Um Misterioso Assassinato em Manhattan

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Enviado por Luciana em seg, 06/04/2012 - 22:07

Alguns diretores merecem todo o nosso respeito, e Woody Allen faz parte dessa categoria. Seguindo na ideia de assistir à maioria possível de seus filmes – já comentei anteriormente sobre Bananas (Bananas, 1971) – resolvi assistir a Um Misterioso Assassinato em Manhattan (1993). E que maravilha de filme!

Aqui temos novamente a oportunidade ver a química perfeita entre Woody Allen e Diane Keaton, principalmente após vários anos sem trabalharem juntos (ela havia trabalhado em A Era do Rádio, de 1987, e mesmo assim como participação especial). É incrível a naturalidade com que eles interpretam seus personagens e o carisma que eles têm.

Eles formam o casal Larry e Carol, que têm suas vidas sacudidas ao voltarem de um jogo de hóquei e conhecerem no elevador os seus vizinhos Paul e Lilian House. Percebam na cena que se segue a postura de Larry diante da conversa de seus vizinhos, a forma como a câmera se aproxima de Carol em determinado momento enquanto ela fala, mas que é praticamente impossível tirar os olhos de Larry na cena e prestar atenção nela.

Apesar da excelente forma física de seus vizinhos, no dia seguinte ao encontro Lilian morre de um infarto fulminante. A mente de Carol é extremamente criativa e ela suspeita que seu vizinho assassinou a esposa. Ela se torna obsessiva em investigar por conta própria seu vizinho – incluindo invadir o apartamento do mesmo enquanto ele sai – o que deixa seu marido Larry em pânico.

Mais uma vez vale ressaltar as fabulosas interpretações de Allen e Keaton, mas Anjelica Huston na pele da escritora Marcia Fox – que causa ciúmes em Carol, pois como Larry é editor eles chegam a trabalhar juntos – e Alan Alda como o galanteador Ted também merecem destaque. A cena em que os quatro se juntam para tentar desvendar o mistério sobre a morte (ou assassinato) da Sra. House é de uma construção perfeita, tamanha a engenhosidade. Aqui, é claro, entra em cena o excelente roteiro de Woody Allen e Marshall Brickman. O clima de suspense e tensão complementa o descontraído clima de comédia, e vice-versa. Ainda sobre suspense, é curioso perceber o senso de Allen na direção, homenageando Hitchcock (o eterno – e merecido – mestre do Suspense) quando nos brinda com cenas tão características da filmografia do gordinho inglês. Aqui, a fórmula de gerar tensão com o que a plateia observa e de que pouco ou nada seus personagens percebem (o que fica claro na sequência que Keaton invade o apartamento do vizinho enquanto o mesmo decide voltar para casa).

Algumas falas de Woody Allen entram para a lista de “pérolas” ou “frases inesquecíveis” do diretor, e nesse filme não poderia ser diferente, como a frase que ele solta em determinado momento: "Não posso escutar muito Wagner. Fico com vontade de invadir a Polônia". Mas o destaque absoluto vai para a “cena do elevador”, em que Woody Allen arrasa, e mesmo diante da tensão da situação, é impossível não rirmos muito nessa cena.

O roteiro ainda acerta em cheio ao citar clássicos do Cinema, como ao colocar uma propaganda na lateral de um ônibus citando Vertigo (título original de Um Corpo que Cai, 1958, de...Hitchcock!), ao mostrar o filme a que Carol e Larry assistem no cinema, Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), ou ainda, no terceiro ato do filme, quando Allen se utiliza de uma cena do filme A Dama de Shangai (The Lady From Shangai, 1947), de Orson Welles numa sequência emblemática e especialmente tensa. E claro, Woody não perde a oportunidade de fazer menção a um de seus artistas prediletos e de forte inspiração em sua carreira, o que fica evidente na cena em que ele cita: “não quero ir para a casa dos vizinhos, quero ir para casa, está passando um filme de Bob Hope na tv, não posso perder o filme de Bob Hope”.

O diretor de fotografia Carlo Di Palma acerta ao se utilizar de tons mais neutros que fazem com que Carol e Larry pareçam fazer realmente parte daquele cenário – parecendo tornar tudo mais real – já que, mesmo alegres e espontâneos estão sempre vestidos de forma bastante sóbria. Outro destaque é para a excelente trilha sonora, que entre tantas composições, conta com a canção “I Happen to Like a New York”, de Cole Porter logo na abertura do filme.

Desvendando ou não o mistério, passando por situações das mais tensas às mais engraçadas, o longa se supera a cada minuto. A história é envolvente e interessante.

E Woody Allen consegue fazer de Um Misterioso Assassinato em Manhattan algo delicioso de se assistir. Você consegue se transportar para aquele cenário e fazer parte daquela história durante as suas quase duas horas de duração. E a cena final do filme só vem a confirmar o quão talentosos são Allen e Keaton, que mesmo que ficassem calados, conseguiriam através de seus gestos nos passar exatamente o que estavam sentindo e pensando naquele momento.

Poltronas 

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