Os Descendentes

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Enviado por Giordano em ter, 01/31/2012 - 03:32

Como a maioria das culturas primitivas banhadas pelo pacífico, a cultura hawaiiana eleva os ancestrais familiares a níveis divinos. A relação entre antepassados e herdeiros é uma relação sagrada nessas culturas, e é justamente essa relação que Alexander Payne se propõe a refletir nessa comédia dramática estrelada por George Clooney. Mas infelizmente, o diretor parece esquecer a proposta.

Payne é um legítimo representante do “cinema indie americano” dos anos 2000. As histórias que ele contou em Eleição, Confissões de Schmidt e em sua obra prima Sideways – Entre umas e Outras são comédias (dramáticas) e o autor não tem vergonha disso. Mas tratam-se de comédias que investigam, em algum nível, os variados tipos de relação humana ou, sendo mais direto, a busca por algum tipo de relação humana. E isso não é diferente em Os Descendentes, adaptação do best-seller de Kaui Hart Hemming.

Há dois conflitos principais envolvendo Matt King, um ricaço descendente de uma princesa hawaiiana. O mais forte, evidentemente, é o estado vegetativo em que se encontra sua esposa, e como isso se reflete no relacionamento de Matt com as duas filhas. E o outro é a difícil decisão de Matt e de seus vários primosde vender ou não um terreno herdado da família. Ah sim, e tudo isso se passa no arquipélago do Hawaii.

Coloco a sinopse dessa maneira quase preguiçosa não só por preguiça, mas também para evidenciar o meu problema com Os Descendentes. Primeiro, embora o roteiro faça com que os dois conflitos acabem convergindo um ao outro através de uma absurda viagem do protagonista com suas filhas, esses dois conflitos nunca me parecem estar, digamos, “filosoficamente” conectados, embora tenham tudo para estar. O segundo conflito, o que envolve o terreno e os primos de Matt, parece esquecido em alguns momentos da história. Durante o filme, não cheguei a me importar com essa subtrama, pois os primos sequer são desenvolvidos o suficiente para isso, embora tenham sido apresentados pela narração irônica no começo da trama. E tudo bem, Matt King não era próximo de sua família e a história nos é contada do ponto de vista dele, mas não acho que isso seja desculpa para personagens rasos.

E não deixei para apontar a locação da história no fim da sinopse por acaso. Em minha opinião, o filme parece desperdiçar o ambiente no qual é filmado. E não falo das paisagens, mas da própria cultura local. Não me entendam mal, não estou dizendo que queria ver aquela visão estereotipada do Hawaii com muitos colares e camisas floridas, cocos e surfistas, até por que esses ícones estão presentes no filme de maneira contida (opção que admiro muito) assim como a trilha também evoca os motivos tribais.  Meu problema é que a cultura do lugar é riquíssima para discutir relações de descendência e é uma pena que tenha sido sub-aproveitada no roteiro, que prefere discuti-las através de gags cômicas entre as diferentes gerações que aparecem no filme, em especial nos momentos bobos entre Clooney, seu sogro e o amigo adolescente de sua filha.

Por mim, o filme receberia facilmente o carimbo de “comédia genérica de sessão da tarde”, mas Payne não é um diretor medíocre e tem consigo muitos acertos. A relação entre Matt King e a filha mais velha, interpretada por Shailene Woodley (ótima, por sinal) é muito bem desenvolvida, e é o que carrega a trama, na verdade. Aliás, todas as atuações do filme, mesmo as de Mathew Lillard e Judy Grier em papéis menores, são muito eficientes. Clooney entrega um dos melhores personagens de sua carreira (e eu não acho Clooney um ator excepcional).

 

Em certo momento, Matt King e suas filhas apenas olham de longe o terreno em questão, mas não chegam a interagir com ele, o que mostra uma distância de seus ancestrais. Um acerto para Payne, que mostra isso de maneira sublime e sutil. Há outros momentos desses, mas são sempre pontuais. O que é constante no roteiro são os alívios cômicos.

Sou obrigado a comparar com o recente Compramos um Zoológico, de Cameron Crowe. As semelhanças são várias. Ambos baseados em livros, dirigidos por diretores com apelo indie, tratam de um pai e dois filhos superando a morte da mãe, e de uma decisão impetuosa e absurda que faz com que se aproximem. Ah, e um protagonizado por Matt Damon e outro por Clooney (os dois são muito amigos na vida real). Acho que vou ser crucificado por alguns vários cinéfilos, mas não me julguem por achar que Crowe foi mais feliz em seu filme de zoológico do que Payne em seu filme hawaiiano, que é um dos favoritos ao Oscar esse ano.

Acho que a grande diferença é que Cameron Crowe não se propõe a discutir a relação de descendência de maneira mais profunda, e se propõe apenas a fazer um ótimo feel-good movie. Já Alexander Payne coloca essa questão em jogo desde o título do filme, mas não se aprofunda nela, mesmo com toda a cultura hawaiiana a sua disposição. Os Descendentes também é um ótimo feel-good movie, mas não acho que seja muito mais do que isso. Aloha.

Poltronas 

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Comentários

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Enviado por Ghuyer em ter, 01/31/2012 - 04:14

Não vi Compramos um Zoológico (queria muito, mas nos cinemas aqui perto de casa só tinha dublado), e no entanto preciso concordar com as tuas observações no último parágrafo. De fato, o problema de Os Descendentes é pretender ser mais do que é.

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Enviado por Iradilson (não verificado) em ter, 01/31/2012 - 08:30

Interessante a comparação com We bought a zoo. Quando vi o filme do Payne também lembrei do filme do Crowe, que é bem superior ao primeiro.
Não entendo mesmo esse oba-oba em torno d'Os Descendentes. Não é filme para Oscar. Assim como vários que lá estão na lista de "melhores".

Abraço!

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