O Tempo e o Vento

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Enviado por Ghuyer em sab, 09/21/2013 - 23:48

Acredito que quase todo mundo no Rio Grande do Sul teve que ler no colégio algum dos livros que compõem a maior obra de um certo Érico Veríssimo, aquele escritor que talvez seja o maior expoente da literatura rio-grandense. O Tempo e o Vento sem dúvida é um clássico eterno no coração dos gaúchos. A série de ficção histórica composta por três atos e sete livros narra a saga da família Terra-Cambará através dos anos, e serve de metáfora para as transformações que foram moldando o povo gaúcho com o passar do tempo.

Pertenço a uma geração que, quando adolescente, passou os olhos inquietos sobre o primeiro e depois o segundo volume de O Continente (o primeiro dos três atos de O Tempo e o Vento) entre a 8ª-série e o ensino médio. Seria mentira se dissesse que adorei o texto logo de cara. A leitura parecia maçante no início, demorei a apreciar a beleza literária dos escritos de Érico Veríssimo, mas o tempo todo senti que estava lendo algo grande, no sentido transcendental da coisa que não pode ser muito bem descrito com palavras. Logo depois que passei a me interessar por cinema, não pude deixar de pensar o quão sensacional poderia ser um filme daquela jornada épica. Um não, mas vários. Era uma saga que poderia render vários filmes. O potencial cinematográfico daquela história me deixava empolgado.

Assim, a sensação após assistir a mais recente e pretensa adaptação de O Tempo e o Vento é a de imensa decepção. Um potencial tremendo simplesmente jogado fora.

A história já havia sido adaptada pela Globo em uma novela na década de 1980, a princípio com o único atrativo memorável sendo a personificação de Tarsísio Meira como o icônico Capitão Rodrigo Cambará. Foi uma minissérie produzida em comemoração aos 20 anos da emissora, parece. De adaptação prévia dos livros também existe uma novela ainda mais antiga, da Rede Excelsior, e alguns filmes isolados. Mas o fato é que desde que anunciaram de que havia uma nova adaptação de O Tempo e o Vento a caminho, desta vez uma adaptação (“supostamente”) cinematográfica, expectativas fervilharam.

Em geral, negativamente, visto que a direção do projeto ficara a cargo de Jayme Monjardim, conhecido por dirigir novelas e não possuir grande domínio de linguagem cinematográfica. No currículo tinha apenas um filme, Olga (de 2004), que todo mundo que conheço diz ser um dos piores filmes da década passada. Não vi. Os ânimos ao meu redor eram bem pessimistas, mas eu tinha um pingo de esperança. Além das novelas e de Olga, Monjardim também havia sido o responsável pela adaptação televisiva de A Casa das Sete Mulheres, minissérie da Globo que eu lembro de ter gostado. No mínimo, o sujeito parecia ter algum interesse/conhecimento sobre a cultura rio-grandense. No entanto, depois de ver o filme, posso dizer que o pessimismo que rondava o projeto não era exacerbado.

Apesar do título pomposo “O Tempo e o Vento”, o núcleo narrativo do longa-metragem aborda apenas O Continente, e apenas o primeiro volume do mesmo. Ou seja, já começa aí o desperdício de não criar uma série de filmes, ou uma trilogia. A boa notícia é que o filme pelo menos não tenta comprimir sete livros em 2h. Em todo caso, por ser adaptação de metade do primeiro ato da saga, O Tempo e o Vento (Brasil, 2013) passa a desagradável sensação de ser apenas um enxugado de uma trama maior, um arremedo de pedaços de narrativa que precisam de desenvolvimento mais completo.

Nota-se isso claramente em algumas cenas que, mesmo com anos as separando dentro da cronologia da história, são montadas imediatamente uma atrás da outra, dando sequência a um drama que não se sustenta e soa deslocado de seu propósito, como quando Ana Terra (Cleo Pires) retruca a uma provocação absolutamente gratuita do irmão João sobre o interesse dele por homens. Às vezes, esse drama forçado ocorre na mesma cena, com algumas míseras linhas de diálogo mudando de forma absurda o posicionamento de determinados personagens, como quando o Padre Lara (Zé Adão Barbosa, divertidíssimo), fazendo cara de mau, vai pedir que Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) vá embora de Santa Fé, mas em questão de segundos dá gargalhadas e bate no ombro do sujeito dizendo que o tem em grande consideração. Coerência pra quê, né?

Aliás, o que mais falta nesse filme é coerência, em diversos sentidos. Além dos já citados, o filme peca terrivelmente na estrutura de sua narrativa, que se organizada através da narração de Bibiana Terra já idosa (Fernanda Montenegro) dirigida ao fantasma de Capitão Rodrigo. Sim. Isso mesmo que tu leu. O filme começa com o fantasma do Capitão Rodrigo trotando pelo pampa em direção ao Sobrado, que ele adentra sem que ninguém o veja já que, hum, é um fantasma, e vai ver sua amada Bibiana, que começa a contar a história de sua família em voz alta, enquanto Rodrigo a abraça ou a contempla, tocando violão. Algo que não faz o menor sentido porque 1) ele já conhece a história ou não necessitaria conhecer, visto estar morto; 2) não é preciso mais do que o primeiro motivo para desqualificar tal escolha narrativa; 3) mas eu dou terceiro: considerando o que acontece no final do filme, a presença do fantasma de Rodrigo parece ser apenas um artifício para conquistar a plateia espírita, o que é um golpe de marketing deplorável, que descaracteriza por total a obra de Érico Veríssimo; e 4) por que não fazer Bibiana contar a história da família para o neto? Decisão que faria toneladas a mais de sentido, além de possuir um peso dramático muito mais eficaz. (Obs: sim, a lenga-lenga do fantasma abre e fecha o filme criando uma narrativa circular de forma competente, mas, como dito, é algo que descaracteriza demais o contexto da história, além de desperdiçar a oportunidade de adaptar algum dos outros volumes de O Tempo e o Vento, dando continuidade à série no cinema)

Tentando desconsiderar essa atrocidade narrativa, seguimos acompanhando os pedaços de passado dos Terra-Cambará, sempre interrompidos para algum comentário dispensável de Bibiana ou de Rodrigo. A história vai e volta e o ritmo é destruído sem dó nem piedade pelo roteiro cabreiro de Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas (dois escritores com experiência pouca ou nula em roteirização de filmes), que também insiste em martelar o óbvio e carregar em frases melodramáticas fora de contexto (“Esse homem só apareceu para trazer desgraça a nossa família”, fala a mãe de Ana Terra para a filha, poucas cenas após demonstrar grande compaixão pelo tal homem).

“Mas fico!”, martela o audacioso Capitão Rodrigo interpretado com altas doses de carisma pelo subestimado Thiago Lacerda. E ficamos. Mas é difícil porque a vasta maioria do elenco sofre aquele mal de novela, aquela tendência a enunciar os verbos no infinitivo, o que causa uma artificialidade monstruosa às cenas, algo só equiparado ao desconforto dos atores gaúchos frente às câmeras, relegados a papeis secundários enquanto os protagonistas são vividos por estrelas globais. Ok, entende-se o apelo. E pra falar a verdade, a maioria dos globais faz um belo trabalho, eles são antes um ponto positivo que negativo para o todo do filme. Em uma decisão de casting perfeita, Fernanda Montenegro tira de letra o papel de matriarca cansada da vida e cheia de histórias para contar. Cleo Pires tem o melhor desempenho de sua carreira, oferecendo a atuação mais sofrida do filme todo, ainda que seja vítima de momentos tolos contidos no roteiro (“E se eu tomar um remédio?”, “Vocês mataram o Pedro!”). O já mencionado Thiago Lacerda faz um Capitão Rodrigo tão apaixonado e impulsivo como aquele descrito por Érico Veríssimo, e são dele os maiores momentos do filme (a maioria composta por frases de efeito retiradas do livro na íntegra). E Marjorie Estiano aproveita ao máximo as poucas chances que tem de transformar sua jovem Bibiana em algo além de apenas um rostinho bonito (e que sorriso lindo, meu deus).

    

No entanto, se o núcleo central do elenco é competente (e aí incluo também Paulo Goulart como o vilão Cel. Ricardo Amaral), esse mesmo elenco é vítima de uma direção cafona e desestabilizada de Jayme Monjardim, que parece convencido de que os milhões gastos na reconstituição de época da direção de arte são o suficiente para jogar o espectador dentro do contexto da história – e é incrível como esse aspecto do filme alterne tão bruscamente entre o excelente (a estância dos Terra) e o ridículo (o uniforme militar do Capitão Rodrigo). Para completar, na mão de Monjardim, a mise-en-scène das cenas é pobre e, como se fosse uma novela, mantém a câmera parada em 95% do tempo, e adeus dinamismo.

A trilha sonora melosíssima de Alexandre Guerra é mais genérica do que a definição de genérico dentro do Houiass. É uma trilha bonita, sim, e é agradável na maior parte do tempo, mas não exerce função narrativa nenhuma, servindo apenas como um fundo musical indiferente, que tenta dar aquele ar de imponência ao filme, mas falha no processo, principalmente quando tenta criar melodias enérgicas para as cenas de batalha. Nesses momentos o filme se perde de vez. Sabe quando uma novela tenta ser tensa, simula câmera na mão e deixa rolando uma música mais acelerada? É exatamente isso. É patético. E uma pena.

Mas a maior pena perdida de O Tempo de o Vento é sem sombra de dúvida a fotografia de Affonso Beato. Talvez só o cachê desse cara tenha custado mais caro que o resto do orçamento do filme inteiro. Beato é um cinegrafista brasileiro que foi esperto, saiu do país e ganhou fama nos Estados Unidos e na Inglaterra, inclusive tendo trabalhado para nomes de peso como Stephen Frears, Mike Newell e Pedro Almodóvar. E o trabalho que ele fez em O Tempo e o Vento é absolutamente fenomenal (porém, vírgula). Em uma entrevista, durante as filmagens, ele disse que sempre sonhara em filmar a luz do pampa, que por vezes é apontada como a “melhor luz do mundo”. De fato, realizou seu sonho. Captou a luminosidade dos pampas como jamais ninguém captou. Enquadrou coxilhas, riachos, sangas, campos, tudo com a mais bela técnica, dando vontade de pausar o filme a qualquer momento e mandar emoldurar o frame para pendurar na parede da sala. As tomadas de cena em contra luz ao pôr do sol estão entre os momentos mais visualmente deslumbrantes que tive o prazer de ver no cinema 2013. Porém, a vírgula: tudo é muito muito muito lindo, mas vazio de conteúdo e sem o menor conceito visual. E não adianta tudo ser plasticamente belíssimo, se não serve a propósitos da narrativa. O que faz desse o detalhe mais triste do filme, muito mais do que as várias mortes que vemos ao longo da história.

É incrível todo o potencial que Jayme Monjardim não usou. Não é como se ele tivesse visto o potencial e aberto mão dele. Ele nem viu o potencial, o que o faz um diretor inacreditavelmente amador, cego, e me faz acreditar que os poucos instantes de brilhantismo da produção (como a economia narrativa por trás do simbolismo da roca) sejam obra de outra pessoa envolvida no projeto, seja o assistente de direção, um estagiário ou mesmo um figurante.

Agora, quando a Globo anunciar a versão minissérie desse “filme” (é óbvio que isso vai acontecer), ficará claro o tamanho do desprezo dos produtores não só com a obra original, mas com o público, que foi ao cinema esperando um longa-metragem sólido, e encontraram um recorte de pedaços de algo que foi desde sempre pensado como um produto televisivo seriado e não como um projeto cinematográfico íntegro.

Obs: depois de ir à coletiva de imprensa do filme e testemunhar em primeira mão os comentários cheios de emoção do elenco e da equipe técnica, fico com um dó imenso de publicar uma crítica tão ácida a respeito do filme, sendo tão enfático ao apontar os vários problemas da produção, mas é a verdade. E, por incrível que pareça, quero muito que o filme lucre pra caramba.

Obs 2: se querem ler uma crítica muito melhor (e mais complacente) que a minha, acessem aqui.

Poltronas 

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