fiquei encantada. Quando descobri que era baseado em um livro, tratei logo de comprá-lo e devorei cada página dele. Trata-se do livro O Clube Dumas, de Arturo Perez-Reverte. O livro, além da história apresentada no filme, ainda conta com algumas (várias) tramas paralelas, uma leitura super recomendada.

A ideia inicial desta crítica era traçar um paralelo entre as duas obras, livro e filme. Mas me abstenho dessa tarefa, já que ao analisá-los em separado, percebi que seria praticamente impossível escrever sobre os dois ao mesmo tempo sem denegrir o filme. Infelizmente a adaptação é precária e deixa muito a desejar. Logo, optei por falar apenas do filme, que é excelente. E recomendo a leitura do livro, tanto quanto recomendo o filme.
 
Dirigido por Roman Polanski, O Último Portal (que pela tradução do título original seria O Nono Portal) tem uma das aberturas mais interessantes a que já assisti. Depois de acompanhar o suicídio de um importante personagem para a trama, a câmera nos leva a um passeio pelas estantes repletas de livros de sua biblioteca, e através do espaço onde anteriormente estava colocado o As Nove Portas do Reino das Sombras, ela nos leva a atravessar exatas nove portas, enquanto nos apresenta os créditos iniciais do filme.
 
 
Nosso personagem principal é Dean Corso (Johnny Depp), um mercenário do campo da bibliofilia. Corso (como vou chamá-lo a partir de agora) é um intermediário, digamos assim, entre os livreiros mais conhecidos, os renomados colecionadores, e é claro como não poderia deixar de ser, as famílias de renomados colecionadores recém-falecidos. E tudo isso movido a uma boa comissão.
 
Ao ser contratado por Boris Balkan (Frank Langella) para supostamente provar a autenticidade de seu exemplar recém-adquirido de As Nove Portas, Corso embarca em uma aventura pela qual jamais imaginaria passar. Balkan é um bibliófilo aficionado por obras que adoram a um único personagem: o demônio. 
 
Depp se mostra, como sempre, totalmente entregue ao personagem. Ele está excelente! É um “ator camaleão”, assumindo as emoções, trejeitos, olhares de seu personagem de forma que cheguemos a duvidar se é mesmo uma interpretação, ou se ele está sendo totalmente natural.
 
Além da atuação de Johnny Depp, vale destacar a de Frank Langella. No papel do misterioso Boris Balkan, sua atuação se mostra bastante acertada. Discreto, mas decidido, Langella cria um personagem que se impõe no filme, até mesmo quando não está em cena, como nos casos em que apenas escutamos sua voz através de seus contatos telefônicos com Corso. Percebemos em poucas palavras quando ele está tranquilo ou bastante irritado com a situação. Nesse segundo ponto há algo a ser destacado: quando do roubo do livro, ao invés de ir para o clichê habitual e esbravejar e ameaçar o investigador, Balkan apenas muda seu tom de voz, e mesmo com sua fala pausada e calma, é o suficiente para sentirmos medo de com quem Corso realmente está lidando. 
 
 
Esse livro, As Nove Portas do Reino das Sombras, que segundo dizem foi escrito por Aristide Torchia em coautoria com o próprio Lúcifer – Torchia teria adaptado as nove gravuras do livro a partir das gravuras feitas por Lúcifer – é um dos únicos três exemplares que se salvaram quando o autor foi queimado na fogueira junto com sua obra. As outras duas cópias estão em poder de outros dois colecionadores, Victor Fargas e a Baronesa Kessler. Esta de Balkan lhe foi vendida por Telfer pouco tempo antes de o mesmo cometer suicídio. As nove gravuras do livro, se bem interpretadas e seguidas de um ritual, teriam o poder de invocar o Príncipe das Trevas.
 
 
 
 
A fim de começar suas pesquisas sobre o livro, Corso decide primeiramente visitar a viúva Telfer para obter mais informações, mas depois disso, coisas estranhas começam a acontecer. Logo ele decide deixar o livro sob a guarda de seu amigo Bernie (James Russo), dono de uma loja de livros raros. Podemos perceber que nesse momento eles são espreitados por um “par de pernas de tênis” através de um vitrô da loja. 
 
Liana Telfer logo tenta reaver o livro vendido pelo falecido marido, e é a partir daí que Corso começa a perceber que o que parecia um simples trabalho, pode vir a lhe custar a vida. Depois do acontecido ele resolve resgatar o livro e mantê-lo a salvo consigo. 
 
Durante suas buscas por informações sobre o livro ele esbarra com uma garota misteriosa (Emanuelle Seigner, esposa de Polanski), que entra e sai de cena como num estalar de dedos. Esses “encontros casuais” passam a ocorrer com maior frequência, fazendo com que ele imagine estar sendo realmente seguido pela garota. Mas aos poucos ele começa a perceber a importância dela em tudo o que acontece, mesmo que não entenda o porquê.
 
Entretanto, é frustrante observar a atuação de Emmanuelle Seigner. Sua personagem sem nome (ou simplesmente "The Girl", para não soltar big spoilers) sempre que aparece tem uma presença vazia e indiferente, não criando nenhuma ligação com o espectador, o que acaba sendo decepcionante, visto que seu papel é fundamental no filme.
 
 
Depois de analisar a fundo a cópia de Balkan, Corso parte em busca das outras duas cópias. Verifica primeiramente a de Fargas e percebe que há diferenças importantes entre as gravuras dos dois livros. A próxima parada é o escritório da Baronesa Kessler, onde ele percebe que além de a cópia dela também apresentar diferenças, as coisas estão ficando cada vez mais perigosas. Comparando as figuras dos três exemplares, ele compreende que além das diferenças algumas são assinadas por Torchia, enquanto outras, por LCF.
 
 
Vale lembrar que tanto Fargas quanto a secretária da baronesa receberam ligações enquanto Corso estava no local. Seria para se certificarem de que ele estaria realmente ali naquele momento?
 
Aos poucos as coisas vão se complicando, e é quando o livro lhe é roubado. Certo de que Liana é a responsável por isso e na companhia da estranha garota, ele parte na tentativa de recuperar o livro. Tudo o que é possível acontece a partir daí, desde presenciar uma seita misteriosa para adorar ao demônio até um estranho encontro com o verdadeiro responsável por tudo o que vinha ocorrendo.
 
Depois de assistir a uma bizarra tentativa de invocação ao Príncipe das Trevas, Corso é levado a uma experiência pra lá de estranha. Aliás, acontecimentos estranhos não faltam nesse filme. Personagens estranhos também não. E o desfecho? Não poderia deixar de ser o mais incomum possível.
 
Além da brilhante direção de Polanski, é importante ressaltar mais dois aspectos do filme. A trilha sonora de Wojciech Kilar é muito adequada ao tema da obra, uma música por vezes clássica e até erudita, que funciona muito bem, tanto nas cenas em que a câmera atravessa os locais, objetos e ambientes em que Corso transita, como também nos momentos de suspense, onde ela fica mais forte e alta, vibrante por vezes. Além disso, um dos maiores méritos do filme é o magnífico trabalho de fotografia de Darius Khondji. Em se tratando de um filme que fala diretamente do demônio, Lúcifer e outros, o tom fortemente avermelhado da película reforça ainda mais as questões presentes desde o início do filme, tais como mortes, tensão constante e crescente, e obviamente o mais importante de todos os pontos, a recorrente lembrança de que o inferno está sempre atrelado ao calor extremo. E nisso, a fotografia acerta em cheio em boa parte do filme, incluindo seu emblemático terceiro ato e junto ao clímax. 
 
O Último Portal não deixa dúvidas de que é um excelente filme. Mesmo este tendo sido lançado na era tecnológica, o cineasta ao lançá-lo quis nos mostrar o quão importante os livros são para ele, e o filme se torna melhor ainda para quem é como ele, fã de livros e que gosta de colecioná-los. Na entrevista de Polanski, nos extras do DVD ele comenta que na cena em que Corso encontra um exemplar de Don Quixote de 1780, o exemplar usado é o original, emprestado por um colecionador.
 
 

E por mais que não cheguemos a entender todos os seus acontecimentos, chegamos ao seu final com a sensação de ter apreciado uma bela obra de suspense noir, com ótimas atuações e com muitos mistérios.

Poltronas 

5

Comentários

imagem de Luciana

Enviado por Luciana em dom, 06/26/2011 - 18:15

Com relação a esta crítica, gostaria de agradecer imensamente aos meus amigos e colunistas do site, o Maza (@Cinefilo_Maza) e a Jana (@JanaNeitzke). A Jana revisou o texto e deu suas preciosas sugestões. E o Maza auxiliou também na revisão, mas principalmente, ajudou na elaboração dos parágrafos sobre algumas das atuações e sobre trilha sonora e fotografia. Trabalho em equipe é tudo!

Obrigada a vocês por isso.

Lu.

imagem de Maza

Enviado por Maza em dom, 06/26/2011 - 18:18

É, isso é uma prova clara do trabalho em equipe ! E quero também deixar regristrado que o Andrey (vulgo @clickfilmes) que auxiliou com vários comentários a respeito de fotografia nos filmes, sua ajuda foi muito importante para o que estava pensando em relação o filme de Roman Polanski.

imagem de Jana

Enviado por Jana em dom, 06/26/2011 - 18:21

Sempre as ordens, Lú, pois foi ótimo ajudar com este texto sobre esse filme super interessante!

Parabéns pela crítica!

imagem de Gustavo

Enviado por Gustavo (não verificado) em dom, 06/26/2011 - 18:49

Bons argumentos no seu comentário Lu.
Mas ousarei discordar mas não acho o filme brilhante.
Assisti ele por volta do ano de 2001 em DVD e pelo que me recordava não havia gostado, mas por tanto você recomenda-lo assisti novamente esta semana e digo que minha impressão não mudou.
Aviso de antemão que não li o livro (mas tenho muita vontade), mas vou me ater ao filme.
A trama é interessante e capta o espectador logo de inicio, porém o personagem de Johnny Depp é apatico e funciona como um robo, muitas vezes parece que ele não tem vontade própria e segue cegamente as ordens do personagem de Frank Languella.
A garota como tu bem afirmou tem tanta expressão quanto uma madeira, mas acho que o comportamento dela deveria ter sido assim devido a natureza do personagem, ela não poderia dar indicios de bondade ou maldade pois "desmascaria" o personagem.
O desenrolar da trama é fluida, porém deixa muitas perguntas. O que não é muito natural num filme de Roman Polanski.
No mais como havia dito, quero ler o livro, mas para o filme dou no máximo 3/5.

imagem de Ghuyer

Enviado por Ghuyer em dom, 06/26/2011 - 19:29

Prefiro rever o filme para comentar criticamente, mas lembro que gostei do que vi quando vi. A trama me intrigou bastante, e direção e narrativa prenderam minha atenção. O final não me agradou muito, mas no geral, eu teria dado 4/5. Mas preciso rever, preciso rever.

imagem de Ghuyer

Enviado por Ghuyer em dom, 06/26/2011 - 21:36

O livro foi lançado no Brasil?

E curiosidade: o filme Alatriste, estrelado por Viggo Mortensen, foi baseado em outra obra do autor.

imagem de Luciana

Enviado por Luciana em seg, 06/27/2011 - 08:39

O nome do Livro é O Clube Dumas e foi lançado pela Martins Editora. Mas pelo que vi na Cultura está esgotado e talvez só consiga encontrá-lo em sebos. Tem o original em espanhol também, esse pela editora Punto de Lectura. Também esgotado no fornecedor.

imagem de Ghuyer

Enviado por Ghuyer em seg, 06/27/2011 - 17:10

Dando uma olhada no IMDb, vi que o título orginal do livro faz referência à trama, que trata sobre amantes de Alexandre Dumas, algo assim.. Como foi essa mudança de foco do livro para o filme, Lu? Qual o papel do escritor francês na história do livro?

imagem de Alexandre Pancieri

Enviado por Alexandre Pancieri (não verificado) em seg, 10/17/2011 - 14:50

Achei o filme muito bom, um dos melhores da época. o suspense e o mistério ali escritos faz a gente ficar com gostinho de quero mais, por isso amigos, se houver algo do gênero mandem a dica para mim no e-mail: xandepan1@hotmail.com
Sou amante de suspense e me interesso em fazer um acervo de tal!
Abraço a todos.
Ps: compro livros, filmes ou documentários sobre mistérios e suspense!

imagem de Mar

Enviado por Mar (não verificado) em qui, 11/03/2011 - 17:36

uauuu... que colocação interessante que foi colocada aqui. Pesquisando sobre o filme pra ver se tem cara de filme de terror. I hate terror. Pelo resumo aqui descrito parece muito bom. Parabéns, foi bom ler www.flak

imagem de Ghuyer

Enviado por Ghuyer em dom, 11/06/2011 - 23:44

De fato O Último Portal NÃO É um filme de terror, como quis fazer crer a publicidade. É um mistério com toques de suspense. O elemento sobrenatural é que dá o toque de 'terror', mas não mais que isso. Eu diria que O Último Portal é tão terror quanto o recente A Casa dos Sonhos.

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.