Vida Sobre Rodas

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Enviado por Maza em dom, 12/25/2011 - 00:46

Desde sempre, quando o assunto é esporte, o Brasil é tratado como o (falso) país do futebol. Não interessa se em outrora o basquete de Oscar venceu a supremacia americana, se a geração olímpica de vôlei passou por cima dos adversários em Barcelona, se Gustavo Kuerten foi o melhor jogador de tênis do mundo por dezenas de semanas seguidas... A imprensa – de uma maneira em geral – sempre glorifica a arte da pelada em detrimento a outros esportes. Felizmente estamos produzindo diversos filmes para registrar ocontrário. E nesse ponto é gratificante observar o documentário Vida Sobre Rodas, que se não uma obra perfeita, ao menos possui uma abordagem válida sobre os skatistas e a relação Brasil e Mundo.

 

Dirigido por Daniel Baccaro, o longa traz um panorama do skate no país desde seu começo nos anos 80. Embora em um primeiro momento possa parecer um relato bairrista, Vida Sobre Rodas mostra que São Paulo sempre foi o início de tudo o que diz respeito askate no país. Guaratinguetá tinha uma pista ampla e acabou rapidamente se tornando a capital do Skate Brasileiro, atraindo não só os olhares do público daqui, como de estrangeiros já renomados, tais como Christian Honsoi, uma espécie de desbravador do esporte e peça fundamental para o crescimento dos adeptos no país. Entre manobras das mais diversas, acompanhamos os relatos de diversos skatistas e incentivadores do esporte.

Logo de cara é possível notar o tom do documentário, já em seu início observamos as pistas, milhares de pessoas olhando e skatistas nos seus flashs, madonnas, damas de street, twist e outros.  Não entendeu nada do que foi dito no parágrafo anterior? Não importa, é assim mesmo que é tratado o tema.O longa tem seu foco parecendo quase que exclusivamente aos skatistas, com raros momentos citando um movimento e sobrepondo a ele imagens nas quaispodemos fazer a identificação daquela manobra. Talvez tal decisão poderá deixar alguns espectadores desconfortáveis pela falta de informação das manobras que o roteiro de Guilherme Keller faz questão de ressaltar. Para mim isso foi algo agradável de encontrar nas telas, cada um que tenha interesse em saber mais a respeito do esporte que saia a procura.  Ao invés de perder tempo com isso, observamos o surgimento de nomes como Lincoln Ueda, Sandro Dias, entre outros skatistas que contribuíram para o crescimento do skate no país.

Outra virtude do longa é em nenhum momento tentar criar uma aura daquilo que os skatistas não são, todos eram mostrados cada um a qual estilo e ainda, o roteiro não utiliza de subterfúgios para esconder temas como a crendice de que skatistas são todos balaqueiros, provocadores, agitadores e similares. De fato alguns até são, tais como Glauco ou ainda Thronn (ou ainda Not Dead, o famoso skatista e ladrão de pizzas da noite). O skate era sim uma forma de esporte que qualquer um poderia praticar, desde Thronn, balaqueiro, que fazia seu skate com sobras de outros equipamentos, até Mureta, que tinha sua própria pista de skate em casa e tudo o que precisava tinha a seu dispor.

Os anos 80 talvez apenas não tenham sido a época do estopim do Brasil para o mundo, pois a marca de tênis Mad Rats bombava em todas as paradas, todos os skatistas ansiavam por aquela marca (alguns diriam, uma espécie de “Kichute” do futebol), quando na verdade ela era sim uma marca brasileira, sendo uma cópia de um design de fabricação americana, com logotipo de uma bermuda americana. As equipes brasileiras quando iam disputar campeonatos fora do país sofriam represálias, causando constrangimento e não conseguindo o treinamento adequado.

Mesmo com todas as dificuldades citadas, o Brasil atingiu a quarta colocação no campeonato mundial da Alemanha, com Lincoln Ueda. Como disse um dos entrevistados, esse era um momento em que o Brasil estava tendo a visibilidade para o crescimento, não podemos “fazer cagada daqui para frente”. Não se restringindo apenas ao campo do esporte e seus protagonistas, Vida Sobre Rodas aproveita para lembrar (ou até estarrecer) de uma passagem absurda, para não dizer hipócrita, ocorrida em São Paulo. No fim dos anos 80, um insano Jânio Quadros proíbe o acesso dos skatistas ao parque do Ibirapuera. Não satisfeito com tal medida, a mesma é expandidae passa a valer para toda a cidade de São Paulo. Motivo: a velha e estúpida associação de que skatista é maconheiro, arruaceiro e similares. Os depoimentos deixam claro o surreal que tomava conta da cidade: com carros, caminhonetes da polícia atrolhados de skates apreendidos. Obviamente que uma decisão tão equivocada assim só traria (e trouxe) ainda mais adeptos e mídia ao esporte. Em 1990, a então prefeita Luiza Erundina revoga a lei e ainda aparece em foto clássica como se fosse a própria skatista. Dito isso, é curioso observar que o que poderia identificar como uma indireta posição partidária pró Erundina (o que prejudicaria a obra, mudando o foco da abordagem) é derrubado de forma sucinta, mas eficaz pelo skatista Márcio Tarobinha: “ela revogou a lei, mas pelo Skate ela não fez nada”.

E logo adiante, observamos o início dos anos 90, com Collor no governo, bloqueio de poupança e pânico na economia brasileira de um modo geral e claro, o skate foi duramente atingido, e diferente do fim dos anos 80, quando da citada proibição do skate, a crise foi impossível de ser manobrada. Praticamente nenhum skatista saiu ileso da crise e nem um twist, nem um 540º frontside superaria isso.

A retomada do Skate Brasileiro perante o mundo foi já entre meados e fins dos anos 90, quando skatistas começaram a ganhar campeonatos mundiais e colocaram o país não mais como promessa, mas como local de grandes e reconhecidos talentos do esporte. E a prática tão habitual dos anos 80 nos parques, nas ruas, já toma outros ares, com vários skatistas assumindo que o local para servir com sua paixão pelo skate é mesmo lá fora.

Vida Sobre Rodas poderia ter um desfecho que faria uma coerente ligação com seu início, quando observamos um skatista solitário fazendo seus treinamentos, suas manobras em meio a uma pista isolada, com uma fotografia acertada de Pierre de Kerchove que parece nos mostrar manobras sendo realizadas entre as sombras, seja na luz do dia ou na penumbra da noite. Ao invés disso, o roteiro de Guilherme Keller opta por relembrar o acidente de carro de Cristiano Mateus, que praticamente teria que abandonar o esporte, mas que ao invés disso continuou praticandoe consegue uma manobra ultra arriscada no último plano, para delírio da plateia e ainda para salientar a ideia de que Skate é um esporte de treinamento, repetição e sim, muita garra. Um desfecho com emoção, mas confesso que o plano do skatista solitário na penumbra da noite teria funcionado melhor.

Entre erros e acertos, Vida Sobre Rodas é um bom documentário sobre o esporte no país nos últimos 20-30 anos, desde o surgimento, crise e ascensão. Para nós que vivemos no tal (falso) “País do Futebol”, é sempre algo gratificante observar esse tipo de esforço, de desmistificar que o país está longe de ser um local apenas de samba, mulata e futebol, e sim um lugar com tantas outras coisas, incluindo terra de talentosas pessoas que andam sobre algo muito maior do que apenas “um pedaço de madeira em cima de 4 rodinhas”.

Poltronas 

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