Tarde Demais

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Enviado por Luciana em dom, 11/06/2011 - 22:50

Filmes que envolvem chacinas adolescentes e similares possuem uma tendência a ser realizados tendo como foco a primeira pessoa, o mentor da tragédia. Diferentemente de outros filmes de mesmo tema, como Elephant (2003) de Gus Van Sant, em Tarde Demais de Shawn Ku, a abordagem é feita de forma inversa. Aqui observamos a chacina cometida por um garoto pela ótica dos pais, daqueles que sofrem e tentam entender o que poderia ter levado o filho a tal ato desesperado.

Bill Carrol (Michael Sheen) é um ocupadíssimo executivo, enquanto sua esposa Kate (Maria Bello), apesar de dona de casa e revisora, é uma mulher igualmente ocupada. Seu filho Sam (Kyle Gallner) tem 18 anos e pela primeira vez passa o ano longe de casa e da família, na faculdade. Em um primeiro momento, esse afastamento familiar pode parecer algo novo para Sam, entretanto, na prática, é algo que ele já presenciava diariamente na figura de seus pais: não dormem juntos, fazem as refeições distantes um do outro e a pouca comunicação que existe entre eles, se restringe ao estritamente necessário. Assim, não nos surpreendemos ao observar que tanto o pai, quanto a mãe possuem “sonhos de consumo” completamente opostos (ela, uma viagem de férias em família; ele, uma nova aquisição imobiliária).
 
 
O roteiro de Michael Armbruster e Shawn Ku acerta em cheio ao nos mostrar nos pequenos detalhes, tanto essa distância familiar, quanto o temperamento de cada membro da família. Ponto também para a direção de fotografia de Michael Fimognari, que se apresenta dessaturada, com cores tristes ao longo de quase todo o filme. Talvez o único momento em que podemos perceber uma leve mudança nesse tom, é quando as coisas parecem estar entrando nos eixos novamente (se é que em algum dia isso já ocorreu com a família Carrol).
 
Na noite anterior ao fatídico episódio na faculdade, ele entra em contato com os pais em uma tentativa vã de chamar sua atenção para o redemoinho de emoções em que se encontrava. Pelo que vamos percebendo ao longo da projeção, o garoto teve uma infância difícil e nunca conseguiu lidar facilmente com os sentimentos, ao ponto em que os pais percebem que não conhecem bem o filho, e que não fazem nada a mais para tentar conhecê-lo. Daí, a dúvida da culpa.
 
 
Com os meios de comunicação focando no caso, o casal perde sua privacidade e sossego, e na tentativa de fugir disso, acabam tendo sua relação cada vez mais deteriorada. O roteiro é muito eficaz ainda nesse ponto, ao fazer com que consigamos perceber através dos acontecimentos, e das excelentes atuações de Sheen e Maria Bello, o tipo de pessoa que cada um deles é. Ao ponto em que Bill se entrega ao esporte para esquecer a dor, Kate se dedica às tarefas mais variadas, mas nenhum deles consegue parar para analisar exatamente em que ponto está. A dor é tão palpável, que conseguimos perceber através de sua aparência física o que todos esses acontecimentos estão lhes causando.
 
  
 
Parece fácil apresentar a história de um garoto revoltado que sai atirando e matando a todos em uma rede de ensino. E até pode ser que seja. Mas, mostrar o que ocorre por trás de tudo isso, a dor e as consequências desse ato insano (e por que não dizer desesperado) para os que ficam. Nesse ponto Shawn Ku consegue se superar e é aí que reside a beleza do longa, de não ser somente mais uma obra entre tantas, mas de ser um filme que nos permite olhar pelo outro lado da porta, pelo lado de quem fica.
 

Poltronas 

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Comentários

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Enviado por Gugaleso em seg, 11/14/2011 - 06:28

Lu, ainda não assisti o filme, mas gostei do teu comentário. Vou assistir hoje, mas a trama soa muito semelhante a Precisamos Falar Sobre Kevin, que na minha humilde opinião é um dos melhores filmes deste ano.

O teu comentário despertou meu interesse, como este filme ainda não estreou por estes lados, vou "alugar"ele.

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Enviado por Luciana em seg, 11/14/2011 - 09:34

Gustavo, estou super curiosa pelo filme Precisamos Falar Sobre o Kevin, por aqui ainda demora a aparacer. O livro é excelente e pelo que já li na rede, conseguiram passar a essência da história para a tela. Em Tarde Demais o assunto é colocado de uma forma, que ao meu ver cativa o espectador. Não é o que acostumamos a ver em filmes desse tema. E tem uma beleza, uma riqueza de detalhes... inclusive hoje devo revê-lo. Tem coisas que não tinham como ser colocadas no texto sem que perdessem o sentido assistindo. Acredito que tu vá gostar.

E é interessante este filme não ter estreado por aí. Aqui estreou acho que com cerca 1 ano de atraso, e se pesquisarmos na internet vemos que já está sendo lançado em dvd fora do Brasil.

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