Os Suspeitos

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Enviado por Ghuyer em sex, 10/18/2013 - 12:26

Os Suspeitos (Prisoners, EUA, 2013) é o filme policial do ano. Nem todo ano há filmes policiais suficientemente bons para poder apontar um deles como sendo o exemplar de excelência do ano dentro do gênero, mas em 2013 há.

O que mais difere Os Suspeitos da maioria dos filmes policiais lançados de tempos em tempos é a densidade na qual a trama é submetida. Aqui, desde o primeiro plano, o diretor canadense Denis Villeneuve deixa claro que vai contar uma história séria, tensa e dramaticamente forte. A floresta de pinos, tão comum à paisagem dos estados no norte dos Estados Unidos, cheia de neve, ali um cervo surge à distância, evocado pela oração cristã que o pai profere ao ensinar o filho a caçar. Ali o pai está confiante, tem o domínio da situação, e não deixa de esclarecer para o filho a importância de se estar sempre preparado para o pior. E o pior está por vir.

O excelente roteiro do estreante Aaron Guzikowski trabalha a questão da intensidade humana frente a acontecimentos extremos que rompem com a aparente segurança que vigorava até então. O sequestro de duas meninas é o que desencadeia uma série de eventos que mudarão as vidas de duas famílias, e consequentemente é o ponto inicial de duas investigações que se tornarão o foco da narrativa: aquela feita pelo detetive Loki (Jake Gyllenhaal), focada na detalhada racionalização dos detalhes do sequestro, e aquela, mais brutal, iniciada por um desesperado pai (Hugh Jackman) frente à aparente ineficácia do trabalho da polícia. As duas linhas de investigação movem a trama para frente, tanto intrigando em relação aos desdobramentos da história, quanto levantando questionamentos sobre a moralidade dúbia das ações de certos personagens, mas sem formar uma estrutura narrativa esquemática, deixando os acontecimentos fluírem sem um caminho definido, o que remete ao estado de espírito dos personagens e ecoa o simbolismo do labirinto, que desempenha importante papel mais para o final do filme.

Sustentando os dois pilares principais do longa, Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal oferecem duas das melhores performances do ano, certamente pontos altos nas carreiras de ambos. Com expressões fechadas e pontuais explosões de raiva, o primeiro deixa transparecer o desespero de seu personagem ao constatar sua impotência em não conseguir fazer nada para trazer sua filha Anna de volta. E, ao mesmo tempo em que emprega um olhar penetrante e decidido na maior parte do tempo, mostrando a determinação de Keller Dover, Jackman fraqueja a voz ao realizar um interrogatório severo, deixando claro que seu personagem não tira nenhum prazer da situação.

Na outra ponta, Gyllenhaal constrói um tipo introspectivo, e dedicado a tentar conformar as famílias das meninas sequestradas, embora a falta de esperança em seu olhar denote que ele mesmo não confia nas palavras de conforto que saem de sua boca. No entanto, toda a aura de passividade que parece emanar do atento detetive Loki é a máscara de um sujeito cada vez mais irritado com a falta de evidências sobre o paradeiro das desaparecidas. Pequenos maneirismos como o constante piscar dos olhos e as maldições murmuradas ajudam Gyllenhaal a construir um personagem multifacetado que tem sua paciência testada depois de inúmeros becos sem saída – e quando Loki finalmente extrapola seus próprios limites, sentimos a extensão de sua frustração e mergulhamos com ele em uma espiral de emoções desagradáveis.

Nas outras esferas do filme, o restante do elenco também cumpre sua função de modo admirável. Maria Bello mais uma vez compõe muito bem uma mãe desesperada com a tragédia que apareceu para ruir a harmonia da vida familiar, papel que lembra seus trabalhos em Marcas da Violência (A History of Violence, 2005), Encurralados (Butterfly on a Wheel, 2007) e principalmente Tarde Demais (Beautiful Boy, 2010). Terrence Howard e Viola Davis contrastam a vontade crua de arrancar respostas a qualquer custo com questionabilidade dos métodos de tal busca, e é em uma fala de Davis que resume o dilema moral no qual seus personagens se encontram: “Não vamos ajudar Dover, mas também não vamos impedi-lo”. Paul Dano pode a princípio não oferecer uma performance muito complicada, mas, à medida que vamos aprendendo sobre seu Alex Jones, vamos compreendendo a complexidade de sua performance, e o mesmo pode ser dito a cerca do brilhante desempenho de Melissa Leo como a tia do sujeito.

Mas o que realmente faz Os Suspeitos se sobrepor não é apenas o roteiro bem trabalhado, ou o elenco absurdamente afiado, e sim a direção de Denis Villeneuve, que tem o coração dos espectadores na mão o tempo todo, fazendo questão deixar isso claro nos momentos cruciais, em que a tensão se revela absoluta apenas pelo revelar de fatos e pelo confronto de atuações impecáveis.

Os primeiros momentos de Os Suspeitos servem para demonstrar a dinâmica simpática e feliz de duas famílias que dentro em breve irão vivenciar grandes sofrimentos. O mais impressionante é que Villeneuve faz isso já apresentando os primeiros indícios do terror que está por vir, ainda que só venhamos a perceber isso quando é tarde demais. Fazendo com que, a partir daí, tudo o que aconteça em cena seja captado com toda a nossa atenção, porque aprendemos que até o menor dos elementos pode fazer toda a diferença.

Caminhando nessa linha, uma das qualidades mais fascinantes de Os Suspeitos, por sinal, diz respeito à confiança que o projeto deposita em seu espectador. Não há diálogos expositivos para explicar a situação e mastigar as informações, o roteiro de Guzikowski é eficiente em estabelecer o básico através de conversas sucintas e verossímeis com a condição psicológica de cada personagem dentro da história, revelando nada além do necessário e largando inúmeras pistas que só depois se mostrarão como tal. Ajudando a impor um ritmo pausado, mas não monótono à narrativa, a ótima montagem de Joel Cox e Gary Roach faz um uso admirável de fade outs em momentos certeiros, reforçando essas cenas dramaticamente por quebrar a ação que dali em diante seria facilmente dedutível pelo espectador, o que também funciona como uma economia narrativa exemplar. Juntando todas essas pontas, vem a segura direção de Villeneuve, que passa grandes informações apenas através de imagens, descartando cenas esquemáticas e gerando um filme visualmente rico – notem como as paredes rabiscadas da casa do homem fascinado por labirintos esclarecem o psicológico deturpado do sujeito; um trailer de brinquedo que aparece sendo manipulado, ilustrando uma possível característica do homem que dirigia o veículo de verdade; o apartamento destroçado de Keller, que representa a degradação emocional pela qual passa o personagem.

Para falar do visual do filme, é impossível não citar o trabalho majestoso do mestre Roger Deakins na direção de fotografia. Um dos melhores cinegrafistas da História do universo, Deakins mais uma vez mostra seus talentos para compor enquadramentos belíssimos que absorvem as locações e os cenários de modo a impactar o espectador e fortalecer o drama proposto pelo roteiro de Guzikowski e pela direção de Villeneuve. A floresta da primeira cena, com os pinos riscando a vista como se fossem as grades de uma prisão, remetendo ao título original do filme, prisioneiros, é apenas um exemplo.

Ao utilizar as sombras e o contraste da neve para fortalecer a opressão na qual os personagens estão submetidos, em trabalho ritmado à bastante sutil, mas impecável trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, que cria uma atmosfera de tristeza arrasadora, Deakins e Villeneuve mergulham a narrativa em uma atmosfera pesada, remetendo a um clima de prisão, de estar preso a uma condição e não conseguir sair dela. Tema que é a constante do longa. O fato de haver mais de um personagem literalmente preso (há pelos menos quatro “prisões” no filme) em determinados momentos é apenas ilustrativo, visto que apenas reforçam a ideia da prisão metafórica à qual as pessoas daquela história estão enclausuradas, impossibilitadas de fugir.

Assim, desenvolvendo a ação com cautela, o longa deixa de ser apenas sobre uma investigação e se transforma em um poderoso drama sobre relações humanas recheado de questionamentos éticos, porém sem cair no maniqueísmo, sempre fugindo de soluções fáceis, e jamais enfraquecendo a intriga do mistério que move a trama, graças à inteligência do roteiro de Aaron Guzikowski e à mão firme da direção de Denis Villeneuve, que juntos entregam um dos melhores filmes do ano, sem a menor dúvida. 

Poltronas 

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