Um Gato em Paris

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Enviado por Maza em dom, 06/12/2011 - 16:18

Já faz décadas que o gênero de animação deixou de ser algo específico para crianças, filmes infantis sem um senso de realidade e baseado apenas em uma história simples para entreter os menores. Podemos citar casos como Akira nos anos 80, na década de 90 estúdios como Dreamworks e Pixar que desenvolveram filmes com nítidos avanços tecnológicos, mas principalmente com uma estrutura narrativa, uma história que na maioria dos casos pudesse entreter tanto crianças como adultos, filmes para todas as idades. O gênero atualmente é assim, cada vez mais concorrido. Na década passada ficou ainda mais evidente a qualidade do gênero da animação, as produções de qualidade vinham de todos os locais, as mais variadas produções, na qual podemos citar o belo filme mudo O Mágico, passando pelo brilhante – e um tanto quanto sombrio – A Viagem de Chihiro, e o emocionante Mary e Max, apenas para citar alguns poucos filmes. Diante de tudo isso, é inexplicável um projeto tão ineficaz, tolo e ingênuo como Um Gato em Paris ganhar credibilidade para ser produzido.

 
Dirigido por Alain Gagnol (também roteirista) e Jean Loup Felicioli, Um Gato em Paris acompanha Dino, um gato preto com traços vermelhos (é bem isso) que tem sua vida dividida entre duas casas. Durante o dia vive com a menina Zoe (filha de Jeanne) e de noite vive a saltar, a escalar muros, casas, prédios e outras construções com Nico. Suas vidas serão cruzadas pelo vilão Victor Costa, que está prestes a roubar uma importante estátua, a estátua do Colosso de Nairóbi. 
 
 
Uma característica que me incomodou ao longo de todo o filme foi a inexistência, a tentativa de uma construção, mínima que seja, de seus personagens: Zoe é uma menina calada, triste, solitária. Muito em função da morte de seu pai pelas mãos de Costa, mas também pela evidente ausência da mãe em casa. As duas não desenvolvem uma relação de mãe e filha. Mesmo sendo criança ele sabe a respeito da perda do pai, pois quando a garota vê uma foto do assassino, sua mãe (delegada de polícia) não hesita em dizer: sim, ele foi quem matou sei pai e estamos atrás dele para colocá-lo atrás das grades. Zoe não fala, permanece sempre calada, como se a dor da perda fosse o motivador, mas em determinada cena vemos ao fundo um quadro dela com seu pai em que ambos estão sérios, ou seja, ela já era assim antes da perda. Seu gato é seu companheiro e quando tenta dialogar com a mãe, a mesma está sempre super ocupada com o serviço, não podendo dar o mínimo de atenção para a filha (ao menos sabemos que além de gato, ela é fã de todos os tipos de animais, desde peixes a aranhas, chegando a guardar lagartixas mortas em uma lata de sardinha, lagartixas estas trazidas por Dino, ao amanhecer de cada dia). Enquanto isso, quando a noite cai observamos Nico roubando jóias, dinheiro, peças raras entre outras peças valiosas. Novamente observamos que nada disso é trabalhado de maneira mínima, Nico é um ladrão ao estilo Robin Hood, mas por que faz isso, para dar aos pobres, por raiva dos mais ricos, por revolta contra a sociedade? Não perca seu tempo tentando encontrar isso no filme, nada disso é explicado. O vilão Victor Costa é outro personagem caricato, clichê ao extremo. Para uma pessoa que assassina quando é preciso, é no mínimo incoerente que elabore um plano de assalto e que cada um de seus capangas (tão ameaçadores e espertos quanto qualquer integrante da Turma do Didi) tenha um codinome de... animais, pasmem (reforçar a ideia dos animais na obra? Brilhante!). Retornando à mãe de Zoe, Jeanne tem pesadelos constantes com Victor Costa. Em suas visões o mesmo sempre aparece gigante, em tons vermelhos e em formato de lula... Em nenhum momento de todo o longa há alguma menção, explicação ou algo similar do por que desse tipo de visão.
 
 
 
Apesar de tudo o que já foi mencionado a respeito da obra, é necessário citar alguns poucos acertos, como os trejeitos do gato. É interessante como notamos claramente quando o animal está desconfiado, quando ele sente o perigo, está animado, tudo bem feito embora nada sutil. E é no mínimo curioso como tudo isso venha a ser transmitido somente através da visão, do olhar do protagonista do filme.  E também uma cena em especial no terceiro ato, quando na "cena do crime" as luzes se apagam e Nico e Dino precisam encontrar Zoe, a tela fica em plena escuridão e observamos os personagens apenas através de seus traços em branco, um recurso no mínimo interessante em meio a mediocridade de toda a obra.
 
 
Pontuado por momentos clichês como o de a empregada ser a vilã, mas só a garota saber, perseguições pela noite de Paris (e sempre com imagens da Torre de Eiffel ou da Catedral de Notre Dame ao fundo, para sabermos afinal, que o filme se passa em Paris, como se apenas pelo título não ficasse claro o suficiente), duelo entre mocinho e vilão, Um Gato em Paris é um filme de 60 minutos que é chato, por vezes bastante arrastado e com uma história que talvez só agrade a crianças que não tenham nada o que fazer em uma tarde chuvosa. Ou melhor, em tempos de tantas animações de qualidade como as já citadas, não perca seu tempo com essa obra, o filme não merece esse esforço.
 
P.S. 1: E filme é exibido pela primeira vez no país no 2º Festival Varilux de Cinema Francês (que já divulgamos aqui ). Tendo em vista o investimento feito esse ano para o Festival, com presença de atrizes como Catherine Deneuve, Audrey Tautou entre outras, é de se espantar que um filme de péssima qualidade como este tenha entrado na mostra do Festival.
 
P.S. 2: Se não bastasse o citado anteriormente, um Festival que busca justamente divulgar e ampliar o cinema de sua própria origem Francesa, é no mínimo infeliz na decisão de exibir o desenho dublado e não com som original. Um Gato em Paris é dublado e "a" dublagem é bastante precária, por vezes constrangedora. Os cinemas exibidores deveriam deixar claro esse tipo de informação, que o filme não será exibido com som original. Na sala em que assisti ao filme, no ingresso de cinema, em nenhum momento fazia menção a essa informação. E digo que a perplexidade e até indignação com a falta de informação não é apenas minha, mas de boa parte da plateia que quando percebeu que o filme era nublado bufou e até algumas pessoas simplesmente se levantaram e foram embora da sessão. Esperamos que em uma próxima edição do Festival não venha a ocorrer isso novamente, pois só diminui a importância de uma iniciativa como essa. 
 

Poltronas 

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Comentários

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Enviado por Luciana em dom, 06/12/2011 - 16:34

O filme é muito ruim, e quando descobri que era dublado era tarde demais. Já estava sentada na sala e não ia sair.

Quanto ao gato, o bicho era realmente "inteligente". Pelo olhar dele dava pra saber o que estava acontecendo. Mas enfim, isso nem de perto salva o filme do desastre completo.

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Enviado por Giordano em seg, 06/13/2011 - 01:54

gente, faz meses que quero muito ver esse filme. não pude ir. 

Bom, ainda quero muito ver. Quero ver se vou quarta feira. 

 

imagem de Maza

Enviado por Maza em seg, 06/13/2011 - 07:51

você acabará aproveitando, gostando do filme...sei lá, realmente achei muito irregular a obra e ver dublado não ajudou nem um pouco na avaliação.
Abraços e boa sorte.

imagem de Bernardo

Enviado por Bernardo (não verificado) em dom, 07/10/2011 - 14:37

O filme tem uns recursos interessantes, mas foi meio mal trabalhado e o excesso de clichês meio que estraga a obra. Filme que se passa em Paris não precisa ficar mostrando torre eiffel o tempo inteiro, Vide O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

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