Raul Seixas - O inicio, o Fim e o Meio

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Enviado por Giordano em seg, 04/23/2012 - 14:44

O Brasil não tem uma tradição forte em filmes de rock. Talvez isso se deva ao fato de que o rock’n roll brasileiro tenha, no geral, uma característica de colônia muito forte, sem uma personalidade homogênea construída, e um desenvolvimento bastante segmentado de acordo com o estilo vigente no hemisfério norte. É curioso então que o roqueiro com mais personalidade da história da nossa música popular seja também aquele que mais assume a sua condição de colono.

Curto Raul Seixas desde pequeno. Gostava de Harry Potter e de Rock’n Roll. Unindo os dois gostos, me parece natural que eu tenha me tornado fã do Raulzito. Pode não parecer, mas há uma lógica nisso. Minha porta para o interesse na obra dele provavelmente está ligada às ciências ocultas nas quais J. K. Rowling me iniciou. Não que eu fosse uma criança satanista, mas eu era uma criança que sabia quem era Aleister Crowley (na época, até tentei ler alguns bestsellers do Paulo Coelho, mas não deu). Então, antes de conhecer  o mito do “Toca Raul” ou do Raul subversivo, eu conheci o mito do Raul dos cultos pagãos. Faço essa digressão para concluir que, dadas às devidas proporções, Raul é um dos poucos artistas brasileiros com uma faceta absolutamente mutável, mas de essência homogênea, como um Dylan ou Bowie. Se um filme de ficção fosse feito sobre Raul, o caminho mais apropriado seria o mesmo que Todd Haynes seguiu em sua biografia de Bob Dylan, Não Estou Lá: vários atores, vários personagens, vários mitos, mas uma só pessoa. 

No entanto, o filme de Walter Carvalho, Raul: O Início, o fim e o Meio não é um filme de ficção, mas sim um documentário. Trata-se de um gênero (opinião minha, mas a terminologia de documentário como “gênero” é altamente discutível) com certas liberdades que podem facilmente se tornarem prisões. Ao determinar as diretrizes de seu projeto, um diretor está orientando, mesmo que indiretamente, um discurso. E quando se trata de um documentário biográfico de uma personalidade conhecida do espectador, há geralmente dois caminhos discursivos: a mistificação e a desmistificação. Se o primeiro é geralmente visto pela academia como um caminho em direção à ignorância, o segundo corre o risco da banalização e descaracterização do seu objeto de estudo. Adaptando um pouco uma máxima da doutrina budista, sábios são aqueles que encontram o caminho do meio.

Voltando a falar de Dylan (e é muito apropriado que eu fale de Dylan aqui), Martin Scorsese conseguiu com êxito encontrar o caminho do meio em seu documentário épico No Direction Home. Walter Carvalho segue por um caminho parecido. Como Scorsese, o excesso de imagens de arquivos valiosíssimas e uma escolha pontual dos entrevistados constrói um panorama cronológico e contextual muito bacana sobre esse personagem fascinante que é o Raul.

Nesse tipo de filme, o fator determinante é a qualidade e o conceito da edição. Juntar entrevistas umas às outras estabelecendo relação de complemento ou contraponto não é fácil como parece. O trabalho de Carvalho e de seu montador Pablo Ribeiro é capaz de criar curvas dramáticas e pontos de virada, algo dificílimo nesse trabalho artesanal que é a montagem de entrevistas. É possível perceber isso no momento que explora a relação da empregada Dalva com o cantor, na curiosa polêmica sobre os laços perenes de Paulo Coelho com o satanismo e no conflito de pontos de vista sobre a turnê final de Raul Seixas com Marcelo Nova.

A pluralidade de pontos de vista é um dos meios de atingir o equilíbrio entre os dois caminhos que eu citei antes. Para não permanecer envolto na névoa da lenda de Raul, o diretor busca depoimentos variados sobre a situação a fim de investigar com minúcia o que aconteceu em determinado momento, o que é respeitoso à pessoa. No entanto, demonstra ter respeito não só à pessoa, mas também ao ídolo. Carvalho costura seu filme com passagens sobre o culto ao redor da figura de Raul Seixas, desde fãs, até covers e gente que batizou o nome do filho de “Raul” devido ao cantor.

Já vi críticas negativas em relação à inclusão do culto de fãs no filme. Bom, eu defendo até a morte o conceito popular de “mito”. Eu sei que esse termo passou por tanta turbulência através dos tempos até se tornar um conceito meio frankenstein que engloba de Jesus Cristo a Pelé, passando por Papai Noel e Frodo Bolseiro. Mas é mesmo desse conceito conotativo que eu falo, do personagem simbólico que transcende a barreira da existência física pra se tornar mais que uma pessoa, um significado. Mas a “desmistificação” e o ceticismo estão cada vez mais na moda, e acho essas práticas tão nocivas quanto o misticismo descerebrado. Por isso, digo que para compreender o significado de Raul Seixas, não basta entender a pessoa. Tem que entender o mito. E Walter Carvalho é muito bem sucedido nisso.

Falando em misticismo, impossível não invocar a sincronicidade junguiana para falar do espirituoso momento de Paulo Coelho com uma mosca no filme. Não sei até que ponto foi uma coincidência, mas mesmo que não tenha sido, palmas. Mesmo que seja um acaso premeditado, a ideia de um membro da equipe guardando uma mosca em um vidro até o momento de soltá-la na entrevista do “mago” me diverte bastante. E se foi um evento sincrônico de fato, arrepios.

Falei pouco de música até agora, o que é um pecado. Cometi, nesse texto, um dos grandes erros que a maioria das cinebiografias musicais comete: concentrar-se somente na pessoa  sem investigá-la na obra. Um erro que Walter Carvalho não comete em seu filme. Apesar de dissecar bastante a sequencia de fatos que levaram o cantor da vida ao mito, o diretor jamais se esquece do elemento que levou os espectadores a assistir ao filme: a música. Entendendo a mistura de rockabilly e folk music com estilos populares brasileiros e o seu conceito de “desapropriação” de músicas referenciais, entendemos ainda mais a figura que compôs “Sociedade Alternativa”, “Maluco Beleza”, “Eu nasci há dez mil anos atrás”, “Ouro de Tolo”, “Rock das Aranhas”, “Medo da Chuva”, “Gita”, “Cowboy fora da Lei”, “Al Capone” e, é claro, “Metamorfose Ambulante”, música na qual o roqueiro nos entrega a melhor definição possível para a sua própria carreira.

Enfim. Não, o Brasil não tem a tradição de filmes de Rock. E as tentativas recentes não se sustentam. Apesar da excelente atuação de Daniel de Oliveira, “Cazuza – O Tempo não Para” é medíocre. O documentário “Rock Brasília”, de Vladimir Carvalho, é bastante irregular. Espero que esse filme do Raul estimule a produção, que já vai contar com dois filmes sobre Legião Urbana esse ano.

Deixo vocês com minha letra favorita do Raulzito! Toca Raul!

É pena que você pense
Que eu sou seu escravo
Dizendo que eu sou seu marido
E não posso partir

Como as pedras imóveis na praia
Eu fico ao seu lado sem saber
Dos amores que a vida me trouxe
E eu não pude viver

Eu perdi o meu medo
O meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando
Pra terra traz coisas do ar

Aprendi o segredo, o segredo
O segredo da vida
Vendo as pedras que choram sozinhas
No mesmo lugar

Eu não posso entender
Tanta gente aceitando a mentira
De que os sonhos desfazem aquilo
Que o padre falou

Porque quando eu jurei meu amor
Eu traí a mim mesmo, hoje eu sei
Que ninguém nesse mundo
É feliz tendo amado uma vez...
Uma vez

Eu perdi o meu medo
O meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando
Pra terra traz coisas do ar

Poltronas 

5

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