Revolutionary Road - pintura doméstica II, variações sobre o mesmo tema

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em sab, 09/17/2011 - 01:14

Há um certo cânone na pintura doméstica holandesa, cujo principal representante seria Johaness Vermeer, pintor flamengo. Em suas obras, as janelas e a luz que por elas entra tem uma função quase opressora, em que as mulheres, realizando trabalhos domésticos, por vezes se arriscam a olhar para fora, um mundo que não lhes pertence. São as mesmas aterradoras janelas que iluminam a casa de Frank e April Wheeler, na Rua da Revolução.

 

Sam Mendes, o diretor do excelente Beleza Americana, depois de criar uma atmosfera noir em Estrada para Perdição e ironizar a guerra em Soldado Anônimo, volta ao tema de seu primeiro filme – o comentário sobre a fútil vida de aparências do subúrbio americano. Por mais que eu adore Beleza Americana, não consigo evitar afirmar que este quarto filme é superior ao filme de estreia de Mendes.

Diferente do filme que venceu o Oscar em 2000, o comentário de Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road) não traz a artificialidade sarcástica daquele filme, tampouco o roteiro “clever” e as peculiaridades visuais oníricas. Não. O conto da frustração do jovem casal Frank e April Wheeler é narrado de maneira mais crua, com um realismo, embora às vezes flerte com a estética dos melodramas dos anos 40 e 50, época na qual o filme se passa. Trata-se da adaptação do jovem clássico da literatura norte-americana Rua da Revolução, de Richard Yates, que infelizmente não li, portanto, perdoem-me os adaptation haters, mas não penso em efeito de comparação entre a fonte e o filme. Se tivesse lido, provavelmente o faria. Mas não é o caso.

Após a breve introdução mostrando como o casal se conheceu, uma elipse nos leva a um casamento já levemente desgastado. Os dois acreditavam-se, quando jovens, estarem destinados a algo maior. Ela, sonhando com a carreira de atriz. Ele, sonhando com uma vocação que não sabia qual era. Com os anos de casados, a casa suburbana que compraram e os filhos que vieram, os sonhos dos dois foi minguando. Frank parece estar num caminho de aceitação de ter o mesmo destino de seu pai – o clichê do homem de família que flerta com as secretárias e chega em casa falando “querida, cheguei!”. E April, nega sua condição de simples desperate housewife, e alimenta suas esperanças ao planejar uma mudança de vida para sua família.

A diferença crucial de Beleza Americana para Revolutionary Road (vou chamar pelo nome original, pois não acho que o título em português mantenha a integridade)é estética, está no desenho de produção e na direção de fotografia, que transformam totalmente a abordagem de Mendes: Beleza Americana foi completamente gravado em estúdio. A rua suburbana onde o personagem de Kevin Spacey vive seu último ano de vida é completamente artificial, e isso se faz perceptível ao passar a sensação de que estamos vendo uma maquete de uma vida naquele filme, e não uma vida de fato. Vindo na contramão, Revolutionary Road foi inteiramente gravado em locações. A casa encurralada pelas elevações geográficas onde os Wheeler moram, de fato existe. A fotografia, ao recusar os planos frontais e bem compostos de seu gêmeo temático, traz um conceito diferente. Os enquadramentos mais abertos e desequilibrados de Sam Mendes e do fotógrafo Roger Deakins sempre mostra seus personagens com suas cabeças quase alcançando o teto, dando a impressão de que o pé direito é menor do que realmente é, encurralando os personagens numa casa-de-bonecas, criando uma atmosfera menos artificial e menos agressiva, e talvez por isso, mais poderosa e menos datada.

O design de produção de Kristi Zea (Os Infiltrados Silêncio dos Inocentes), mais do que uma reconstituição perfeita de época,tem raízes na tradição de pintura doméstica europeia. As já citadas janelas tem uma função importante, em cenas cruciais para os Wheeler. No clímax do filme, a luz que entra pela janela ilumina a perfeição da sala de estar do casal, que contrasta apenas com uma mancha de sangue solitária no carpete. Outro comentário interessante é a brincadeira que o filme faz com o melodrama, ao mostrar o casal beijando-se sob a chuva, cena clássica do gênero, mas que no filme, mostra-se ser apenas um irrigador de jardim. Os figurinos também, reproduzindo os anos 50, diferenciam April frente às outras mulheres do filme, mas tornam Frank apenas um homem de terno e chapéu em meio a uma multidão de ternos e chapeis.

A recepção do filme, na época, dividiu-se frente ao filme de Sam Mendes. Entre as críticas que li, algumas delas acusavam o roteiro de negligenciar a existência das crianças, e são, de fato, uma surpresa os momentos em que elas surgem. Mas me parece ignorância por parte da crítica que se acuse essa escolha de “erro” sem perceber que ela é, de fato, uma escolha. As crianças só se fazem importantes para segurar os personagens à Rua da Revolução, como âncoras prendendo navios ao porto, pois acaba sendo esse o papel dos filhos na vida doméstica do casal.  O filme intercala momentos em que sentimos a dor do casal e outros em que somos simplesmente analistas de uma malfadada terapia, algo que não considero defeito de maneira alguma, pelo contrário. 

Não escondo de ninguém a admiração que tenho pelos intérpretes dos protagonistas do filme. Leonardo DiCaprio é, para mim, um dos maiores atores de sua geração e Kate Winslet, uma das grandes atrizes que despontaram no final dos anos 90. As atuações dos dois, na grande maioria dos filmes que participaram, são motivos de destaque. A superexposição de Titanic criou um preconceito ao redor dos atores, que impede essa parte do público de perceber que mesmo no tão aclamado melodrama de James Cameron, os dois entregam atuações excelentes. Inclusive, na ocasião do lançamento de Foi Apenas um Sonho, o preconceito voltou a se manifestar já que a volta da parceria de um dos casais mais famosos do cinema foi utilizada até mesmo como ferramenta de marketing e boca-a-boca. Uma pena, pois os frustrados Frank e April não poderiam ser mais contrastantes com os idealizados Jack e Rose. Leo e Kate equilibram a química e a falta dela na medida certa, criando uma tensão crescente entre os dois, construindo seus personagens com sutilezas, sem a artificialidade histérica de Kevin Spacey e Annette Benning, conceito que cabia perfeitamente para Beleza Americana, mas que seria um risco cair nisso em Foi Apenas um Sonho.

Fora Leo, Kate e o elenco de apoio que sustenta a mediocridade suburbana dos personagens coadjuvantes (que ao lamentarem uma possível viagem de seu casal-modelo, estão, na verdade, lamentando sua própria inabilidade de fazer o mesmo), o outro personagem que consegue ver além da ponta do Iceberg é John, o matemático saído do sanatório que o ator Michael Shannon constrói em pouquíssimas cenas, como o personagem que solidifica a ironia do título do filme, e também julga moralmente os protagonistas ao afirmar que “Muita gente percebe o vazio, mas poucos percebem a falta de esperança”, que na verdade, acaba por se referir ao próprio casal, que ainda tenta manter uma ilusória chama acesa, mas que o vento vindo da Rua da Revolução, que atravessa as janelas domésticas, insiste em apagar, talvez pois a opressora Rua (um personagem da história) acredite que a luz que por elas entra sejam o suficiente.

Poltronas 

5

Comentários

imagem de Ghuyer

Enviado por Ghuyer em seg, 09/19/2011 - 01:00

.. mas melhor que o filme. Já o vi duas vezes, mas o longa nunca surtiu muito efeito em mim. Tua crítica, no entanto, o elevou no meio conceito.

E concordo com a tua observação sobre as crianças. De fato a "negligência" do roteiro é proposital, e eficaz.

imagem de Luciana

Enviado por Luciana em ter, 09/20/2011 - 21:42

..filme e excelente crítica!

E também concordo com a observação de vocês sobre as crianças.

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.