O Discurso do Rei

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Enviado por Rafael em qua, 02/23/2011 - 10:06

Uma vez Shakespeare disse: “Os homens de poucas palavras são os melhores”. Anos depois essa afirmação seria corrigida por dois homens totalmente diferentes, pensamentos diferentes, classes diferentes, países diferente, entretanto cada um precisava do outro.  A amizade desses dois homens definiu o destino da Inglaterra e é retratada no filme O Discurso do Rei, filme protagonizado por Colin Firth e dirigido por Tom Hooper e que recebeu doze indicações a Oscar deste ano.

Príncipe Albert (Colin Firth), ou Duque de York, sofre com um problema que é inconcebível para sua profissão, a gagueira. Mesmo sendo o segundo filho do rei George V (Michael Gambon, Albert, que não  tem a expectativa de assumir o trono, precisa enfrentar este medo já que com o incrível avança da tecnologia, os reis começam a comunicar seu povo através do radio. Em busca de ajuda para seu marido, Elizabeth (Helena Bonham Carter) acaba encontrando Lionel Logue (Geoffrey Rush) que é conhecido pelos métodos incomuns em relação ao tratamento de problemas de fala, que se propõe a ajudar Albert que terá que se prepara, já que a segunda guerra mundial está a ponto de estourar, época em que todos precisam de alguém que os representem.

O roteirista David Seindler consegue cativar ao mostrar como a batalha de um homem contra a gagueira acabou criando uma amizade, não tirando foco do seu objetivo que é mostrar a luta contra este obstáculo.  Não usando nenhuma grande reviravolta o roteiro consegue usar isso a seu favor, pois a invés de colocar um inimigo ou mais desafios só para exaltar o poder de superação do personagem,  opta sabiamente por  continuar com a batalha entre Albert e o microfone. As construções de diálogos impecáveis acabam conquistando o publico pela humanidade que carregam, sendo demostradas e exaltadas ainda mais pelas fantásticas atuações. Outro grande mérito de Seidler é criar um humor natural para o personagem de Rush que faz oposição ao nervosismo e o medo  de Firth. Todos estes detalhes  acabam gerando fluidez a trama, assim  ganhando o espectador pela  maleabilidade das  sensações que o filme causa.

O desconhecido Tom Hooper é preciso e brilhante dado o quanto consegui extrair dos atores dado o nível  de atuação e composição que cada um dos atores. Se tratando do nível  técnico  a qualidade não varia, pois Hooper coordena com maestria se mostrando que poderá dentre alguns anos se mostrar um grande cineasta.  Seu  talento é visível, vide o modo como trata gagueira de Albert, câmera tremula / nervosa assim com o personagem diante da pressão, ou os planos alternados mostrando o trabalho que Lionel vai fazendo em Albert  e a gradativa melhora.  Fora  o mérito que recebe por conseguir conduzir todo o grau de dramaticidade  da trama uma forma esplendorosa, nunca forçando o choro no espectador.

A fotografia é um show a parte, pois tratada de um modo espetacular, como pode se notar durante toda película. Analisando somente a fotografia usada nos primeiros minutos é perfeitamente simples de se notar o contraste entre o claro, o radialista que vive no mundo onde domina e é considerado um “rei”, e o mundo pálido e  frio onde Albert é dominado pelo medo do discurso onde tudo assusta como o relinche de um cavalo.  Outro exemplo que pode ser usado é o consultório de Lionel que é desbotado, mas ao longo do filme vai ficando radiante e acolhedor refletindo a visão de George e do próprio espectador que vai se familiarizando com o ambiente. A direção de arte não fica atrás contribuindo de um modo sutil, já que seu grande mérito é fazer com que acreditamos na Inglaterra na metade do século XX, tudo isso complementado com detalhes. Temos o grande destaque no visual dado aos personagens, expressando a diferença deles pela vestimenta, com o correr da trama, e unindo usando o mesmo recurso. Tudo isso ao som de uma trilha sonora fantástica que remete a classe de realeza e reflete o nervosismo  nos acordes longos e tensos.

Colin Firth  concebe magistralmente uma atuação digna de vários prêmios, a sua derrota seria uma tremenda injustiça.  Ao começar pela esplendorosa magnitude que da o seu personagem, um homem que vivia nas sombras do irmão, mas criado para ser tudo que não era. Os pequenos  gestos que são emitidos por Firth durante toda atuação, como a mão nervosa diante da gagueira ou o pulsar do pescoço ao encarar o microfone, fazem com que esquecemos o real Albert e acreditemos que Firth é o  verdadeiro rei.  Fazendo o seu oposto, Rush, faz um trabalho onde abusa seu talento em um personagem que impressiona pelo grande carisma e sinceridade que contagia o publico. A atuação de Rush é expressa somente nos olhos, um exemplo é a cena final, que dizem o que o personagem sente, seja admiração pela determinação de Albert ou o medo de falhar. Helena Bonham Carter fazendo a esposa do rei que expressa seriedade e alegria que  mantem o apoio continuo mesmo quando todos parecem desistir, esses sentimentos são algo que Carter demostra com graça e prazer. Destaque para o talentoso, mas atualmente sumido Guy Pearce que mostra que ainda em talento de sobra.

O Discurso do Rei é um filme singelo, bonito e tocante, sendo um deslumbre pelo nível de atuações que contem. A maior vantagem do filme é usar os medos comuns – fracasso e o falar em publico – que pode afligir a todos, criando esse sentimento de familiaridade, ganhando assim a atenção total do espectador. Depois de assistir o Discurso do Rei, Shakespeare mudaria sua afirmação, já que saberia  que os homens que discursam são melhores pela grandeza do ato.

Poltronas 

5

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