Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas

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Enviado por Giordano em sex, 02/18/2011 - 12:46

"Peixe Grande & Suas Histórias Maravilhosas” tem início com a imagem de um lago, no qual nos aprofundamos, onde conhecemos o peixe do título, que de fato, é grande. E não só o maior do lago, como o mais esperto, já que passeia pelos anzóis sem se deixar atrair por nenhum. Descobrimos então que o único homem que conseguiu pescá-lo foi Edward Bloom.

Das inúmeras metáforas presentes no filme, algumas óbvias e outras nem tanto, o peixe é sem dúvida a mais rica em significados e aberta pra diferentes interpretações. Sendo assim, não é errado dizer que o peixe representa a epítome de tudo aquilo que Bloom ambiciona, apesar das dificuldades. Essa é, sem dúvida, a mais superficial das análises. E como o filme insiste em mostrar, o peixe também é Edward Bloom, um homem que jamais se deixou capturar, a não ser por si mesmo, com uma aliança de casamento oferecida a uma mulher. Então de certa forma, a história do peixe que abre o filme não passa de um auto-elogio.

A narrativa de “Peixe Grande” se desenvolve a partir do confinamento final de Bloom: a morte. Debilitado, de cama, frágil como nunca esteve, Edward conta com o apoio da mulher e do filho com quem não falava há três anos. No começo do filme, através de uma seqüência de belas elipses, conhecemos a maneira como a prática de Bloom de contar histórias fantasiosas de sua vida a todos a sua volta. Will Bloom (Billy Crudup), o filho, vai aos poucos perdendo o interesse, a paciência, e principalmente, a crença nelas, o que culmina na noite de seu casamento, depois da qual pai e filho cortaram relações. Sandra Templeton (Jessica Lange), mãe de Will e esposa de Edward, mantêm o mesmo interesse e paixão ao ouvir as histórias de seu marido, mas também compreende o filho ao tentar equilibrar o ambiente. Por fim, Josephine (Marion Cotillard), esposa de Will, é cativada pelo sogro através do romantismo das histórias que ele conta, o que deixa agrava a crise de Will.

Ao analisar a filmografia de Tim Burton, é possível perceber a recorrência da figura do “pai” em sua obra. O pai de Edward Mãos-de-Tesoura o deixou incompleto. O Pingüim busca incessamente descobrir quem são seus pais. O pai de Ichabod Crane matou a mãe do menino. O pai de Willy Wonka não o deixava comer doces. E por aí vai. Mas os traumas de infâncias e os problemas familiares dos personagens de Burton estão sempre no passado, como parte da história do personagem. Aqui não. Aqui é o foco da narrativa. A relação de pai e filho. Aliás, neste filme, Tim Burton prova que não precisa se limitar à fantasia do universo que toma conta de seus filmes, uma vez que torna as relações familiares tão, ou até mais interessantes que as histórias contadas.

Primeiramente, penso no núcleo familiar. As discussões de Bloom e Will. Na primeira conversa dos dois, percebemos a fragilidade de Bloom ao pedir um copo d’água, o interesse de Will em criar uma parceria com o pai, ao se oferecer para tomar metade do remédio do pai, e depois percebemos que essa aproximação tem uma segunda intenção, a de tentar convencer o pai a lhe contar o lado verdadeiro, realista, sem floreios de sua vida. Nessa primeira conversa, percebemos o tipo de pai que Bloom foi “Ter filhos muda tudo. Trocar fraldas, aniversários, e acordar a meia noite” e não nos surpreendemos quando ele admite jamais ter feito nada disso “Não fiz, mas ouvi falar a respeito”, e a frase que define a frustração dele em ter um filho normal “A gente passa anos tentando corromper uma criança para ele crescer perfeitamente bem”. Na cena à mesa, vemos a insistência de Bloom em dar credibilidade a sua história, sobre os papagaios africanos que falam francês, mesmo Josephine já tendo ido ao Congo. E por fim, a cena em que Will tenta pôr tudo em pratos limpos, ao tentar usar a metáfora do iceberg ao compará-lo com o pai, por o conhecer muito pouco ao questionar a veracidade de suas histórias, e lhe pede para ser ele mesmo. O pai rebate “eu tenho sido nada além de mim mesmo minha vida toda, e se você não pode ver isso, é problema seu!”. O curioso, é que logo após essa discussão, Will tem a impressão de ver o peixe das histórias do pai na piscina, como primeiro vislumbre de que está perto de conhecer quem realmente é seu pai.

A piscina é, inclusive, o símbolo do confinamento de Edward. Em mais de um de seus contos, percebemos a fixação com a água. Ao acabar confinado em casa, sua ligação com o mundo de suas histórias era a artificialidade de sua piscina. A válvula de escape. Ficava ali, imaginando ser o peixe sobre o qual tanto fala, e que de fato é. E é nessa piscina que Will vê o peixe, momento no qual começa o processo de compreensão do pai. 

Já a relação com a esposa na semana derradeira de sua vida é traduzida numa das mais belas cenas não só do filme, mas da carreira de Tim Burton. A Sandra velha e madura aproxima-se de seu marido, submerso na banheira “brincando de peixe” novamente, num jogo de plongée e contra-plongée. “Eu estava secando” ele diz, para justificar o fato de estar na banheira, mesmo com roupas. Sandra percebe que Edward sente falta de si mesmo, da antiga falta de amarras com que levava sua vida, e procura participar da liberdade ao fazer o mesmo que o marido e entrar na banheira, mesmo de roupas, e abraçá-lo, sem hesitar, num ato de despedida e aceitação.

Mas o que torna Edward Bloom um homem tão diferente dos demais, tão interessante, tão cativante? A resposta mais rápida é a confiança, e a origem da confiança é explicada por meio do Olho da Bruxa, no qual é possível ver a própria morte. Bloom pesa os dois lados. “Saber como você vai morrer pode ser bom e ruim. Ruim porque você pode enlouquecer se só pensar naquilo, mas por outro lado, você vai saber que sobreviverá a todo o resto”. Ele opta por ver, e é isso que gera a auto-confiança que muda a sua vida. Se essa história é real ou não, pouco importa. Todas as histórias de Bloom, sejam elas mentiras ou não, elas falam muito mais sobre quem é Edward do que fatos e documentos.

Com essa confiança, Bloom conquistou o respeito da pequena cidade de Ashton. E percebemos isso na sua parábola sobre crescimento exagerado, que sem dúvida, é simbólico e não literal, para Bloom perceber que era um “peixe grande num aquário pequeno”, percepção que vale para o gigante Karl também, que nada mais é do que a personificação das ambições de Bloom e o fato de serem grandes demais para uma cidade tão pequena.

Sobre a cidade perfeita de Spectre, como o nome já diz, ela é um espectro que vem e vai da vida de Edward. Da primeira vez que ele atinge a “vida ideal”, é cedo demais. E da segunda vez, já é tarde. O conformismo e a ignorância do lugar tentam prendê-lo, por isso o roubo dos sapatos, para que sair dessa zona de conforto estável seja um caminho árduo, para que poucos realmente saiam dela. Por isso, é interessantíssima a frase que Edward profere ao sair da floresta e ao ser questionado por Karl “O que aconteceu com seus sapatos?” “Foram na frente.”

Essa determinação é também a chave para conquistar Sandra Templeton, garota por quem se apaixona em uma das cenas mais românticas do cinema recente. “Dizem que o tempo para quando você conhece o amor da sua vida. O que eles não dizem é que quando volta, volta mais rápido para alcançar” sendo traduzido ao pé da letra. Sandra é idealizada ao máximo, chegando a ter seu rosto iluminado, e embaçado por um soft-focus (técnica de lente e luz para reduzir imperfeições no rosto, bastante utilizado nas estrelas da era de ouro de Hollywood).

A partir daí, a história de amor passeia por momentos exagerados e momentos simples, desde o trabalho no circo em troca de informações sobre a moça, o mar de narcisos, a briga com o rival que o inveja desde a infância, a guerra os separando, e por fim, o reencontro. Vale lembrar que é através dessa história que Bloom consolida a admiração que sua nora Josephine está construindo por ele.

Tão interessantes quanto as peripécias de Bloom são os coadjuvantes que tem seu próprio arco dramático dentro das histórias. A começar pelo gigante Karl, evidente espelho de Bloom, mas sem sua esperteza, já que acaba manipulado por Amos, o dono do circo interpretado por Danny DeVito. Amos, no caso, parecia um personagem plano até descobrirmos que era de fato, um lobisomem facilmente manipulado com uma brincadeira com um galho, cena na qual até seu fiel ajudante, o palhaço anão Mr. Soggybotton, ganha uma complexidade maior, ao hesitar em atirar no patrão, crise representada pela lágrima manchando o rosto maquiado.Outro personagem é o poeta Norther Winslow, cujos anos que passou na cidade ideal de Spectre o bloquearam para a poesia, ainda que não percebesse isso e se sentisse confortável tendo passado dez anos trabalhando numa poesia de três frases simples. Bloom expande seu ponto de vista e o faz perceber que há um mundo lá fora, com bancos para serem assaltados.E pelas razões erradas, acaba enriquecendo, e dando a Bloom a casa no qual o sujeito viveria seus anos finais.

Por fim,  um outro personagem, mas de complexidade maior, é Jenny, construida por uma ótima atuação de Helena Bonham Carter. A jornada dessa personagem é cíclica, e é, ao mesmo tempo, paradoxal. Conhecemos Jennifer Hill como a menina que rouba os sapatos de Bloom e lhe conta sobre o peixe que surge para cada um de forma diferente (no caso de Bloom, uma mulher nua). Bloom lhe faz a promessa de que voltaria, mas a cumpriu tarde demais, frustrando Jenny, que acabou por se tornar um clichê, uma mulher amarga que dá aula de piano numa casa cheia de gatos, ou na concepção de Bloom, uma bruxa com um olho mágico: a mulher que o fez perceber como seria seu fim quando ele ainda era uma criança. Confuso? Um pouco, mas nem tanto. Para Burton e Bloom, pouco importa a cronologia dos eventos, e mas o significado construído na jornada do personagem.

A trilha lúdica de Danny Elfman é emocional, divertida e jamais ameaçadora, mesmo nos momentos mais sombrios, já que Bloom jamais se sente realmente ameaçado, uma vez que nada abala sua confiança. A fotografia e a arte do filme criam um conceito interessante, que dá ao espectador a sensação de estar folheando um livro de contos de fadas ilustrado, cada um desses contos em tons diferentes, desde a cena mais sombria da casa da bruxa, passando pelo visual idílico do campo de narcisos, às cores do circo, chegando até a caricata guerra do vietnã, mas todos esses ambientes constroem o mundo onírico de Edward Bloom de maneira homogênea, e que contrasta com a plenitude das cenas familiares,  ilustrando a calma com que Bloom “se vai”. 

No ambiente das fábulas de Bloom, o design de produção se concentra, também, no lúdico: matte painting, maquiagem carregada, miniaturas, aranhas de plástico, bonecos eletrônicos de cobras e lobisomens, e por aí vai, criando emoções pueris nos espectadores, sem no entanto, perder a organicidade. Mas não só na fantasia se concentra a proeza do design do filme. Tudo na casa de Bloom exala a tal plenitude, calma e tranqüilidade, nada mais fatal para um personagem como Bloom que uma casa de comercial de margarina, quadros da família na parede Enquanto a piscina, sua ligação com o mundo exterior, fica cada vez mais verde e cheia de limo, e porque não, próxima do mundo das histórias do pai, até ser tratada pelo filho.

Sobre as atuações, Ewan McGregor e Albert Finney em perfeita sintonia. O primeiro representando toda a energia e vitalidade juvenil do personagem, o segundo mostra toda essa energia confinada na cama. Jessica Lange e Alison Lohman concentram a ternura que amadurece a longo dos anos em Sandra Templeton. Billy Crudup ótimo como o filho, que surge desde as primeiras cenas como o oponente do pai e a princípio, gera a antipatia no público, e conforme o compreende, ganha a simpatia, perdendo a frieza. Marion Cotillard, em começo de carreira, explora ao máximo sua pequena personagem Josephine, com a força no olhar que já apresentava ter.  Outra atuação é a da já citada Helena Bonhan Carter, que transita entre uma fase e outra da vida de Jenny com imensa naturalidade, sem no entanto, perder o  aspecto bizarro da personagem. 

Peixe Grande pode ser uma história de pai e filho. E pode ser uma discussão entre imaginação e realidade. Ou um elogio à oralidade das histórias. E é evidente que é tudo isso. Abre-se uma gama de significados a cada historinha, e através delas, torna-se possível para Will compreender o pai, que está partindo. Bloom, o homem da momento, que ganha seu aplauso final na espetacular sequencia que fecha o filme, a ligação definitiva entre pai e filho, e a coroação da primeira e mais importante história que ouvimos: a do Peixe Grande. Em seguida, ouvimos "Man of The Hour", do Pearl Jam, concluindo a nossa jornada pelo maneira de ver o mundo de Edward Bloom. 

 

 

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